Em 1988, eu estava no Canadá, fazendo um curso de verão sobre equidade de gênero.
Li O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e comentei o livro com uma colega canadense.
Ela dizia que o risco de aquilo acontecer não era apenas ficção.
Eu ri.
Não conseguia imaginar aquilo no Canadá. Uma democracia consolidada, com instituições estáveis e direitos das mulheres reconhecidos.
No Brasil, a situação era outra, mas cheia de esperança. Estávamos saindo de uma ditadura e construindo uma nova Constituição.
Muitos anos depois, o livro virou uma série, muito vista e comentada.
Hoje, não acho graça.
Quase quarenta anos depois, penso naquela conversa e percebo o quanto eu confiava na ideia de que certas conquistas estavam definitivamente asseguradas.
Talvez eu imaginasse os direitos como uma parede: algo sólido, construído de uma vez e difícil de derrubar.
Mas direitos não são paredes.
São construções humanas. Podem avançar, ser ampliados e também sofrer retrocessos.
Minha amiga canadense parecia saber disso antes de mim.
Talvez por isso O Conto da Aia lhe parecesse menos absurdo do que a mim.
O livro descreve uma sociedade em que as mulheres perdem direitos que pareciam elementares. Na época, eu o lia como uma distopia distante. Hoje, a história me parece um lembrete de que nenhuma sociedade está dispensada de cuidar das conquistas que considera óbvias.
Não é preciso imaginar imediatamente uma sociedade como a de Atwood.
Basta prestar atenção quando direitos começam a ser apresentados como excessos, privilégios ou ameaças à família e aos costumes.
Direitos das mulheres, igualdade, liberdade: nada disso deveria ser confundido com patrimônio adquirido para sempre.
Penso naquela colega canadense e no meu riso de quase quarenta anos atrás.
Ela talvez tivesse entendido antes de mim uma coisa simples.
Direitos precisam ser defendidos antes que seja tarde.
Essa foi uma lição duramente aprendida.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









