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Voto é obrigatório. Debate? Aí já é pedir demais

Maurício Meirelles ironiza candidatos que fogem de debates e sugere uma nova regra eleitoral: se o eleitor é obrigado a votar, quem quer o voto também poderia ser obrigado a aparecer

No Brasil, pagar imposto é obrigatório. Votar é obrigatório. Em determinados horários, até o programa eleitoral aparece na televisão sem perguntar se você estava no meio da novela, do futebol ou tentando esquecer que existe eleição.

Agora, participar de debate? Aí parece que estamos querendo demais.

Foi justamente essa conta que o humorista Maurício Meirelles resolveu fazer em um vídeo no qual questiona, com seu habitual exagero, candidatos que decidem não comparecer aos debates eleitorais.

A tese é simples: se o eleitor precisa escolher, talvez fosse interessante conhecer um pouco melhor quem está pedindo para ser escolhido.

Revolucionário.

Maurício vai além e defende que a participação em debates deveria ser obrigatória. Ou que, pelo menos, a ausência tivesse alguma consequência.

“Se o candidato não vai a um debate, ele já devia ser desclassificado da disputa ou, pelo menos, uma multa, sei lá.”

Convenhamos: seria uma mudança importante na dinâmica eleitoral brasileira.

Hoje, um candidato pode passar meses tentando conquistar seu voto em vídeos cuidadosamente editados, fotos abraçando pessoas, jingles, cortes, memes e coreografias nas redes sociais.

Aí chega alguém querendo fazer uma pergunta.

Complicou.

O perigo de uma pergunta sem roteiro

Para Maurício, evitar debates porque a participação pode representar um risco eleitoral produz uma situação um tanto curiosa.

A estratégia seria mais ou menos esta:

“Quero governar milhões de pessoas, tomar decisões complexas e lidar com crises imprevisíveis. Só não me faça uma pergunta que eu não combinei antes.”

O humorista ironiza justamente a ideia de que não participar pode ser uma estratégia para “não perder votos”.

Se aparecer e responder perguntas representa um perigo tão grande para uma candidatura, talvez exista ali uma informação que o eleitor gostaria de ter antes de apertar o botão verde da urna.

Maurício resume sua interpretação de maneira bem menos delicada:

“Você está me dizendo que, sempre quando você é questionado, você não tem capacidade de falar algo útil?”

É uma pergunta razoável.

Principalmente considerando que governar é, entre outras coisas, uma longa sequência de pessoas fazendo perguntas desagradáveis.

Presidente cancelado pela ONU

O raciocínio então segue para o absurdo — território no qual a comédia costuma funcionar muito bem.

Se evitar situações difíceis para preservar popularidade virar regra, imagina aplicar essa lógica depois da eleição.

Tem uma guerra acontecendo?

“Melhor o presidente não se pronunciar agora.”

Crise internacional?

“Vamos esperar a repercussão no Instagram.”

Discurso na ONU?

“Melhor não. Vai que dá ruim.”

Maurício imagina até um presidente esperando outro chefe de Estado falar primeiro para decidir se vale a pena se posicionar.

É engraçado justamente porque exagera uma lógica bastante conhecida das redes sociais: antes de dizer alguma coisa, descobrir qual posição oferece menos risco.

Só existe um pequeno problema.

Presidente não é influencer escolhendo se vale a pena entrar numa trend.

Pelo menos nos deem o debate

No final, Maurício apresenta talvez seu argumento mais poderoso.

Esqueça por um momento democracia, transparência, propostas ou preparação dos candidatos.

Existe uma questão muito mais importante:

o entretenimento.

Se o brasileiro já é obrigado a acompanhar meses de campanha eleitoral, pelo menos deveria receber alguma coisa em troca.

E poucas coisas entregam tanto quanto um debate ao vivo, com candidatos, cronômetro, mediador tentando manter a ordem, direito de resposta e aquela maravilhosa sensação de que tudo pode sair completamente do controle a qualquer momento.

Por isso, segundo Maurício, se o voto é obrigatório, o debate também deveria ser.

Afinal, já que somos obrigados a participar da eleição, não custa nada exigir que participe também quem está tentando ganhá-la.

E, de quebra, deixar o eleitor descobrir uma coisa bastante relevante antes de votar:

o que acontece quando o candidato não pode escolher a pergunta.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo