Entretenimento

O PATROCÍNIO DO CORINTHIANS QUE DEVERIA INCOMODAR MUITO MAIS

Existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita sobre o novo patrocínio do Corinthians: onde estão as pessoas que normalmente aparecem para defender a proteção das crianças, o respeito às mulheres e os limites da publicidade?

Porque o Corinthians acaba de fechar um contrato de R$ 22 milhões com a Fatal Fans, plataforma de monetização de conteúdo adulto ligada ao grupo Fatal Model. O acordo vale até dezembro de 2027 e pode chegar a R$ 31 milhões caso seja estendido por mais uma temporada. É, segundo as informações divulgadas, o maior valor já pago por um espaço de calção no futebol brasileiro.

E não dá para dizer que o Corinthians não sabia o que estava contratando. Sabia.

A diretoria negociou, discutiu os valores e, segundo o UOL, chegou a considerar que a associação com uma plataforma de conteúdo adulto poderia provocar desgaste de imagem — justamente por isso a proposta teria sido ampliada durante as negociações.

Ou seja: não foi um acidente. Foi uma escolha. E é justamente aí que começa o problema.

O silêncio das feministas

Vamos começar pelo ponto mais óbvio. O Corinthians decidiu que a marca da Fatal Fans pode aparecer no uniforme do futebol masculino, mas não no futebol feminino.

No espaço que seria ocupado pela Fatal Fans no uniforme das mulheres, o clube decidiu colocar mensagens relacionadas à causa feminina. O próprio Corinthians informou que a parceria teria um modelo diferente para o futebol feminino.

É difícil não perceber a contradição. De um lado, o clube diz: “Respeita as Minas.” Do outro, aceita colocar no uniforme de seus jogadores uma marca associada a uma plataforma de conteúdo adulto.

Então fica a pergunta: se o assunto merece cuidado suficiente para que a marca não seja estampada no uniforme das mulheres, por que esse mesmo cuidado não deveria existir com as crianças que assistem aos jogos?

E mais: onde estão as manifestações das organizações, influenciadoras e personalidades que normalmente se mobilizam quando entendem que uma determinada comunicação pode contribuir para a sexualização ou objetificação das mulheres?

Não estou dizendo que toda feminista deveria obrigatoriamente se manifestar contra o contrato. Estou perguntando por que tantas vozes que costumam ser tão rápidas para apontar problemas relacionados à representação feminina parecem tão silenciosas diante de uma marca ligada ao mercado de conteúdo adulto ocupando um dos uniformes esportivos mais expostos do país.

Sim, é verdade que alguns movimentos estão se manifestando. Mas ainda é muito modesto quando comparado quando algum humorista faz alguma piada e as pessoas desejam repudiar.

A pergunta é legítima. E merece resposta.

E onde estão os artistas do “politicamente correto”?

A mesma pergunta vale para artistas e celebridades que construíram parte importante de sua imagem pública defendendo causas sociais, responsabilidade das marcas, proteção de minorias e combate àquilo que consideram nocivo para a sociedade. Cadê essa turma?

Porque existe uma diferença enorme entre um adulto, em sua vida privada, escolher consumir determinado conteúdo e uma empresa desse segmento colocar sua marca em um dos maiores clubes de futebol do Brasil.

O primeiro é uma escolha individual. O segundo é publicidade.

E publicidade existe justamente para construir familiaridade, associação e reputação. Não sou eu que estou dizendo isso. Um representante da própria empresa explicou que a associação com marcas reconhecidas permitiria que a confiabilidade do Corinthians fosse transferida para a Fatal Fans “por osmose”.

Isso muda completamente a discussão. Não estamos falando simplesmente de um pequeno logotipo no calção. Estamos falando de uma estratégia de construção de marca.

A Fatal Fans quer estar ao lado de marcas reconhecidas, dentro de um ambiente de enorme audiência, para que a associação com aquele ambiente ajude a construir sua própria reputação. E isso funciona. É para isso que existe patrocínio.

A criança não precisa assinar para ser impactada

Aqui está, para mim, o ponto mais sério dessa história. O Corinthians afirma que verificou a conformidade da plataforma com o ECA Digital e que o acesso ao serviço exige mecanismos de identificação de maiores de idade.

Tudo bem. Mas isso responde a uma pergunta diferente.

Estamos falando do acesso ao conteúdo ou da exposição à marca? Uma criança não precisa criar uma conta na Fatal Fans para conhecer a marca. Ela pode estar assistindo ao jogo na televisão. Pode estar no estádio. Pode ver uma foto do jogador nas redes sociais. Pode encontrar uma notícia sobre o Corinthians. Pode ver o uniforme em uma transmissão esportiva. Pode ouvir alguém falando sobre o patrocínio. Pode simplesmente perguntar para o pai ou para a mãe:

“O que é Fatal Fans?”

A criança não assinou nada. Não colocou CPF. Não entrou na plataforma. Mas foi exposta à marca.

E é exatamente essa diferença que foi levantada pelo deputado federal e médico Carlos Bezerra Jr., que levou o caso ao Ministério Público de São Paulo e pediu a apuração do contrato e das possíveis implicações relacionadas à exposição de crianças e adolescentes.

Na manifestação dele, há uma frase que resume bem a questão: “Criança não é público indireto. Infância não é vitrine.” O argumento é que a infância é uma fase de formação e que a exposição a referências do universo adulto não acontece em um terreno neutro.

E aqui é importante fazer uma distinção. Não se trata de dizer que adultos não podem consumir conteúdo adulto. Podem.

O debate é outro:

uma marca ligada ao conteúdo adulto deveria utilizar um clube de futebol, acompanhado por milhões de famílias e crianças, como plataforma para construir familiaridade e reputação?

Essa é uma pergunta legítima.

O detalhe mais revelador: “por osmose”

Talvez a declaração mais importante de toda essa história tenha vindo da própria empresa. A Fatal Fans não está simplesmente comprando um espaço publicitário. Ela está comprando associação.

Quer estar ao lado de empresas reconhecidas para que parte da credibilidade daquele ambiente seja transferida para sua marca. “Por osmose.” Isso é marketing. E é justamente por ser marketing que não devemos fingir que a marca está ali apenas para preencher alguns centímetros de tecido.

A intenção de qualquer patrocinador é ser lembrado. É tornar-se familiar. É deixar de parecer estranho. É fazer com que uma marca que antes pertencia a determinado universo passe a circular naturalmente em outros ambientes.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior preocupação.

O Corinthians está quebrado. Mas R$ 22 milhões resolvem o quê?

Existe ainda uma outra questão que não pode ser ignorada: dinheiro. O Corinthians fechou 2025 com déficit de R$ 143,4 milhões e uma dívida bruta de R$ 2,723 bilhões. Nesse cenário, R$ 22 milhões parecem muito.

Mas, diante da dívida, representam aproximadamente 0,8% do passivo bruto. Menos de 1%.

É como alguém estar devendo R$ 100 mil, vender a aliança de casamento por R$ 800 e comemorar que conseguiu dinheiro.

Conseguiu. Mas resolveu o problema? Não. E a aliança já era.

É evidente que R$ 22 milhões são importantes para qualquer clube. O próprio Corinthians afirmou que os recursos serão destinados a diferentes modalidades e estruturas esportivas. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:

quanto vale a reputação de uma instituição?

Porque dinheiro entra. Dinheiro sai. Patrocinador muda. Contrato termina. Mas a associação de uma marca com um clube permanece na memória das pessoas.

E a torcida percebeu

A repercussão não foi inexistente. Um abaixo-assinado contrário ao patrocínio ultrapassou 44 mil assinaturas, e o caso também chegou ao Ministério Público de São Paulo.

Nas redes sociais, a discussão também mostrou que o assunto está longe de ser consensual. E existe um dado curioso sobre essa repercussão.

Segundo os dados fornecidos pelo painel Claritor, foram registradas 826 menções ao tema no X/Twitter em 30 dias, sendo 575 em português e 251 internacionais.

Essas menções teriam alcançado um impacto estimado de 12 milhões, com aproximadamente 11,9 milhões de visualizações. Mas o dado mais interessante está na distribuição dessa atenção.

No dia 27 de junho, quando o acordo ganhou força nas redes, foram registradas 87 menções — o maior volume diário do período. Quase três semanas depois, porém, apenas sete menções produziram impacto semelhante: 4,24 milhões.

Por quê?

Porque uma única publicação da usuária verificada @martinaolvr_, com cerca de 350 mil seguidores, teria alcançado aproximadamente 4,23 milhões de visualizações. Ou seja: não é necessariamente a quantidade de pessoas falando que determina o tamanho de uma repercussão.

Às vezes, uma única voz consegue furar a bolha.

O problema não é o Corinthians ter escolhido ganhar dinheiro

E aqui está talvez o ponto mais importante de todos. Eu não acho que essa história seja sobre um clube que, de repente, decidiu abandonar seus valores. É muito mais simples — e justamente por isso, mais perigoso.

O clube está em uma situação financeira difícil. Aparece uma empresa disposta a pagar muito dinheiro. A proposta chega. A conta aperta. Alguém olha para os milhões e pensa:

“Por que não?”

É assim que acontece. Ninguém acorda numa segunda-feira e decide jogar fora tudo aquilo em que acredita. As instituições não mudam dessa maneira. Elas mudam aos poucos.

Primeiro, abre-se uma exceção. Depois, outra. Depois aparece uma justificativa. Depois alguém diz que “todo mundo está fazendo”. Depois aparece o argumento de que “é apenas publicidade”. Depois vem o “se não fizermos, outro clube fará”.

E quando você percebe, aquilo que era uma exceção virou o novo padrão. Foi assim com as casas de apostas.

E talvez estejamos assistindo ao próximo passo da mesma lógica: se existe dinheiro e existe uma empresa disposta a pagar, então qualquer espaço pode ser vendido.

Mas será que pode?

A pergunta que fica

O Corinthians pode ganhar R$ 22 milhões. A Fatal Fans pode ganhar visibilidade. A marca pode ganhar familiaridade. O clube pode financiar modalidades esportivas.

Tudo isso pode ser verdade ao mesmo tempo. Mas também pode ser verdade que nem todo dinheiro deveria comprar todo espaço.

Um clube de futebol não é apenas uma empresa vendendo centímetros de tecido. É uma instituição cultural. É uma marca. É uma referência para milhões de pessoas.

E, principalmente, é uma marca que entra dentro da casa das famílias. Por isso, a discussão não deveria ser simplesmente:

“O Corinthians precisa de dinheiro?”

É claro que precisa. A pergunta deveria ser:

“Existe algum limite para o que uma instituição pode aceitar em troca de dinheiro?”

E, se existe, quem decide onde esse limite está? Porque quando a resposta passa a ser “qualquer coisa, desde que pague bem”, não estamos apenas mudando um patrocinador.

Estamos mudando o que aquela instituição representa. E talvez seja por isso que o silêncio de tanta gente seja tão ensurdecedor.

Porque se o debate fosse realmente sobre proteção das crianças, respeito às mulheres, responsabilidade social e limites da publicidade, essa discussão deveria estar muito maior.

Muito mais gente deveria estar perguntando. Muito mais gente deveria estar incomodada. E principalmente:

muito mais gente deveria estar perguntando por que uma criança precisa aprender o nome de uma plataforma de conteúdo adulto simplesmente porque decidiu assistir a um jogo de futebol.

Adultos têm liberdade para fazer suas escolhas. Crianças têm direito à proteção. E essas duas coisas não são contraditórias.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo