Futebol

Entre o descrédito e o Hexa: o que a história das Copas ensina sobre 2026

Copa de 2026: Thiago Uberreich acredita que o Brasil pode surpreender e chegar ao Hexa

Quem me conhece sabe que eu não entendo nada de futebol. Mas, segundo o jornalista Luiz Carlos Ramos, eu sei fazer boas perguntas, e isso já ajuda bastante. Por isso, quando decidi falar sobre as expectativas para a Copa do Mundo de 2026, resolvi procurar alguém que realmente entende do assunto. E poucos conhecem tanto a história dos mundiais quanto o jornalista e escritor Thiago Uberreich.

Autor de seis livros sobre Copas do Mundo, Thiago escreveu uma biografia que percorre todas as edições do torneio e outros cinco livros dedicados às campanhas vitoriosas da seleção brasileira. O mais recente, lançado este ano, é “2002 – O Brasil é Penta”, que revisita a conquista do quinto título mundial.

Em um momento em que parte da torcida demonstra mais preocupação com uma possível eliminação do que esperança no hexacampeonato, Thiago acredita que justamente o baixo favoritismo pode ser um trunfo para a seleção.

“A seleção que tem o melhor elenco é a França, mas isso não garante o título. O Brasil é a terceira ou quarta força da Copa, mas pode surpreender”, afirma.

A Copa que mora na memória

Para Thiago, a Copa do Mundo vai muito além do futebol.

“A Copa do Mundo faz parte da memória afetiva de todos nós. Mesmo quem não gosta de futebol tem na memória algum fato marcante relacionado à competição. A gente se lembra com quem estava, com quem assistiu um determinado jogo, uma vitória ou uma derrota.”

Talvez seja justamente isso que explique a força do torneio. As Copas acabam servindo como marcadores da nossa própria história. Datas, momentos e lembranças pessoais frequentemente são associadas aos anos em que o mundo parou para assistir futebol. Mesmo depois de tantos anos pesquisando o tema, a paixão permanece intacta.

“Neste ano, vou até tirar férias nos 25 primeiros dias de Copa para ficar em casa e acompanhar tudo. Continuo gravando os jogos para depois fazer minhas pesquisas quando precisar.”

O desinteresse que incomoda

Apesar da tradição brasileira no torneio, Thiago vê um cenário diferente em relação ao entusiasmo da torcida.

“O que me surpreende é o desinteresse pela seleção e as pessoas apostando em que momento o Brasil será eliminado. Isso me irrita.”

Segundo ele, o histórico recente ajuda a explicar parte desse sentimento. O Brasil não conquista uma Copa desde 2002 e acumula frustrações que continuam vivas na memória dos torcedores.

“O torcedor se lembra de tudo. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha, infelizmente, virou chacota entre os próprios brasileiros. Aquilo foi uma vergonha que nunca vai se apagar.”

Mas ele faz questão de lembrar que o Brasil continua sendo a seleção mais vencedora da história.

“Nunca é demais lembrar que a seleção conquistou o penta em 2002, marca que, até hoje, jamais foi igualada.”

O exemplo de 1994 e 2002

Ao olhar para o passado, Thiago encontra motivos para acreditar. Ele recorda que a seleção de 94 chegou aos Estados Unidos cercada por críticas e desconfiança.

“A seleção saiu desacreditada e era alvo de críticas pesadas. Entretanto, o time de Carlos Alberto Parreira foi pragmático e conquistou o tetracampeonato.”

Já a campanha de 2002 talvez ofereça uma lição ainda mais interessante para os dias atuais.

“A seleção de 2002 teve um período muito turbulento. Foram quatro técnicos, muitas experiências, dificuldades nas eliminatórias e dúvidas sobre a recuperação do Ronaldo.”

Mas havia um ingrediente especial.

“Aquele grupo era fora da curva. Foi uma união poucas vezes vista em qualquer seleção.”

O segredo dos campeões

Depois de estudar todas as campanhas vitoriosas do Brasil, Thiago identifica um padrão comum.

“Todas as seleções brasileiras campeãs foram marcantes por causa da união do grupo. Sem isso, é impossível conquistar qualquer coisa.”

Para ele, o talento individual é importante, mas não suficiente.

“Os jogadores têm que saber que aqueles 50 dias juntos podem mudar as suas vidas. O título de uma Copa coloca o atleta em outro patamar.”

Curiosamente, o mesmo fator aparece quando ele analisa as grandes derrotas da seleção.

“Creio que as grandes derrotas foram por problemas de união do grupo e pelo clima de já ganhou.”

Como exemplo, ele cita a Copa de 50, quando o Brasil chegou como favorito absoluto e acabou derrotado pelo Uruguai no Maracanã.

Endrick e a esperança brasileira

Quando o assunto é o possível destaque brasileiro, Thiago evita comparações fáceis.

“A gente fala muito do Neymar porque ele é o único jogador das últimas três Copas que carrega características marcantes do futebol.”

Mas um jovem nome chama sua atenção.

“Temos o Endrick que, apesar dos 19 anos, pode surpreender.”

Por outro lado, lamenta a ausência de outro talento da nova geração.

“Eu lamento que o Estêvão tenha se machucado.”

O roteiro já está escrito

Se depender da história das Copas, Thiago enxerga um caminho possível para o Brasil. E ele até imagina qual seria a narrativa perfeita para um eventual hexacampeonato.

“Certamente vai ser a narrativa da seleção desacreditada que surpreendeu o mundo e foi campeã.”

E conclui com uma frase que parece saída de um roteiro cinematográfico:

“Esse roteiro já está pronto. É saber se os deuses do futebol vão querer usá-lo.”

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo