Pastor Zé Bruno, da Casa da Rocha, questiona a polarização política entre evangélicos, critica a transformação de líderes em salvadores da pátria e defende que a fé cristã não deve se submeter às ideologias de esquerda ou direita.
Em quem um cristão deve votar? Na esquerda ou na direita? Em um candidato que defenda valores conservadores ou em outro que prometa combater as desigualdades sociais? Afinal, existe um posicionamento político que represente verdadeiramente os princípios do Evangelho?
Em meio às disputas eleitorais, essas perguntas têm dividido famílias, comunidades e até igrejas. O que deveria ser um exercício democrático de cidadania frequentemente se transforma em uma batalha ideológica, na qual convicções políticas passam a determinar quem seria, ou não, um cristão de verdade.
Para o pastor Zé Bruno, da Casa da Rocha, o problema começa justamente quando o cristão permite que sua identidade política se torne maior do que sua própria fé.
“Por que um cristão deixa o Evangelho e se rende a uma ideologia menor do que o Evangelho e discute qual das duas está certa?”, questiona o pastor.
A reflexão, apresentada em uma pregação que faz referência à disputa presidencial entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, vai além da escolha de um candidato. Ela coloca em discussão o papel da Igreja na sociedade, os limites da militância religiosa e o perigo de transformar políticos em figuras messiânicas.
O Evangelho não cabe na esquerda nem na direita
Na avaliação de Zé Bruno, uma das maiores contradições da polarização política entre cristãos é a tentativa de enquadrar o Evangelho em uma única corrente ideológica.
Para ele, os ensinamentos de Jesus abordam questões que aparecem nos discursos dos mais diferentes campos políticos: justiça, igualdade, amor, respeito, generosidade, convivência e cuidado com os mais vulneráveis.
“O Evangelho fala sobre justiça, fala sobre amor, fala sobre igualdade, fala sobre respeito.”
O pastor lembra que a mensagem cristã também contempla a realidade dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos estrangeiros e dos refugiados. Trata-se, portanto, de uma visão de mundo que não pode ser reduzida a bandeiras partidárias.
Em sua análise, tanto a esquerda quanto a direita apresentam propostas para organizar a sociedade e enfrentar seus problemas. A diferença está, muitas vezes, nos instrumentos escolhidos para alcançar esses objetivos.
Enquanto determinadas correntes de esquerda depositam maior confiança na atuação do Estado, correntes liberais da direita defendem o protagonismo do mercado e da iniciativa privada.
Zé Bruno, entretanto, rejeita a ideia de que qualquer um desses caminhos, isoladamente, seja capaz de resolver os problemas mais profundos da humanidade.
“Eu não acredito nem em mercado, nem em Estado como mediadores da vida humana.”
Na perspectiva teológica do pastor, a raiz da injustiça está na própria condição humana. Por isso, nenhuma estrutura política ou econômica seria suficiente para produzir, sozinha, a transformação que ele atribui ao Evangelho.
Quando o político ocupa o lugar de Jesus
Uma das críticas mais contundentes de Zé Bruno é dirigida ao comportamento de cristãos que passam a tratar líderes políticos como figuras escolhidas por Deus para salvar uma nação.
Para ele, essa postura representa uma perigosa inversão de valores: em vez de avaliar a política a partir dos princípios da fé, o cristão passa a interpretar a própria fé a partir de suas preferências políticas.
O pastor critica tanto aqueles que se identificam incondicionalmente com Lula quanto os que fazem o mesmo em relação a Bolsonaro.
Em sua visão, o problema não está em concordar com propostas de um candidato ou participar de movimentos políticos, mas em transformar essa identificação em devoção.
Zé Bruno também questiona lideranças religiosas que apresentam determinados políticos como ungidos, atribuindo a eles uma autoridade espiritual que ultrapassa os limites da atuação pública.
Para o pastor, a ideia de que um governante seria responsável por trazer uma espécie de redenção espiritual e política ao Brasil contradiz a centralidade de Cristo na fé cristã.
“O problema é sermos governados por um messias, seja ele de verde, amarelo ou de vermelho.”
A crítica alcança também a instrumentalização da religião durante campanhas eleitorais. Quando a fé se torna uma ferramenta de mobilização partidária, argumenta o pastor, abre-se espaço para o fanatismo, para a manipulação e para a submissão da Igreja aos interesses do poder.
Afinal, por que Zé Bruno vota em branco?
Em um dos momentos mais provocativos de sua mensagem, Zé Bruno revela uma decisão pessoal: segundo ele, desde 2010 deixou de escolher candidatos nas eleições.
Para explicar sua posição, o pastor utiliza uma analogia. Imagine alguém que passou uma semana sem comer e encontra apenas duas opções de alimento: um hambúrguer apodrecido e um prato de arroz com feijão estragados.
Embora esteja faminta, essa pessoa precisaria avaliar se escolher uma das alternativas não poderia provocar consequências ainda piores.
A comparação serve para explicar sua rejeição à lógica eleitoral do chamado menos pior.
“Agora você entende por que eu voto em branco?”
Zé Bruno argumenta que o eleitor frequentemente é pressionado a escolher entre candidatos nos quais não acredita, sob o argumento de que deixar de votar em um deles seria desperdiçar o próprio voto.
Sua posição, entretanto, não é apresentada como uma regra religiosa. O pastor faz questão de ressaltar que essa é sua opinião pessoal.
É importante observar, também, que o voto em branco não provoca a anulação de uma eleição no Brasil e não funciona como um mecanismo automático de substituição dos candidatos. Trata-se de uma manifestação individual que não é contabilizada entre os votos válidos.
Assim, a declaração do pastor deve ser compreendida como uma crítica pessoal às alternativas políticas que lhe foram apresentadas, e não como uma obrigação ou recomendação universal para os cristãos.
O cristão deve participar da política?
Apesar de suas críticas às ideologias e aos líderes políticos, Zé Bruno não defende que os cristãos se afastem da sociedade ou abandonem a participação na vida pública.
Pelo contrário.
Ele afirma que a Igreja deve estar presente nas iniciativas que promovam justiça, dignidade e cuidado com as pessoas, independentemente da orientação partidária de quem as realiza.
“É óbvio que nós, como Igreja, vamos participar do processo nessa terra.”
Isso significa que cristãos podem dialogar sobre modelos econômicos, políticas sociais, responsabilidades do Estado, liberdade de mercado e diferentes propostas de governo.
Para Zé Bruno, essas discussões são legítimas e saudáveis. O que não pode acontecer é a transformação de divergências políticas em critérios para determinar a fidelidade de alguém a Jesus.
Em outras palavras, dois cristãos podem chegar a conclusões eleitorais diferentes sem que isso necessariamente signifique que um deles abandonou os princípios da fé.
A participação cristã na política, nessa perspectiva, exige discernimento, responsabilidade e disposição para reconhecer acertos e erros em qualquer governo.
A Igreja deve defender governos ou confrontar o poder?
Outro ponto importante da mensagem está na independência que o pastor considera essencial à Igreja.
Zé Bruno questiona a postura de lideranças religiosas que usam seus púlpitos para estimular hostilidade política ou impor suas convicções à sociedade.
Ele também critica a tentativa de transformar crenças religiosas em imposições a grupos que não compartilham da mesma fé.
Sua reflexão parte do princípio de que viver em uma sociedade democrática exige reconhecer a liberdade de consciência e a existência de diferentes visões de mundo.
Na avaliação do pastor, a Igreja não deve funcionar como uma extensão de partidos, campanhas eleitorais ou governos.
Sua responsabilidade é muito mais ampla: defender princípios, denunciar injustiças, servir às pessoas e exercer uma consciência crítica diante do poder.
Por isso, a atuação da Igreja não deveria depender de quem ocupa a Presidência da República.
Quando um governo age corretamente, pode encontrar apoio. Quando se afasta dos valores que a comunidade cristã considera fundamentais, deve ser questionado, ainda que tenha recebido seus votos.
Zé Bruno resume essa responsabilidade em uma afirmação contundente:
“O profeta não come na mesa do rei. O profeta é aquele que tem o dedo para apontar o erro do rei.”
Então, em quem o cristão deve votar?
Talvez a principal mensagem da reflexão de Zé Bruno seja justamente a recusa em oferecer uma resposta partidária para uma pergunta de natureza espiritual e ética.
O pastor não apresenta um nome, uma legenda ou uma corrente ideológica como representante legítima do cristianismo.
Em vez disso, provoca os fiéis a refletirem sobre quais valores orientam suas escolhas e, principalmente, sobre o lugar que a política ocupa em suas vidas.
Isso não elimina a importância do voto, da democracia ou do debate público. Também não significa que todas as propostas políticas sejam equivalentes ou que suas consequências práticas devam ser ignoradas.
Significa, na perspectiva apresentada pelo pastor, que a identidade cristã precisa permanecer maior do que qualquer preferência eleitoral.
O cristão pode apoiar um candidato sem transformá-lo em ídolo. Pode defender uma proposta sem considerar inimigo quem pensa diferente. Pode participar da política sem permitir que ela se torne sua religião.
No centro da reflexão de Zé Bruno dá uma advertência: quando a defesa de um político passa a justificar o ódio, a intolerância e o desprezo pelo próximo, talvez seja necessário perguntar se a fé continua orientando a política ou se a política passou a controlar a fé.
Afinal, mais importante do que descobrir em quem Jesus votaria é questionar se a maneira como estamos tratando uns aos outros ainda se parece com aquilo que Ele ensinou.
E talvez essa seja a pergunta que todo cristão deveria fazer antes de entrar na cabine de votação.










