Após 18 anos, Wandi Doratiotto volta ao Bem Brasil e celebra reencontro com a música brasileira
“Parecia que não tinha existido esse hiato de 18 anos.”
Foi assim que o apresentador Wandi Doratiotto definiu seu retorno ao Bem Brasil, programa musical que voltou à grade da TV Cultura em parceria com o Sesc São Paulo. A nova fase estreou no último dia 7 de junho, diretamente do Sesc Itaquera, tendo como convidado o cantor Carlinhos Brown.
Para quem acompanhou o programa em sua primeira fase, o reencontro tem um sabor especial. Para Wandi, porém, a sensação foi ainda mais surpreendente.
“Eu estava completamente à vontade. Parecia realmente o resgate de um tempo muito feliz. Não estou falando de algo pessoal, mas de um programa que reúne esse combo maravilhoso: o Sesc, a TV Cultura e os artistas incríveis que o Brasil tem”, conta.
Um retorno que já vinha sendo sonhado
Segundo Wandi, a retomada do programa não aconteceu de forma repentina. Havia anos que a ideia circulava entre reuniões e conversas.
“Nós vínhamos tentando refazer o programa há muito tempo. Fizemos duas edições especiais no final do ano passado e, em tese, aquilo já seria um passo para a continuidade. Mas só agora realmente aconteceu.”
O convite oficial veio de forma curiosa. Um dos diretores da TV Cultura, Celso Tavares, que mora no mesmo prédio que o apresentador, chamou-o para uma conversa no saguão. Ali começou a se concretizar um projeto que já estava “no ar”, esperando apenas o momento certo para voltar.
O mesmo Wandi, só que mais experiente
Ao rever registros antigos da época em que comandava o Bem Brasil, Wandi percebeu algo inesperado.
“Honestamente, parecia a mesma pessoa. Claro que a experiência muda a gente. Hoje sou mais tranquilo, mais seguro. Mas continuo com a mesma disposição para fazer um programa que exige energia, alegria e proximidade com o público.”
Ele divide agora a apresentação com a jornalista Roberta Martinelli, conhecida por seu trabalho de valorização da música brasileira contemporânea.
“Ela tem uma expertise muito bonita com as bandas mais novas. Fica ali conversando com o público, provocando encontros, criando conexões. Isso enriquece bastante o programa.”
Uma vitrine para toda a música brasileira

Desde o início, o Bem Brasil nasceu com a proposta de valorizar a produção musical do país. Embora tenha começado com forte presença do choro, logo ampliou seus horizontes.
“Rapidamente percebemos que não dava para fazer um programa só de choro. E aí entrou de tudo: rock, MPB, música regional, guitarra, contrabaixo, todas as estéticas possíveis. O programa nunca foi dono de uma estética. Ele sempre abriu espaço para que os artistas apresentassem seu trabalho.”
Para Wandi, essa característica transformou o Bem Brasil em uma importante vitrine da música brasileira.
“A primazia nunca foi do apresentador, nem da televisão, nem do Sesc. A primazia é da música.”
Ele lembra, por exemplo, de uma declaração feita por Lulu Santos após participar do programa.
“Ele disse que nunca tinha feito um programa em que pudesse tocar seu repertório inteiro, do jeito que queria, sem interrupções que quebrassem o fluxo do show. Isso mostra a proposta do Bem Brasil.”
O desafio de fazer música ao vivo em tempos digitais
Em uma época marcada pelo consumo acelerado de conteúdo nas redes sociais, Wandi acredita que programas musicais ao vivo oferecem uma experiência diferente.
“A internet é remédio e veneno ao mesmo tempo. Ela trouxe muitas coisas boas, mas também reduziu um pouco a paciência das pessoas. Depois de alguns segundos, muita gente já quer mudar para outra coisa.”
Segundo ele, o show ao vivo cria uma experiência mais completa.
“Você vê o artista, o figurino, a banda, a iluminação, as expressões. Tudo isso faz parte da experiência. É um presente para os olhos e para a sensibilidade.”
O Sesc assume a curadoria
Uma das novidades desta fase é que a curadoria artística dos primeiros meses está sob responsabilidade do Sesc. No passado, a escolha dos artistas era feita pela própria equipe do programa.
“Nós sentávamos, discutíamos os nomes, avaliávamos possibilidades. É um trabalho muito complexo. E, sinceramente, eu até perdi alguns amigos músicos porque achavam que eu era quem decidia tudo”, brinca.
Agora, ele vê a participação do Sesc como um grande diferencial.
“O Sesc tem recursos, experiência e conhecimento para escolher bons artistas. Isso nos dá tranquilidade e amplia ainda mais a qualidade da programação.”
O futuro do Bem Brasil
Após a estreia com Carlinhos Brown, a próxima atração anunciada é Sandra de Sá, uma artista que Wandi define como “a síndica brasileira”. O apresentador acredita que o programa deve continuar reunindo nomes consagrados e novos talentos.
“Quero ver artistas que já têm uma trajetória forte e também gente nova, tentando fazer algo diferente. Todo artista tem valor. Você pode gostar ou não, mas se ele chegou até ali é porque tem algo a dizer.”
Mais do que um programa musical, Wandi enxerga o Bem Brasil como um espaço de encontro entre gerações, estilos e públicos.
“Meu desejo é que a gente continue fazendo um programa livre, sem frescura, sem amarras. Um programa onde a música tenha a primazia total.”
Dezoito anos depois, o palco mudou, a tecnologia mudou e o público também. Mas uma coisa parece permanecer intacta: a paixão de Wandi Doratiotto pela música brasileira e pela arte de apresentá-la ao vivo.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










