Corte do programa de Diguinho Coruja diverte a internet ao transformar uma discussão sobre a margem do pastel em uma aula involuntária de finanças para empreendedores
Em poucos minutos, o pastel deixou de ser lanche e virou estudo de caso.
Durante o programa comandado por Diguinho Coruja, Marciano foi questionado sobre qual seria a margem de ganho na venda de um pastel. A resposta começou com números, passou por custos, preço de venda e quantidade de unidades, até que alguém resolveu fazer aquilo que costuma colocar muitas ideias de negócio em risco: pegar uma calculadora.
A trilha foi interrompida. O assunto ficou sério. Marciano falou em um pastel que custaria aproximadamente R$ 5 e seria vendido por R$ 6,50. A diferença seria de R$ 1,50 por unidade. O problema é que, durante a conversa, esse valor acabou se transformando em uma margem de 1% ou 1,5%.
Diguinho fez a conta: 1% sobre um pastel de R$ 6 seria apenas seis centavos.
Mesmo que fossem vendidos 500 pastéis por dia, a margem continuaria pequena. E ainda faltava pagar funcionários, ingredientes e outras despesas do negócio. Foi nesse momento que Marciano apresentou seu argumento definitivo:
— É que eu fazia o pastel, né?
A frase derrubou todos no estúdio.
De repente, o problema da mão de obra estava resolvido. Se o próprio Marciano fazia o pastel, aparentemente não era preciso colocar o trabalho dele na conta. Engraçado no programa mas perigoso na empresa.
A internet abriu uma consultoria financeira
Nos comentários do corte, os internautas não demoraram a transformar a conversa em uma espécie de consultoria empresarial coletiva.
“Uma baita aula de finanças entregue de forma gratuita”, escreveu uma pessoa.
Outra definiu Marciano como o profissional perfeito para qualquer empresário:
“O Marciano é o funcionário dos sonhos, ele paga pra trabalhar e sai feliz!”
Também houve quem tentasse organizar os números apresentados durante a conversa:
“5 reais de custo, o pastel custa pro cliente 6,50 e o lucro é 1,5%?”
Entre as brincadeiras, apareceu até uma provocação política:
“Marciano estudou economia com o Haddad!”
Mas talvez o comentário que melhor tenha resumido toda a situação tenha sido este:
“Mano, o cara já abriu o negócio fechando.”
A frase é engraçada porque parece absurda. Ao mesmo tempo, descreve com bastante precisão o que acontece com muitos empreendedores que começam um negócio sem conhecer os próprios números.
R$ 1,50 não é a mesma coisa que 1,5%
A discussão também mostra uma confusão frequente entre valor de lucro, margem e percentual aplicado sobre o produto. Se um pastel custa R$ 5 e é vendido por R$ 6,50, existe uma diferença de R$ 1,50 entre o custo informado e o preço de venda. Mas esses R$ 1,50 não representam uma margem de 1,5%.
Considerando apenas esses números, a diferença equivale a aproximadamente 23% do preço de venda. Se o cálculo for feito sobre o custo do produto, o acréscimo é de 30%. Parece um detalhe técnico, mas essa confusão pode mudar completamente a percepção sobre a viabilidade de um negócio.
Além disso, ainda seria necessário descobrir o que estava incluído nos R$ 5 de custo. Apenas a massa e o recheio? Entraram na conta o óleo, o gás, a embalagem, os impostos, as taxas dos meios de pagamento, as perdas e a mão de obra?
Se todas essas despesas não estiverem incluídas, os R$ 1,50 não são lucro. São apenas o que sobrou antes de o restante das contas aparecer. É nessa hora que muitos negócios descobrem que o pastel estava bem recheado, mas a margem estava vazia.
O negócio era lucrativo ou o dono trabalhava de graça?
“É que eu fazia o pastel” poderia ser a frase de milhares de pequenos empreendedores.
É comum o proprietário atender os clientes, comprar os ingredientes, produzir, vender, limpar o estabelecimento, fazer as entregas, responder às mensagens e ainda cuidar do caixa. Como não precisa transferir um salário formal para si mesmo, conclui que economizou. Mas o trabalho do dono também tem custo.
Isso não significa que seja errado colocar a mão na massa. Muitos negócios só conseguem começar porque o proprietário assume várias funções ao mesmo tempo. O problema aparece quando esse esforço é tratado como gratuito e permanente.
Se uma empresa só fecha a conta porque o dono trabalha dez ou doze horas por dia sem receber adequadamente por isso, talvez ela não seja realmente lucrativa. Talvez esteja sendo patrocinada pelo cansaço do proprietário.
A frase de Marciano poderia ser substituída por várias outras bastante conhecidas:
“Eu mesmo faço as entregas.”
“Minha esposa cuida do caixa.”
“Meu filho faz as redes sociais.”
“A contabilidade eu controlo numa planilha.”
“Por enquanto, eu não tiro salário.”
Essas escolhas podem ser necessárias no começo. Só não deveriam desaparecer dos cálculos como se não tivessem valor.
Faturamento não é lucro
O corte também revela outra confusão comum: misturar preço de venda, faturamento e lucro.
Se fossem vendidos 500 pastéis por dia a R$ 6,50, o faturamento diário seria de R$ 3.250. Em 30 dias, seriam R$ 97.500 entrando no caixa. É um número que impressiona. Mas entrar no caixa não significa ficar no bolso.
Desse valor ainda podem sair massa, recheio, óleo, gás, embalagens, taxas de cartão, impostos, aluguel, energia, água, funcionários, manutenção dos equipamentos e desperdícios. E, claro, o trabalho de quem faz o pastel.
Se a margem líquida fosse realmente de 1%, o lucro mensal seria de aproximadamente R$ 975, mesmo com quase R$ 100 mil de faturamento.
Se os funcionários e os ingredientes ainda precisassem ser descontados depois desse 1%, então nem estaríamos falando de margem líquida. Estaríamos diante de uma conta que começou sem ninguém saber exatamente o que estava sendo calculado.
Vender mais nem sempre resolve
Existe ainda a ideia de que uma margem pequena pode ser compensada pela quantidade. Em alguns modelos de negócio, isso é verdade. Há empresas que trabalham com margens reduzidas e grandes volumes. Mas isso exige muito controle.
Se cada venda deixa uma contribuição positiva, aumentar o volume pode melhorar o resultado. Se o preço não cobre corretamente os custos, vender mais significa comprar mais ingredientes, gastar mais energia, gerar mais trabalho e ampliar o prejuízo.
É possível vender muito, trabalhar muito e ganhar quase nada.
Antes de descobrir quantos pastéis consegue vender por dia, o empreendedor precisa saber quanto custa cada unidade, quais despesas aumentam a cada venda, quanto precisa faturar para pagar os custos fixos, quanto receberá pelo próprio trabalho e qual valor realmente sobrará no final.
Não é necessário transformar todo dono de pastelaria em economista. Mas alguém precisa entender a conta — de preferência antes de comprar o forno, contratar funcionários e imprimir o cardápio.
Saber fazer não é o mesmo que saber administrar
Não é possível concluir, a partir de um corte bem-humorado, quanto Marciano realmente conhece sobre administração. Também não é essa a questão. A graça da cena está justamente no quanto ela se parece com situações que acontecem todos os dias fora do estúdio.
Muitos negócios nascem do domínio de uma atividade. A pessoa cozinha bem e abre um restaurante. Corta cabelo e monta um salão. Entende de mecânica e inaugura uma oficina. Conhece profundamente um assunto e cria uma consultoria.
Saber fazer é indispensável. Mas saber fazer não significa automaticamente saber administrar aquilo que se faz.
Uma boa receita pode conquistar clientes. Uma boa gestão é o que permite continuar servindo essa receita sem depender de jornadas intermináveis, improvisos e contas que só fecham porque o proprietário decidiu não se pagar.
Marciano fazia o pastel. Alguém, porém, também precisava fazer a margem.
Porque o problema nunca foi colocar a mão na massa. O problema é imaginar que o trabalho desaparece da conta só porque a mão é do dono.










