Menos narrativas, mais propostas. Menos rótulos, mais respeito. E, principalmente, que a disposição para defender políticos se transforme em disposição para cobrar resultados. Uma lista de desejos de quem gostaria de voltar a discutir política sem precisar perder amigos pelo caminho.
As eleições de 2026 terminaram. Lula foi reeleito presidente da República, deputados e senadores conquistaram suas cadeiras e o país já sabe quem estará no comando nos próximos anos. Agora seria interessante se todo mundo lembrasse que a eleição acabou.
Sei que estou pedindo muito. Tem gente que ainda está discutindo a eleição de 2018.
Passamos meses assistindo a uma verdadeira guerra de narrativas. Discussões intermináveis, amizades abaladas, famílias divididas, grupos de WhatsApp transformados em tribunais ideológicos e pessoas que, aparentemente, descobriram que a principal função das redes sociais é convencer os outros de que são idiotas.
Pois bem. Agora que as urnas se fecharam, gostaria de compartilhar alguns desejos para os próximos anos. Não são propostas de governo. São propostas de convivência. E, convenhamos, algumas parecem mais difíceis de cumprir do que as promessas dos candidatos.
1. Quero discutir propostas de governo, não narrativas
Gostaria muito que a política voltasse a ser uma discussão sobre o que precisa ser feito.
Como melhorar a educação? O que fazer com a saúde pública? Como enfrentar a violência? De onde virá o dinheiro para cumprir as promessas? Qual é o plano para a economia? Como vamos medir os resultados?
Perguntas simples. Respostas nem tanto.
Durante a campanha, tive a impressão de que muitos candidatos estavam mais preocupados em explicar por que o adversário era uma tragédia para o país do que em demonstrar por que eles próprios seriam uma boa escolha.
Foi justamente essa a provocação que fiz quando lancei a campanha satírica “Nenhum dos Candidatos”, inspirada no filme Chuva de Milhões, com Richard Pryor.
O lema era bastante simples: “Não me diga quem é o pior. Diga por que eu deveria escolher você.”
Continuo esperando uma política em que as propostas sejam mais importantes do que a capacidade de destruir a reputação do adversário.
Sei que narrativas rendem mais curtidas. Mas obras, escolas, hospitais e empregos costumam ser um pouco mais úteis.
2. Quero poder discordar sem ser chamado de fascista ou comunista
Seria maravilhoso viver em um país onde alguém pudesse defender uma ideia mais à direita sem ser imediatamente chamado de fascista. Ou defender uma proposta mais à esquerda sem receber automaticamente o carimbo de comunista.
Aliás, seria ótimo se as pessoas soubessem explicar o significado dessas palavras antes de utilizá-las como xingamento.
Discordar faz parte da democracia. Pensar diferente também.
Posso concordar com uma proposta econômica de um político e discordar completamente de sua posição sobre educação. Posso admirar uma iniciativa de um governo e criticar outra. Isso não deveria me transformar em inimigo de ninguém.
Mas parece que a política virou um pacote fechado. Ou você compra tudo, ou não pertence à turma.
E eu não quero pertencer a uma turma que exige que eu desligue meu cérebro para continuar sendo aceito.
3. Quero ter o direito de não declarar meu voto sem ser chamado de isentão
Essa talvez seja uma das coisas mais curiosas das últimas eleições.
Parece que, para algumas pessoas, não basta votar. Você precisa anunciar, justificar, defender, publicar, compartilhar, colocar adesivo e, se possível, atualizar a foto do perfil com as cores do seu candidato.
Caso contrário, recebe o título de isentão.
Desde quando sou obrigado a transformar meu voto em uma declaração pública de fidelidade?
O voto é secreto por uma razão. E essa liberdade inclui o direito de não dizer em quem votei.
Não declarar voto não significa necessariamente ausência de opinião, falta de consciência política ou medo de se posicionar.
Às vezes, significa apenas que eu não tenho a menor vontade de entrar numa discussão que provavelmente terminará com alguém me chamando de fascista, comunista ou isentão. Dependendo do grupo, os três na mesma conversa.
4. Quero que a torcida organizada cobre seu político com o mesmo entusiasmo com que fez campanha
Aqui está um dos meus maiores desejos. Durante as eleições, vi pessoas trabalhando gratuitamente como verdadeiras agências de publicidade dos candidatos.
Produziram vídeos, compartilharam entrevistas, rebateram críticas, defenderam propostas, enfrentaram amigos, discutiram com parentes e dedicaram horas de suas vidas à campanha.
Admirável dedicação. Agora gostaria de ver a mesma energia sendo utilizada para cobrar os eleitos.
Se você passou meses defendendo um candidato, acompanhe o trabalho dele. Confira suas decisões. Fiscalize os gastos públicos. Questione promessas não cumpridas. Reconheça os acertos e cobre explicações pelos erros.
Político não é time de futebol. E eleitor não deveria se comportar como integrante de torcida organizada.
Isso vale para presidente, governador, senador e deputado.
Aliás, falando em deputados e senadores, tenho uma curiosidade: será que todo mundo que passou os últimos meses discutindo política consegue lembrar em quem votou para esses cargos?
E, mais importante, sabe o que essas pessoas estão fazendo?
Porque presidente aparece no noticiário todos os dias. Mas é no Congresso Nacional que muitas decisões capazes de mudar nossas vidas são discutidas e votadas.
Gostaria que as pessoas tivessem tanta disposição para acompanhar projetos de lei quanto tiveram para compartilhar memes de campanha.
E que compreendessem uma coisa básica: cobrar o político em quem votamos não é traição. É cidadania.
5. Vou orar pelos governantes eleitos, mesmo quando discordar deles
Aqui entra uma questão pessoal, relacionada à minha fé.
Sou cristão. E a Bíblia me ensina algo que considero importante, especialmente depois de uma eleição tão polarizada.
Em 1 Timóteo 2:1-2, o apóstolo Paulo orienta os cristãos a fazerem orações e intercessões por todas as pessoas, incluindo os reis e todos os que exercem autoridade, para que possamos viver de maneira tranquila, piedosa e respeitosa.
Portanto, vou orar pelos governantes eleitos.
Vou orar pelo presidente, pelos governadores, pelos senadores, pelos deputados e pelas demais autoridades. Vou pedir a Deus que tenham sabedoria, justiça, responsabilidade e discernimento para tomar decisões que beneficiem a população.
E isso independe de eu ter votado neles.
Orar por um governante não significa concordar com tudo o que ele faz. Muito menos considerá-lo escolhido por Deus para estar acima de qualquer crítica.
Significa reconhecer que suas decisões afetam milhões de pessoas e desejar que elas sejam tomadas com responsabilidade.
Recentemente, escrevi a matéria “Em quem o cristão deve votar?”, a partir de uma reflexão do pastor Zé Bruno, da Casa da Rocha, sobre os perigos de transformar a fé cristã em instrumento de militância partidária.
Continuo acreditando que Jesus não precisa de um partido político para representar seus ensinamentos.
E que nenhum político deveria ocupar, na vida de um cristão, um lugar que pertence a Deus.
6. Quero que as pessoas divulguem os projetos dos amigos com a mesma dedicação com que divulgaram seus candidatos
Esse desejo tem um pouco de provocação. Mas também tem muita sinceridade.
Durante a campanha, vi pessoas compartilharem diariamente conteúdos de políticos que provavelmente nunca conheceram pessoalmente.
Divulgaram vídeos, entrevistas, propostas, agendas, discursos e até fotografias dos candidatos tomando café.
Tudo de graça. Com entusiasmo. Sem ninguém precisar pedir.
Agora imaginem se essa mesma disposição fosse utilizada para apoiar os amigos.
Aquele amigo que abriu uma empresa. A amiga que lançou um livro. O conhecido que começou a prestar um serviço. O profissional que está tentando conquistar novos clientes. O pequeno empreendedor que precisa vender para pagar suas contas.
Será que custa tanto compartilhar o trabalho dessas pessoas?
Não estou dizendo que todo mundo precisa virar garoto-propaganda dos amigos. Mas seria interessante perceber que, enquanto dedicamos horas para ajudar um político a conquistar um cargo, muitas pessoas próximas de nós estão tentando conquistar algo bem mais simples: a oportunidade de trabalhar.
Talvez o amigo que abriu uma pequena empresa precise mais da sua divulgação do que o político que acabou de conquistar um mandato de quatro anos.
Fica a sugestão para a próxima campanha.
7. Quero que as pessoas aprendam a discutir ideias sem destruir relacionamentos
Esse talvez seja o desejo mais importante.
Não quero viver em um país onde amizades precisam terminar porque duas pessoas escolheram candidatos diferentes.
Não quero que famílias deixem de se reunir porque alguém votou na esquerda e outro votou na direita.
Não quero que uma opinião política se torne o único critério para avaliar o caráter de alguém.
E também não quero aquela falsa tolerância em que todo mundo se respeita, desde que ninguém discorde.
Respeitar quem pensa igual é fácil. O desafio começa quando alguém diz exatamente aquilo que você não gostaria de ouvir.
Dias atrás, escrevi sobre isso na matéria “Desde quando precisamos votar igual para continuar amigos?”, inspirada em um vídeo de um filho e sua mãe que apoiavam candidatos diferentes.
Eles discordavam politicamente, mas isso não alterava o amor e o respeito entre os dois.
Parece óbvio. Infelizmente, deixou de ser.
Precisamos reaprender a conversar, argumentar, ouvir, discordar e até reconhecer quando o outro tem razão.
É perfeitamente possível defender uma convicção com firmeza sem humilhar quem pensa diferente.
Tolerância não exige concordância. Exige respeito.
E respeito não deveria depender do resultado de uma eleição.
A eleição acabou. A cidadania continua.
Lula foi reeleito. Uma parte do Brasil está comemorando. Outra está frustrada. Faz parte do processo democrático.
O que não deveria fazer parte é passar os próximos quatro anos torcendo para que o país dê errado apenas para provar que o outro lado estava equivocado.
Não precisamos concordar com o presidente para desejar que o Brasil prospere. Também não precisamos apoiar o governo para reconhecer uma boa decisão. E ninguém deveria ser impedido de criticar uma medida ruim só porque votou em quem a tomou.
Quero ter a liberdade de elogiar quando acertarem e reclamar quando errarem. Sem preencher uma ficha de filiação ideológica a cada opinião.
Quero que a educação melhore, que a economia funcione, que os impostos sejam utilizados com responsabilidade, que a violência diminua e que as pessoas tenham oportunidades reais de viver melhor.
Quero ver o país avançar. Independentemente de quem esteja ocupando o Palácio do Planalto.
E quero continuar tomando café, almoçando, trabalhando, conversando e dando risada com pessoas que pensam de maneira completamente diferente de mim.
Porque, daqui a quatro anos, teremos outra eleição. Outros candidatos. Outras promessas. Provavelmente os mesmos memes e as mesmas discussões.
Mas seria muito bom se, até lá, ainda tivéssemos os mesmos amigos.
E se você passou os últimos meses fazendo campanha para o seu candidato, tenho dois pequenos pedidos: cobre o trabalho dele e, quando puder, compartilhe também o trabalho de um amigo.
Tenho quase certeza de que o segundo vai ficar muito mais feliz com o seu apoio.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










