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Desde quando precisamos votar igual para continuar amigos?

Em vídeo com a mãe, empresário mostra que é possível discordar politicamente sem romper relações. Uma mensagem que deveria ser óbvia, mas que parece cada vez mais difícil de compreender.

O empresário Marcos Freitas publicou um vídeo ao lado da mãe que deveria ser assistido por muita gente. Ele aparece usando um boné de Bolsonaro. Ela, um boné de Lula. Os dois estão em lados opostos da política, mas continuam do mesmo lado quando o assunto é família.

Freitas lembra que aquela mulher o carregou por nove meses, ensinou a rezar, a respeitar os mais velhos e a trabalhar. Ficou acordada quando ele estava doente e acreditou nele quando ninguém mais acreditava. Hoje, os dois discordam sobre política. Ele acredita que a mãe está errada. Ela provavelmente pensa o mesmo a respeito do filho.

“E sabe o que isso muda no amor que eu sinto por ela? Nada”, afirma o empresário.

Parece simples, não é? Pois chegamos a um ponto em que esse tipo de declaração virou quase um ato de coragem.

Eu amo meus amigos e familiares. Tenho pessoas muito próximas que votam no Lula e outras que votam no Flávio Bolsonaro. Petistas, bolsonaristas, gente de direita, de esquerda e até quem já desistiu de tentar entender essa confusão toda. Convivo com essas pessoas, converso, discordo e continuo gostando delas. Não preciso de um comprovante de voto para decidir quem merece minha amizade.

Recentemente, publiquei uma mensagem pedindo que as pessoas parassem de idolatrar idiotas. Resultado? Perdi 200 seguidores no mesmo dia. Duzentos! Como se alguém tivesse apertado um botão para expulsar todos aqueles que não suportam ouvir uma crítica à devoção política. Felizmente, já recuperei esse número e ultrapassei a quantidade anterior. Mas o mais curioso foram as reações.

Teve gente me chamando de bolsonarista. Outros fizeram questão de anunciar o famoso “deixando de seguir”, como se estivessem comunicando o rompimento de relações diplomáticas entre dois países. E houve quem me questionasse sobre o significado de idolatria. Sério mesmo? Chegamos ao ponto de precisar explicar por que transformar um político em alguém incapaz de errar é um problema?

O nível realmente está muito baixo.

Mas, considerando tudo o que aconteceu durante estas eleições, meu saldo ainda foi positivo. Embora algumas situações tenham sido bastante reveladoras.

Uma colega de faculdade resolveu me confrontar porque eu não dizia em quem votaria. Tentei explicar minha posição, argumentei que não revelar o voto não significa deixar de ter opiniões e que ninguém deveria ser obrigado a declarar apoio público a um candidato. Não adiantou. Ela deixou de me seguir. Uma pena. Anos de convivência e lembranças acabam pesando menos do que uma resposta que a pessoa gostaria de ouvir.

Outro amigo me chamou pelo WhatsApp com a mesma curiosidade: queria saber em quem eu ia votar. Respondi que meu voto era secreto. Ele insistiu, tentou descobrir de todas as maneiras, mas não consegui satisfazer sua curiosidade. Nem vou. Continuarei defendendo o direito de votar sem precisar prestar contas a amigos, familiares ou seguidores.

A diferença é que esse amigo, pelo menos, continuou sendo meu amigo. Ainda bem.

Não me recuso a discutir política. Pelo contrário. Quero falar sobre educação, saúde, economia, segurança, impostos, corrupção e os problemas que realmente afetam a vida das pessoas. Quero entender o que cada candidato pretende fazer, de onde sairá o dinheiro e como suas promessas poderão ser cumpridas. O que me cansa é perceber que, para muita gente, discutir política passou a significar repetir narrativas, defender o próprio candidato a qualquer custo e atacar quem pensa diferente.

E confesso que fico ainda mais inconformado quando vejo pessoas fazendo propaganda gratuita para políticos, defendendo-os como se fossem amigos íntimos ou integrantes da própria família. Político é servidor público. Deve ser cobrado, fiscalizado e, quando necessário, criticado. Inclusive por quem votou nele.

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado pela Band no domingo, 18 de outubro, reforçou minha impressão de que estamos sendo tratados como palhaços, e não como eleitores. Em vez de uma discussão capaz de esclarecer o que cada um pretende fazer pelo país, assistimos a mais um espetáculo de provocações, acusações e disputas para descobrir quem conseguiria constranger mais o adversário. E, como sempre, cada torcida saiu convencida de que seu candidato havia vencido.

Mas venceu o quê? Quem estava assistindo para decidir seu voto encontrou respostas suficientes?

Enquanto isso, nas redes sociais, as torcidas organizadas trabalham intensamente. Recortam vídeos, distribuem ofensas, espalham interpretações convenientes e transformam qualquer crítica em prova de que alguém pertence ao grupo adversário. Os políticos conhecem muito bem esse comportamento. Muitos o incentivam porque se beneficiam dele. Quanto mais as pessoas se enxergam como inimigas, menos espaço sobra para perguntas incômodas.

E a conta fica com a gente. São amizades desfeitas, famílias divididas e pessoas que já não conseguem conversar sem transformar tudo numa disputa eleitoral.

É justamente aí que o vídeo de Marcos Freitas ganha importância. Ele não esconde sua preferência política, não pede desculpas por pensar diferente da mãe e tampouco exige que ela mude de opinião. Os dois continuam discordando. E tudo bem.

Freitas também recorre à sua fé cristã para lembrar que Jesus se sentava à mesa com pessoas de diferentes origens e convicções. O empresário questiona como alguém pode dizer que segue a Cristo e, ao mesmo tempo, não conseguir respeitar quem pensa diferente dentro da própria casa.

Não é preciso compartilhar da religião dele para compreender a mensagem.

Há uma frase no vídeo que merece atenção: “Vota com convicção, debata com respeito e depois da eleição, volte para a mesa.”

Eu acrescentaria uma coisa. Não espere a eleição acabar para voltar à mesa.

Não estou pedindo que ninguém abandone suas convicções, passe a concordar com tudo ou finja que diferenças políticas não têm consequências. Há questões importantes que merecem discussões firmes. Respeitar uma pessoa também não significa aceitar qualquer comportamento ou comentário ofensivo. Mas precisamos recuperar a capacidade de discordar sem transformar automaticamente o outro num inimigo.

No próximo domingo, 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas. Um candidato ganhará. O outro perderá. Os apoiadores comemorarão ou ficarão indignados, e a vida continuará com todos os problemas que nenhum resultado eleitoral será capaz de resolver sozinho.

Minha mãe continuará sendo minha mãe. Meus amigos continuarão sendo meus amigos, independentemente do número que apertarem na urna. Pelo menos da minha parte, é assim que pretendo agir.

Não vou revelar meu voto. Não vou escolher amizades pela preferência partidária. E certamente não vou tratar político como ídolo.

Afinal, se alguém precisa saber em quem você vota para decidir se continua gostando de você, talvez o problema nunca tenha sido a política.

E para quem ainda tem dúvidas sobre o que significa idolatria, deixo uma sugestão: experimente criticar seu político favorito com a mesma disposição com que critica o adversário. Se isso parecer impossível, talvez já tenha encontrado a resposta.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo