Depois de percorrer quatro grandes cidades e visitar empresas, fábricas e centros de pesquisa, Marcelo Nóbrega volta de sua terceira viagem ao país com um alerta para profissionais e líderes brasileiros
Na China, a tecnologia não aparece apenas nos laboratórios, nas fábricas ou nas apresentações das grandes empresas. Ela está nas ruas, no transporte, nos meios de pagamentos, nos serviços e na maneira como as pessoas resolvem as pequenas tarefas do cotidiano. Essa foi uma das percepções mais fortes de Marcelo Nóbrega ao retornar de sua terceira viagem ao país.
Especialista em inovação e tecnologia na gestão de pessoas, autor e apresentador do podcast Você Está Contratado, Nóbrega integrou uma comitiva brasileira de profissionais de Recursos Humanos que percorreu quatro das maiores cidades chinesas. O roteiro reuniu visitas a empresas de tecnologia, fabricantes de robôs e drones, universidades, centros de pesquisa, incubadoras e startups.
Embora já conhecesse o país, ele teve a sensação de estar diante de uma China completamente nova.
“Tudo parecia novinho em folha. Visitei quatro das maiores cidades do país e tudo era limpo, moderno, bonito e funcional. Muitos arranha-céus, excelente iluminação pública, ruas e avenidas largas, transporte público abundante e multimodal, muito verde e parques. E muita gente nas ruas.”, relata.
O silêncio do trânsito, provocado pela presença maciça de veículos elétricos, também chamou sua atenção. Assim como o tamanho das estruturas, planejadas para receber um fluxo impressionante de pessoas. Mais do que uma demonstração de modernidade, porém, o que encontrou foi tecnologia utilizada com uma função muito objetiva: facilitar a vida.
“Nas edificações, vi muito design, qualidade e conforto. A tecnologia permeia tudo, funcionando como facilitadora da vida cotidiana”, resume.
Inovar não é ter uma boa ideia
Ao visitar diferentes organizações, Nóbrega percebeu que a inovação chinesa não depende apenas de criatividade, de uma descoberta extraordinária ou de uma empresa isolada. Existe uma lógica comum que atravessa organizações de setores diferentes e tanto na esfera privada quanto pública.
“A primeira surpresa é que todas possuem a mesma abordagem. Todas apresentam as mesmas características: planejamento com rigor na execução, pragmatismo, reinvenção e expansão contínuas e alinhamento com os planos quinquenais”, afirma.

Isso significa que a inovação não acontece de maneira desconectada. Empresas, universidades, centros de pesquisa e governo parecem apontar para prioridades compartilhadas. A ideia pode nascer em um laboratório ou em uma startup, mas encontra uma estrutura preparada para transformá-la em aplicação, escala e resultado.
Para Nóbrega, essa capacidade de concentrar esforços ajuda a explicar a velocidade das transformações observadas no país. Não se trata somente de planejar o futuro, mas de executar o que foi planejado sem mudar de direção a cada novidade.
Gestão de pessoas com foco técnico
Se a tecnologia impressionou, Nóbrega não encontrou nas áreas de Recursos Humanos nenhuma prática revolucionária que pudesse ser imediatamente transportada para o Brasil. A diferença estaria menos nas ferramentas de RH e mais na atitude diante do trabalho.
“É da cultura chinesa valorizar o coletivo antes do individual, mas, ao mesmo tempo, a empresa não pega na mão. Não vimos nenhuma grande inovação nessa área. O que vimos foi muito investimento na formação técnica dos colaboradores e no desenvolvimento de líderes e liberdade para experimentar.”, explica.
Segundo ele, as equipes pareciam muito concentradas nos objetivos das organizações, com pouca dispersão de esforços e interesses. O desenvolvimento das pessoas também demonstrou uma orientação predominantemente técnica, acompanhando a pressão existente para que o país continue crescendo.
“Pelo seu tamanho, a roda não pode parar de girar”, diz.
Os robôs também estão criando trabalho
Entre as experiências da comitiva estiveram uma visita à Unitree, empresa chinesa especializada em robôs humanoides e quadrúpedes, e a passagem por uma fábrica de drones. Para Nóbrega, a automação não está apenas eliminando tarefas: também está criando atividades, especializações e profissões.
A própria classificação profissional chinesa já começou a acompanhar essa transformação. Em maio de 2025, o governo reconheceu 17 novas profissões, entre elas a de planejador de voo de enxames de drones. Também foram incluídas novas modalidades de trabalho relacionadas a testes de sistemas de inteligência artificial generativa e à operação e manutenção de armazéns inteligentes. Em 2026, uma nova lista colocou em discussão ocupações como engenheiro de gêmeos digitais e técnico de robôs com inteligência incorporada.

Nas áreas de Recursos Humanos visitadas, uma mudança mais silenciosa já está em curso. Nóbrega encontrou profissionais desenvolvendo seus próprios agentes de inteligência artificial para realizar tarefas mais trabalhosas e repetitivas. Depois de testados individualmente, alguns desses agentes passam a ser utilizados por equipes, departamentos ou por toda a organização.
“Robótica e inteligência artificial já criaram uma série de novas ocupações”, observa.
Fora das empresas, essa integração aparece com clareza nos superaplicativos Alipay e WeChat. Pagamentos, compras, deslocamentos e diferentes serviços, como consultas e exames médicos, são concentrados no celular. Na avaliação de Nóbrega, ao retirar a fricção das pequenas tarefas diárias, essas plataformas devolvem tempo às pessoas e aumentam a produtividade.
A educação acompanha o projeto de país
Para Nóbrega, não é possível compreender o desenvolvimento tecnológico da China sem observar a prioridade concedida à educação. A quantidade de universidades, institutos de pesquisa, incubadoras, startups e parcerias entre instituições de ensino e empresas foi uma das marcas da viagem.
“Impressiona a quantidade de pessoas com doutorado e mestrado, o número de chineses que vão estudar no exterior todos os anos e a interdisciplinaridade dos esforços de pesquisa”, afirma.
Na Universidade Tsinghua, uma das instituições mais importantes do país, a comitiva foi recebida por representantes das áreas de Inteligência Artificial, Economia e Negócios. Os laboratórios de Energia e Sustentabilidade funcionam lado a lado, uma proximidade que simboliza a tentativa de conectar diferentes conhecimentos em torno dos mesmos desafios.
Essa estrutura também é modificada com rapidez. A Tsinghua criou, em abril de 2024, uma faculdade dedicada à inteligência artificial, reunindo pesquisadores e iniciativas que antes estavam espalhados por outros departamentos. O movimento acompanha uma política nacional de revisão constante da formação universitária. Apenas em 2024, instituições chinesas criaram 1.673 programas de graduação considerados estratégicos e encerraram outros 1.670 que já não correspondiam às necessidades econômicas e sociais do país.
Mais do que formar mão de obra para as demandas atuais, o sistema tenta antecipar quais conhecimentos serão necessários nos próximos anos.
O avanço não elimina as contradições

A impressão de eficiência não impediu os participantes da comitiva de perceber lacunas. Nóbrega conta que não viu pessoas com deficiência nas empresas visitadas. Por se tratar de uma experiência limitada a um conjunto específico de organizações, a observação não permite generalizações sobre o mercado de trabalho chinês, mas levantou uma questão importante sobre inclusão.
As mulheres estiveram presentes em muitas das recepções feitas ao grupo, embora, segundo os relatos ouvidos durante a viagem, ainda exista desigualdade dentro dos lares e uma concentração feminina maior nas funções consideradas soft dentro das empresas.
Um ponto de aproximação com o Brasil está nas novas gerações. Apesar das enormes diferenças culturais, as organizações chinesas também lutam para entender as expectativas, o comportamento e a relação dos jovens com o trabalho.
“Eles possuem os mesmos desafios que nós quando o tema é a nova geração”, diz Nóbrega.
Não existe copiar e colar
O que o Brasil poderia importar desse modelo? Para Nóbrega, a resposta não está em copiar uma ferramenta ou reproduzir uma prática isolada. As diferenças culturais e, principalmente, as diferenças de atitude tornam difícil aplicar por aqui aquilo que funciona na China.
“Infelizmente, pouco do que vimos se aplicaria facilmente ao Brasil”, afirma.
Isso não significa que a experiência chinesa deva ser ignorada. Pelo contrário. O país oferece referências importantes sobre planejamento, execução, formação técnica, pesquisa interdisciplinar, integração entre universidades e empresas e capacidade de reorganizar prioridades diante das transformações tecnológicas.

A principal lição não é tentar copiar o que a China faz, mas compreender por que é bem sucedida nessas boas práticas. Enquanto boa parte do mundo ainda discute se a inteligência artificial modificará o trabalho, os chineses já estão criando cursos, profissões, empresas e estruturas para uma realidade na qual a transformação está acontecendo.
Ao ser perguntado sobre o principal alerta que traria para profissionais, líderes e empresas brasileiras, Marcelo Nóbrega respondeu com apenas cinco palavras:
“Prestem mais atenção à China.”
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










