Em entrevista ao podcast Você Está Contratado, Silvia Triboni questiona o preconceito contra profissionais mais velhos e explica por que envelhecer bem exige planejamento, aprendizado e disposição para continuar vivendo novas experiências.
Aos 83 anos, uma mulher percorre mais de 2 mil quilômetros pelo sertão nordestino, visita sítios arqueológicos e surpreende seus companheiros de viagem com o conhecimento que possui sobre cada destino. O relato, compartilhado na abertura de mais um episódio do podcast Você Está Contratado, serviu como ponto de partida para uma discussão sobre longevidade, trabalho e os limites que a sociedade costuma associar à idade.
A convidada foi Silvia Triboni, advogada aposentada da Justiça Federal, escritora e defensora do conceito de longevidade intencional. Em conversa com Marcelo Nóbrega e Jederson Beck, ela questionou os preconceitos que ainda afastam profissionais experientes do mercado de trabalho e defendeu uma mudança na maneira como encaramos o envelhecimento.
Para Silvia, chegar aos 60 anos não significa necessariamente encerrar a vida profissional, abandonar projetos ou reduzir as expectativas sobre o futuro.
Sua própria trajetória ilustra essa convicção.
Às vésperas da aposentadoria, ela decidiu que não queria interromper suas atividades. Começou uma segunda carreira, aprofundou seus estudos sobre longevidade e passou a compartilhar experiências relacionadas a viagens, saúde, empregabilidade e convivência entre gerações.
“Eu não posso ir para os aposentos da aposentadoria, eu quero continuar”, recordou.
O preconceito começa antes dos 60 anos
Uma das principais discussões da entrevista foi o etarismo, também chamado de preconceito etário.
Silvia explicou que a discriminação relacionada à idade não atinge exclusivamente os mais velhos. Profissionais jovens também podem ser desvalorizados por sua idade, embora o problema se manifeste de maneira particularmente preocupante quando trabalhadores experientes encontram dificuldades para continuar suas carreiras.
A escritora relatou situações nas quais profissionais com pouco mais de 40 anos já enfrentavam restrições em processos de recrutamento.
“Tem que acabar esse papo de falar de idade”, afirmou.
Para ela, as organizações precisam avaliar as competências, a experiência e a capacidade de contribuição de cada profissional, em vez de estabelecer julgamentos baseados exclusivamente na faixa etária.
O problema também pode começar dentro de nós mesmos.
Silvia chamou atenção para o autoetarismo: quando uma pessoa passa a acreditar que está velha demais para aprender, trabalhar, viajar ou participar de determinadas atividades.
Essa percepção pode limitar oportunidades antes mesmo que qualquer obstáculo externo apareça.
Contratar profissionais mais velhos não é caridade
Outro ponto defendido por Silvia foi a importância da convivência entre diferentes gerações nas empresas.
Ela destacou que profissionais de idades distintas carregam experiências, competências e perspectivas que podem se complementar.
Enquanto algumas pessoas possuem maior familiaridade com determinadas tecnologias, outras podem contribuir com conhecimentos acumulados durante décadas de atuação profissional.
O importante, segundo a entrevistada, é criar ambientes nos quais essas competências sejam compartilhadas.
Ao comentar a presença de trabalhadores mais velhos nas organizações, Silvia foi enfática: “Isso não é caridade”.
Sua argumentação é que a diversidade geracional deve ser compreendida como uma oportunidade de aproveitar talentos e melhorar o funcionamento das equipes, não apenas como uma ação social.
Nesse contexto, ela também questionou a expressão mentoria reversa.
Para Silvia, o termo pode transmitir a ideia de que existe algo extraordinário quando uma pessoa mais jovem ensina alguém mais velho. Na sua visão, a troca de conhecimentos deveria ocorrer naturalmente, independentemente da idade.
O que importa é identificar quem possui determinado conhecimento e quem pode aprender com ele.
Envelhecer bem não deve ser obra do acaso
Autora dos livros Empregabilidade 50+ e Longevidade Intencional, Silvia defende que as pessoas assumam um papel ativo no planejamento de seu futuro.
O conceito de longevidade intencional propõe justamente essa mudança de postura.
Em vez de esperar a aposentadoria para começar a pensar nas próximas décadas, ela recomenda planejar antecipadamente diferentes aspectos da vida, incluindo saúde, finanças, relacionamentos e desenvolvimento pessoal.
“Não é deixar a vida me levar”, explicou.
A escritora ressaltou que envelhecer bem envolve diferentes dimensões, que vão muito além dos cuidados médicos.
É necessário preservar a saúde física e emocional, manter relações sociais, cultivar interesses e continuar aprendendo.
E essa preparação não precisa começar aos 60 anos. Durante a entrevista, Silvia defendeu que as pessoas comecem a pensar sobre o assunto mais cedo, especialmente diante das transformações que podem atingir suas carreiras.
O que viagens e amizades têm a ver com longevidade?
Uma parte importante da conversa foi dedicada às viagens e à convivência social.
Silvia contou que decidiu investigar os possíveis benefícios das experiências de viagem para o envelhecimento e passou a abordar o assunto em suas atividades e publicações.
Para ela, viajar oferece oportunidades de aprendizado, movimento, contato com diferentes culturas e construção de novas amizades.
A escritora também defendeu a importância de manter a curiosidade e experimentar atividades desconhecidas, mesmo quando elas parecem destinadas a pessoas de outras faixas etárias.
Ela própria relatou experiências em hostels internacionais, onde compartilha espaços e atividades com viajantes de diferentes gerações.
O objetivo não é simplesmente conhecer novos destinos, mas preservar a disposição para descobrir, aprender e estabelecer conexões.
Ao comentar o que considera fundamental para uma boa longevidade, Silvia destacou especialmente os relacionamentos.
“Acima de tudo, nós temos que ter amigos”, afirmou.
Segundo ela, manter uma rede social ativa, participar de atividades coletivas e cultivar interesses contribuem para uma vida mais rica e participativa.
A tecnologia também faz parte da longevidade
O avanço tecnológico acrescentou uma nova dimensão ao conceito defendido por Silvia.
Além dos aspectos físicos, emocionais, sociais e financeiros, ela passou a incluir a segurança digital entre os cuidados necessários para uma longevidade planejada.
A entrevistada alertou para os golpes virtuais e destacou que as fraudes não atingem exclusivamente as pessoas mais velhas.
Criminosos utilizam diferentes estratégias para explorar emoções, estabelecer relações de confiança e obter informações ou recursos financeiros.
Silvia também abordou o uso de inteligência artificial para produzir imagens e vozes falsas, ampliando os desafios relacionados à segurança no ambiente digital.
O tema está presente em sua obra Cibersegurança para a Longevidade Intencional, desenvolvida em parceria com Thiago Vieira.
Outra questão discutida foi o legado digital: o que acontece com nossos documentos, imagens, contas e informações armazenadas na internet quando deixamos de poder administrá-los?
Para a escritora, organizar esse patrimônio também representa uma maneira de cuidar do próprio futuro e das pessoas próximas.
A tecnologia, portanto, não deveria ser encarada como um território exclusivo dos jovens.
Silvia defendeu que profissionais experientes mantenham a disposição para aprender a utilizar novas ferramentas, incluindo aplicações de inteligência artificial.
Uma nova maneira de enxergar a aposentadoria
A conversa trouxe uma reflexão sobre o significado da aposentadoria e sobre as oportunidades que podem surgir nas décadas seguintes.
Silvia não propõe que todas as pessoas continuem trabalhando indefinidamente, mas defende que a idade não seja utilizada para determinar quais experiências alguém pode ou não viver.
Empreender, voltar a estudar, desenvolver novas habilidades, viajar e participar de projetos continuam sendo possibilidades.
O mesmo raciocínio vale para as empresas, que precisam repensar a maneira como aproveitam os conhecimentos de profissionais com diferentes trajetórias.
Na perspectiva apresentada pela escritora, longevidade não significa apenas viver por mais tempo. Significa desenvolver condições para continuar fazendo escolhas, cultivando interesses e construindo novas experiências.
A questão deixa de ser simplesmente quantos anos uma pessoa tem.
Passa a ser o que ela ainda deseja fazer com os anos que tem pela frente.










