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Milton Parnes aponta cultura organizacional como pilar da segurança aérea

Em conversa com Ricardo Beccari no canal Porta de Hangar, comandante analisou o relatório do voo 2283, destacou uma operação aeromédica realizada a 43 graus negativos e avaliou o desempenho da LABACE 2026

Uma missão aeromédica realizada na escuridão do inverno antártico, as conclusões da investigação sobre o acidente com o voo 2283 da Voepass e os sinais de recuperação da indústria aeronáutica brasileira foram alguns dos assuntos discutidos por Ricardo Beccari e pelo comandante Milton Parnes em uma edição do PH Radar, programa do canal Porta de Hangar.

Apesar da diversidade de temas, um ponto esteve presente durante toda a conversa: a segurança de uma operação aérea não depende apenas da aeronave ou da habilidade dos pilotos. Ela também passa por planejamento, manutenção, treinamento, comunicação e, principalmente, pela cultura existente dentro das organizações.

Um resgate na escuridão da Antártida

O primeiro destaque foi uma complexa operação aeromédica conduzida pela Divisão Antártica Australiana em parceria com a empresa Skytraders.

No dia 31 de julho de 2026, um Airbus A319 partiu de Hobart, na Austrália, com uma equipe médica e profissionais especializados. Depois de aproximadamente cinco horas de voo, a aeronave chegou ao aeródromo Phoenix, que atende a estação norte-americana McMurdo, na Antártida.

O pouso aconteceu durante o inverno austral, em completa escuridão e com temperaturas que chegaram a 43 graus negativos. O paciente, integrante do programa antártico dos Estados Unidos, foi embarcado e transportado até Christchurch, na Nova Zelândia, onde recebeu atendimento hospitalar.

As informações foram confirmadas pela Divisão Antártica Australiana, responsável pela coordenação da missão ao lado da Skytraders.

Para Ricardo Beccari, o diferencial não estava simplesmente na realização de um voo noturno, mas na combinação entre pista de gelo, temperatura extrema, ausência de luz natural e rápida deterioração das condições meteorológicas.

A operação exigiu preparação de pilotos, meteorologistas, equipes médicas, responsáveis pela pista e profissionais de planejamento. Segundo o comandante da missão, Al Wallach, o resultado foi consequência de anos de treinamento e coordenação entre diferentes áreas.

Relatório do voo 2283 entra no debate

Na sequência, Beccari e Parnes analisaram o relatório final sobre o acidente com o ATR 72-500 de matrícula PS-VPB, que realizava o voo 2283 da Voepass.

A aeronave decolou de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos e caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024. Os 58 passageiros e quatro tripulantes morreram.

Embora o documento tenha sido atribuído à Anac em determinado momento da conversa, a investigação técnica foi conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa. A Anac aparece como uma das instituições destinatárias das recomendações de segurança.

O relatório final do Cenipa, divulgado em 23 de julho de 2026, apontou uma combinação de fatores contribuintes. Entre eles estão a formação de gelo severo, problemas no sistema de degelo da estrutura, ausência de registros formais de panes observadas em voos anteriores, falhas de planejamento, decisões operacionais, não execução de procedimentos previstos e fragilidades na supervisão e na cultura organizacional.

Durante o programa, Beccari afirmou ter sentido que algumas questões receberam menos atenção do que deveriam, enquanto parte significativa da discussão pública voltou-se para a aeronave e para as decisões tomadas pelos pilotos.

“Acho que passaram muito pano em muita coisa”, declarou o apresentador, deixando claro que se tratava de sua interpretação sobre o documento.

Milton Parnes concentrou sua análise no ambiente existente dentro da companhia e na normalização de procedimentos informais.

“A cultura dentro de uma empresa aérea é fator preponderante para a segurança de voo”, afirmou.

Falhas não registradas comprometem toda a operação

Um dos aspectos levantados pelo Cenipa foi a ausência de registros no livro técnico de bordo depois de falhas observadas em voos anteriores, especialmente no sistema de degelo da aeronave.

Sem a formalização das ocorrências, as áreas técnicas e operacionais deixaram de avaliar alternativas como manutenção corretiva, substituição da aeronave, mudança de rota ou despacho de acordo com a lista de equipamentos mínimos.

Para Parnes, esse cenário demonstra que um acidente aéreo não pode ser analisado somente a partir das ações dos pilotos nos minutos finais do voo.

O comandante criticou a tentativa de concentrar a explicação na tripulação, nos sistemas ou nas características do avião, sem considerar o conjunto de decisões e práticas acumuladas antes da decolagem.

“Colocar a culpa no piloto, que infelizmente não está mais com a gente, nos sistemas ou no avião não vai trazer essas pessoas de volta”, lamentou.

As investigações conduzidas pelo Cenipa têm finalidade preventiva. Por isso, o órgão identifica fatores que contribuíram para a ocorrência e emite recomendações de segurança, mas não determina responsabilidades civis ou criminais.

Ao final da análise, Beccari e Parnes prestaram homenagem às 62 vítimas e manifestaram solidariedade aos familiares dos passageiros e tripulantes.

LABACE 2026 mostra mercado em movimento

Depois de um dos assuntos mais dolorosos da aviação brasileira, a conversa voltou-se para um cenário mais otimista: a realização da LABACE 2026.

Promovida entre 4 e 6 de agosto, no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, a 21ª edição da feira reuniu fabricantes, operadores, oficinas de manutenção, fornecedores, proprietários de aeronaves e profissionais do setor.

Considerada pela organização o maior evento de aviação de negócios da América Latina, a LABACE retornou ao Campo de Marte pelo segundo ano consecutivo, depois de ter sido realizada durante anos no Aeroporto de Congonhas.

Milton Parnes destacou principalmente o movimento comercial percebido durante o evento. Segundo ele, novos fornecedores estão surgindo, enquanto empresas que haviam reduzido ou encerrado suas atividades começam a retornar ao mercado.

“A indústria aeronáutica começa a se recuperar”, avaliou.

O comandante ressaltou a presença de companhias especializadas em manutenção, revisão de motores, fornecimento de componentes e modernização de aeronaves. A entrada de novos participantes pode ampliar as opções disponíveis para operadores que ainda enfrentam dificuldades na cadeia de peças e serviços.

Beccari também comemorou a aproximação com os seguidores que passaram pelo estande do Porta de Hangar. Para o apresentador, o contato presencial com o público, os parceiros e os profissionais do setor foi um dos principais resultados da participação na feira.

Aviação também se constrói na oficina

O programa ainda antecipou a participação de Luciano Padreca e Leandro Causo, criadores do canal Empoeirados, especializado em marcenaria e projetos do tipo “faça você mesmo”.

A escolha pode parecer distante da aviação, mas Beccari lembrou que muitos pilotos e entusiastas trabalham na construção ou restauração de aeronaves experimentais, área na qual o conhecimento sobre madeira, ferramentas e técnicas de fabricação pode ser fundamental.

A proposta reforça a intenção do Porta de Hangar de abordar a aviação como um universo que vai além da cabine de comando. Ele envolve manutenção, construção, indústria, formação profissional e compartilhamento de experiências.

Do pouso no inverno antártico ao debate sobre o voo 2283, a conversa entre Ricardo Beccari e Milton Parnes mostrou que nenhuma operação segura é resultado de uma única pessoa ou equipamento. Segurança aérea é consequência de preparação, registros confiáveis, supervisão, comunicação e de uma cultura que não permita que desvios se transformem em rotina.