Parece que existem apenas dois jeitos de ser velha ou velho.
De um lado, estão as propagandas. Mulheres e homens de cabelos grisalhos escalam montanhas, correm maratonas, fazem dança acrobática e anunciam cremes, suplementos e exercícios capazes de vencer o tempo.
Do outro, aparece a velhice reduzida à doença, à dependência e às perdas. Como se, a partir de certa idade, a pessoa deixasse de ser protagonista da própria vida.
Entre esses dois extremos vivem milhões de velhas e velhos que simplesmente acordam, trabalham, cuidam de quem amam, sentem dores, riem, esquecem, aprendem, fazem planos, desistem de alguns e inventam outros.
São pessoas. Não personagens.
Talvez o problema comece quando esperamos que a velhice caiba em um modelo.
A velha esportista. O avô sábio. A avó sempre disponível. A pessoa eternamente jovem. Ou aquela que deve aceitar tudo com resignação.
Outro dia me peguei pensando em quantos papéis já inventaram para quem envelhece.
Não me reconheço em nenhum deles.
Não quero passar os próximos anos tentando parecer mais jovem do que sou. Também não pretendo vestir uma fantasia de velhice comportada apenas porque cheguei a determinada idade.
Prefiro outra possibilidade.
Continuar mudando. Continuar aprendendo. Continuar me surpreendendo comigo mesma.
Talvez envelhecer seja justamente isso: deixar de representar personagens e voltar a ser apenas uma pessoa.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









