Ao criticar a autonomia do BC, presidente mistura as responsabilidades do Executivo com as da autoridade monetária e deixa uma pergunta sem resposta: ele quer apenas governar a economia ou controlar também as decisões sobre os juros?
Durante sabatina ao Jornal da Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a autonomia do Banco Central. Segundo ele, havia quem acreditasse que um BC independente resolveria os problemas econômicos do país, mas isso não aconteceu.
Na sequência, Lula defendeu que “o presidente da República eleito” tenha o poder de “interferir na economia” — algo que, segundo ele, o chefe do Executivo não teria mais.
A declaração soa estranha por um motivo bastante simples: o presidente da República continua tendo enorme poder sobre a economia. É o governo que decide quanto pretende gastar, quais impostos deseja aumentar ou reduzir, onde investir, quais setores incentivar e quais programas sociais criar.
O que a autonomia do Banco Central retirou do presidente não foi o poder de governar a economia. Foi a possibilidade de comandar diretamente a política monetária, determinar o rumo dos juros ou substituir livremente o presidente do BC por discordar de suas decisões.
É justamente por isso que a fala de Lula merece uma pergunta: quando ele diz que deseja voltar a “interferir”, qual poder exatamente pretende recuperar?
O Banco Central nunca prometeu resolver a economia
A primeira confusão presente na declaração é atribuir ao Banco Central uma responsabilidade que ele nunca recebeu.
A autonomia do BC não foi criada para resolver todos os problemas econômicos do Brasil. Ela não gera crescimento por conta própria, não constrói infraestrutura, não melhora a educação, não aumenta a produtividade e não garante equilíbrio nas contas públicas.
De acordo com a Lei Complementar 179, aprovada em 2021, o objetivo fundamental do Banco Central é assegurar a estabilidade de preços. A instituição também deve preservar a estabilidade do sistema financeiro, suavizar as oscilações da atividade econômica e contribuir para o pleno emprego — sem abandonar sua missão principal de controlar a inflação.
Portanto, afirmar que o BC autônomo não resolveu os problemas econômicos equivale a cobrar da instituição uma missão que nunca foi dela.
O Banco Central cuida da moeda, dos juros, do crédito, das reservas internacionais e da segurança do sistema bancário. Já a condução mais ampla da economia continua nas mãos do governo, do Congresso, das empresas e dos consumidores.
Para que servem os ministérios da área econômica?
Se o Banco Central fosse responsável pela economia inteira, realmente seria possível perguntar para que serviriam os ministérios da Fazenda, do Planejamento e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
É o Executivo que elabora o Orçamento, administra os gastos, propõe impostos, cria subsídios, negocia mudanças tributárias, define investimentos públicos e formula políticas industriais, comerciais e sociais.
O presidente também indica o presidente e os diretores do Banco Central, embora os nomes precisem ser aprovados pelo Senado. O próprio Gabriel Galípolo, atual presidente da instituição, foi escolhido por Lula.
A autonomia não transformou o BC em um poder sem controle. As metas da política monetária são estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional, enquanto o Banco Central decide quais instrumentos utilizar para tentar cumpri-las. Seu presidente também deve comparecer ao Senado para explicar publicamente as decisões tomadas.
A instituição possui autonomia operacional, não soberania sobre o país.
Quem controla a oferta e a demanda?
Outro equívoco comum é imaginar que somente o Banco Central controla a inflação.
Quando existe consumo e crédito em excesso diante de uma produção insuficiente, o BC pode elevar os juros para reduzir a demanda. Financiamentos ficam mais caros, famílias consomem menos, empresas adiam investimentos e a economia desacelera.
Mas o Banco Central não produz alimentos, energia ou combustíveis. Também não constrói estradas, não reduz burocracias, não melhora portos e não cria capacidade produtiva.
Quando a inflação é provocada por uma seca, pela alta do petróleo, pela quebra de uma safra, por problemas logísticos ou pela falta de produtos, grande parte da solução depende do governo e do setor produtivo.
O Executivo pode reduzir impostos, facilitar importações, investir em infraestrutura, estimular a produção e retirar entraves. O problema é que, mesmo quando a alta começa com um choque de oferta, ela pode se espalhar para salários, serviços e contratos. Nesse momento, o BC utiliza os juros para impedir que o aumento temporário se transforme em inflação permanente.
Por isso, não existe um único responsável por “equalizar” oferta e demanda. Governo e Banco Central atuam sobre partes diferentes da economia.
Um no acelerador e outro no freio
A política monetária e a política fiscal precisam caminhar na mesma direção.
Se o governo aumenta fortemente seus gastos, amplia o crédito e estimula o consumo enquanto a inflação permanece elevada, o Banco Central pode responder mantendo os juros altos para conter a demanda.
Nesse cenário, o governo pisa no acelerador e o BC pisa no freio.
Isso não significa que o Banco Central esteja sempre certo. A instituição pode errar na intensidade e no momento de aumentar ou reduzir os juros. Suas decisões precisam ser questionadas, explicadas e avaliadas.
Autonomia não significa infalibilidade.
Mas o governo também não pode responsabilizar exclusivamente o BC pelos juros altos enquanto ignora o efeito de seus próprios gastos, da trajetória da dívida e da confiança nas contas públicas.
A autonomia impediu o Brasil de virar uma Venezuela?
Dizer que o Banco Central autônomo impediu sozinho que o Brasil se transformasse em uma Venezuela seria um exagero impossível de comprovar.
A Venezuela entrou em colapso por uma combinação de fatores: dependência do petróleo, déficits públicos, emissão de moeda, controles de preços e câmbio, destruição da capacidade produtiva e enfraquecimento das instituições.
A submissão do banco central ao governo foi uma parte importante desse processo, mas não foi a única causa.
Estudos reunidos pelo Banco Mundial mostram uma relação consistente entre maior autonomia dos bancos centrais e inflação mais baixa. A independência monetária também dificulta que um governo utilize a emissão de dinheiro ou a redução artificial dos juros para financiar gastos e produzir crescimento de curto prazo.
A formulação mais correta, portanto, seria dizer que a autonomia do BC funciona como uma das barreiras contra o uso eleitoral da moeda. Não é a única proteção contra uma crise como a venezuelana, mas é uma delas.
Também é importante lembrar que a autonomia formal do BC brasileiro só foi aprovada em 2021. Durante os dois primeiros governos Lula, Henrique Meirelles comandou a instituição com liberdade operacional, embora não tivesse um mandato estabelecido em lei.
O próprio histórico de Lula demonstra que é possível existir coordenação entre governo e Banco Central sem que o presidente controle diretamente as decisões sobre os juros.
Lula está preparando o terreno para uma intervenção?
A declaração pode ser interpretada como uma tentativa de construir apoio político para reduzir a autonomia do Banco Central. Entretanto, a fala, sozinha, ainda não permite afirmar que exista um plano concreto de intervenção.
Existe uma diferença entre propor uma mudança na lei e tentar controlar a instituição à margem da lei.
Lula pode enviar ao Congresso uma proposta para alterar os mandatos dos diretores ou mudar o modelo de autonomia. Isso faria parte do debate democrático, ainda que existam riscos econômicos envolvidos.
Outra coisa seria pressionar o Banco Central para reduzir juros por conveniência eleitoral ou tentar substituir dirigentes simplesmente porque eles tomaram decisões contrárias aos desejos do governo.
A expressão “interferir na economia” é ampla demais. Lula não explicou se deseja apenas maior coordenação entre política fiscal e monetária ou se pretende recuperar o poder de influenciar diretamente a Selic.
É essa explicação que falta.
Passado fiscal não dá imunidade ao presente
Durante a entrevista, Lula também reagiu às críticas sobre as contas públicas. A reportagem do InfoMoney afirmou que o presidente considerava que não deveria ser questionado sobre responsabilidade fiscal devido aos resultados de seus primeiros mandatos.
Na publicação da própria Record, entretanto, a frase atribuída diretamente a Lula foi: “Não vem ninguém falar sobre responsabilidade fiscal”. O presidente recordou os superávits primários obtidos em seus primeiros governos e utilizou esse histórico como prova de que saberia administrar as contas do país.
Os resultados anteriores são relevantes, mas não concedem imunidade a questionamentos atuais.
Nenhum presidente pode responder sobre as contas de hoje apresentando apenas os números de vinte anos atrás. Cada mandato possui gastos, receitas, dívidas e circunstâncias diferentes.
De janeiro a julho de 2026, por exemplo, o Governo Central acumulou déficit primário de R$ 81,3 bilhões, segundo o próprio Ministério da Fazenda.
O déficit isoladamente não comprova irresponsabilidade fiscal. É necessário considerar o ciclo econômico, os investimentos, as despesas extraordinárias e a trajetória da dívida. Mas os números certamente autorizam — e exigem — perguntas.
A afirmação de Lula não constitui, por si só, um ato autoritário. É, porém, uma resposta arrogante e inadequada para qualquer governante democrático. Ser eleito concede legitimidade para governar, não o direito de ficar livre de questionamentos.
Afinal, o que Lula quis dizer?
A interpretação mais provável é que Lula considera a autonomia atual excessiva e gostaria que o presidente eleito tivesse maior capacidade de influenciar a política monetária.
Mas sua justificativa mistura duas questões diferentes.
É verdade que um Banco Central autônomo não resolve sozinho os problemas econômicos do país. Nunca foi essa a sua função.
Também é verdade que o presidente da República continua tendo diversos instrumentos para interferir na economia. O que ele não pode fazer é comandar diretamente os juros ou substituir os dirigentes do BC por mera divergência política.
A grande pergunta, portanto, permanece sem resposta: Lula quer mais instrumentos para governar a economia ou mais poder para controlar o Banco Central?
Enquanto não explicar o que pretende fazer, a declaração funcionará como uma crítica genérica à autonomia e, ao mesmo tempo, como um sinal de que o presidente considera insuficiente o poder econômico que a Constituição e as leis já colocam em suas mãos.










