Em entrevista à TV Atalaia, Heródoto Barbeiro defende a formação acadêmica, mas rejeita sua obrigatoriedade; debate nas redes trouxe a checagem e o caso Escola Base para o centro da discussão
O diploma de Jornalismo voltou ao debate público. De um lado, estão os que consideram a formação universitária indispensável para garantir conhecimento técnico, responsabilidade e compromisso ético. Do outro, aqueles que enxergam a obrigatoriedade como uma barreira ao exercício profissional e à liberdade de expressão.
Em entrevista ao jornalista Sergio Cursino, no Balanço Geral, da TV Atalaia, Heródoto Barbeiro apresentou sua posição de maneira direta:
“O diploma não faz o jornalista bom ou ruim.”
Jornalista, advogado, historiador e professor, Heródoto não desvaloriza a universidade. Ao contrário: afirma que o curso de Jornalismo acrescentou muito à sua trajetória e reconhece a importância das escolas e dos bons professores. O que ele questiona é a necessidade de transformar essa formação em autorização obrigatória para trabalhar.
Por que o assunto voltou agora?
Desde 2009, o diploma de Jornalismo não é uma exigência geral para o exercício da profissão no Brasil. Naquele ano, por oito votos a um, o Supremo Tribunal Federal considerou que a obrigatoriedade era incompatível com as liberdades de expressão, informação e imprensa.
Em agosto de 2026, o tema reapareceu durante o julgamento de um caso que não tratava diretamente do diploma. Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino defenderam uma nova discussão sobre a decisão de 2009, especialmente diante dos desafios criados pelas redes sociais. Gilmar Mendes, relator do julgamento que derrubou a exigência, indicou que o tribunal não pretende rever o entendimento naquele momento.
O assunto também permanece no Congresso. A PEC 206/2012, que pretende restabelecer a formação superior específica como condição para o exercício profissional, está pronta para ser analisada pelo Plenário da Câmara dos Deputados.
Uma exigência criada durante a ditadura
Durante a entrevista, Heródoto lembrou que a obrigatoriedade foi instituída em 1969, durante a ditadura militar.
O Decreto-Lei nº 972, de 17 de outubro daquele ano, foi editado pelos ministros militares com fundamento, inclusive, no Ato Institucional nº 5. O texto vinculava o registro profissional à apresentação do diploma para diversas funções jornalísticas.
Há, porém, uma distinção histórica importante: as escolas de Jornalismo não foram criadas pela ditadura. A primeira delas, a Faculdade Cásper Líbero, começou a funcionar em 1947, mais de duas décadas antes do decreto.
Heródoto contou que já trabalhava quando precisou voltar à condição de aluno. Na época, recebeu o aviso de que poderia ser demitido caso não concluísse a graduação e regularizasse seu registro no Ministério do Trabalho.
Para ele, o problema não estava em estudar, mas em condicionar o direito de trabalhar a um documento criado dentro de um contexto autoritário.
“É bom ter escola de Jornalismo e é bom ter bons professores. Agora, não precisa de um pedaço de papel para fazer o bom jornalismo que existe no nosso país”, afirmou.
Formação, ética e julgamento do público
Questionado sobre a possibilidade de a ausência da graduação favorecer o amadorismo e a disseminação de notícias falsas, Heródoto defendeu que o comportamento ético é construído principalmente no cotidiano das redações.
Na avaliação dele, o público também participa desse julgamento. A audiência pode comparar versões, avaliar a credibilidade do profissional e abandonar um canal quando percebe despreparo, desonestidade ou falta de compromisso com os fatos.
Esse argumento, porém, encontrou resistência entre as pessoas que assistiram à entrevista.
Nos comentários do vídeo no YouTube, o usuário @andrefreitas157 afirmou que Heródoto estaria subestimando a importância da formação para a verificação de notícias e para o jornalismo de dados.
Segundo ele, a universidade prepara o profissional para fazer a checagem das fontes e oferecer informações confiáveis. Em sua argumentação, comparou o jornalismo a outras atividades regulamentadas e perguntou se alguém permitiria que um curandeiro realizasse uma cirurgia cardíaca.
“A graduação em Jornalismo tem o mesmo peso da necessidade de formação adequada para o exercício pleno das atividades profissionais das outras áreas de conhecimento humano”, escreveu.
A preocupação apresentada no comentário é legítima: uma informação falsa pode destruir reputações, provocar violência, interferir em decisões públicas e até contribuir para a perda de vidas. O público nem sempre consegue descobrir imediatamente que está diante de uma mentira. Quando a verdade aparece, o dano pode já ter acontecido.
Mas será que o diploma, sozinho, impediria esse resultado?
O caso Escola Base e o limite do diploma
Fernando Vítolo, fundador da Younik, respondeu ao comentário recorrendo a um dos episódios mais graves da imprensa brasileira: o caso Escola Base.
O episódio aconteceu em março de 1994, período em que a apresentação do diploma ainda era exigida para diversas funções jornalísticas.
Os proprietários de uma escola infantil, uma professora e outras pessoas ligadas à instituição foram acusados, sem provas, de envolvimento em abusos sexuais contra crianças. O repórter Valmir Salaro foi o primeiro a noticiar a acusação, que rapidamente ganhou espaço em diferentes emissoras, jornais e revistas.
Em vez de tratar os envolvidos como pessoas investigadas, parte da imprensa apresentou as acusações como fatos comprovados. A escola foi depredada, encerrou suas atividades e as famílias tiveram suas vidas e reputações destruídas. Posteriormente, o inquérito foi arquivado por falta de provas.
Em julgamento relacionado às indenizações do caso, o Superior Tribunal de Justiça descreveu a cobertura como marcada por credulidade diante das denúncias e por matérias sensacionalistas que levaram os acusados à execração pública.
As correções e retratações posteriores não tiveram o mesmo destaque das acusações e não conseguiram reparar os prejuízos provocados.
“Diploma nenhum impediu o péssimo jornalismo daquela época”, respondeu Fernando.
O caso Escola Base não demonstra que estudar Jornalismo seja desnecessário. Demonstra outra coisa: possuir um diploma não imuniza ninguém contra a pressa, o sensacionalismo, a confiança excessiva em uma única fonte e a falta de disposição para questionar uma versão aparentemente convincente.
Formação é importante. Obrigatoriedade é outra discussão
Talvez o debate fique mais claro quando duas perguntas diferentes deixam de ser tratadas como se fossem uma só.
A primeira é: estudar Jornalismo melhora a preparação de um profissional?
Pode melhorar — e muito. Uma boa graduação oferece contato com técnicas de reportagem, apuração, legislação, história, ética, jornalismo de dados, edição e verificação de fontes. Também cria ambientes para errar, discutir e aprender antes de enfrentar situações reais.
A segunda pergunta é: somente quem possui esse diploma deve ter permissão legal para exercer o jornalismo?
É aqui que começa a divergência.
Heródoto entende que a formação deve ser valorizada, mas não imposta. Para ele, o profissional precisa ser avaliado por seu repertório, sua experiência, sua conduta, sua capacidade de apuração e, principalmente, pelo respeito que demonstra ao público.
Os defensores da obrigatoriedade argumentam que a sociedade precisa de um critério mínimo de qualificação para uma atividade capaz de influenciar a democracia e a vida das pessoas.
O diploma pode representar formação. O que ele não pode oferecer é uma garantia automática de caráter, prudência ou compromisso com a verdade.
Um profissional sem graduação pode estudar, apurar e exercer um jornalismo responsável. Da mesma maneira, alguém formado pode abandonar todos os métodos que aprendeu e produzir informação de baixa qualidade.
No fim, o bom jornalismo depende de formação contínua, verificação, diversidade de fontes, transparência, supervisão editorial, disposição para corrigir erros e responsabilidade pelas consequências daquilo que é publicado.
É possível ser jornalista sem diploma. O que não deveria ser possível é fazer jornalismo sem método.










