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Debates eleitorais perderam espaço para ataques e cortes nas redes sociais, avalia Heródoto Barbeiro

Para o jornalista, a baixa audiência, a presença de candidatos interessados apenas em aparecer e a falta de educação política impedem que os debates ajudem efetivamente o eleitor a escolher seus representantes

Os debates eleitorais deveriam oferecer ao eleitor a oportunidade de conhecer propostas, comparar ideias e avaliar quem está mais preparado para ocupar um cargo público. Na prática, porém, confrontos pessoais, ofensas e cenas produzidas para viralizar nas redes sociais têm ocupado o espaço que deveria ser destinado à discussão dos problemas da sociedade.

A avaliação é do jornalista Heródoto Barbeiro, da Nova Brasil e do portal R7. Em entrevista ao programa Fala Que Eu Te Escuto, ele analisou as transformações nos debates políticos brasileiros e comentou episódios como o confronto entre José Luiz Datena e Pablo Marçal durante a campanha eleitoral em São Paulo.

Para Barbeiro, os debates ainda poderiam contribuir com a decisão do eleitor, mas enfrentam um problema anterior ao próprio conteúdo: a falta de interesse de uma parcela significativa da população.

O jornalista citou o dado de que 65% das pessoas não se lembram em quem votaram para deputado ou senador. A origem do levantamento não foi detalhada durante a entrevista, mas o número foi usado por ele para ilustrar o distanciamento entre os eleitores e seus representantes.

Essa falta de envolvimento também aparece nos índices de audiência. Barbeiro mencionou um debate transmitido pela Band que teria registrado pico de 1,5 ponto, enquanto a Record alcançava sete pontos no mesmo horário. Ao longo da exibição, segundo ele, a audiência do debate teria caído para menos de um ponto.

“Isso mostra que a sociedade deveria estar acompanhando, mas não está”, afirmou. Para o jornalista, essa ausência pode estar relacionada tanto à falta de educação política quanto à descrença do público no que os candidatos dizem.

Qualidade depende de quem participa

Questionado sobre a queda no nível dos debates, Barbeiro afirmou que a qualidade está diretamente relacionada ao perfil dos participantes. Ao comentar imagens do então candidato Cabo Daciolo exibidas pelo programa, fez uma crítica contundente e disse enxergá-lo mais como um personagem interessado em chamar a atenção do que como um político disposto a apresentar propostas.

Na avaliação do jornalista, enquanto alguns candidatos têm ideias e projetos para expor, outros utilizam o espaço apenas para conquistar visibilidade na televisão e produzir momentos que depois possam circular nas redes sociais.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que uma frase de efeito, uma provocação ou uma agressão pode alcançar mais pessoas do que o próprio debate. Trechos curtos são retirados do programa e distribuídos nas plataformas digitais, onde frequentemente obtêm uma audiência superior à da transmissão original.

O resultado é uma inversão de prioridades: em vez de o corte servir para divulgar uma proposta apresentada no debate, o debate passa a ser pensado como uma fábrica de cortes.

“O debate não é um ataque de um contra o outro. O debate é para as pessoas colocarem as suas ideias e o eleitor escolher”, resumiu Barbeiro.

Segundo turno favorece a discussão de propostas

Para o jornalista, os debates de segundo turno tendem a ser mais relevantes. Com apenas dois candidatos, há mais tempo para aprofundar temas, confrontar projetos e permitir que cada participante explique o que pretende fazer caso seja eleito.

No primeiro turno, principalmente quando há muitos concorrentes, o tempo reduzido e a presença de candidaturas com pouca representatividade podem transformar o encontro em uma disputa por atenção.

Em vez de sair do debate compreendendo melhor as diferenças entre os projetos, o eleitor muitas vezes se lembra apenas da ofensa mais pesada, da frase mais engraçada ou da cena mais constrangedora.

Educação política deve começar na escola

Barbeiro acredita que a mudança desse cenário depende de uma formação política mais consistente. Para ele, a escola deveria ensinar desde cedo quais são as responsabilidades de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes.

“Como é que eu vou escolher se não sei o que cada um faz?”, questionou.

O conhecimento sobre o funcionamento das instituições também ajudaria o cidadão a acompanhar o trabalho dos eleitos depois da votação. Barbeiro comparou o voto sem fiscalização à entrega de um “talão de cheques” para que o político permaneça quatro anos no poder sem prestar contas à população.

Mais do que assistir aos debates, portanto, o eleitor precisa compreender o que está sendo discutido, formar a própria opinião, guardar o nome de quem escolheu e acompanhar o mandato.

Sem essa educação política, os debates correm o risco de continuar funcionando mais como espetáculos de entretenimento e fornecedores de conteúdo para as redes sociais do que como instrumentos para o exercício consciente da democracia.