“Algumas peças são escritas. Outras parecem encontrar o autor.”
É assim que Flavio de Souza descreve o surgimento de Fica Comigo Esta Noite, uma das comédias românticas mais longevas do teatro brasileiro. Quase quatro décadas depois da estreia, o dramaturgo olha para trás e percebe que a história do casal que conversa durante um velório nunca foi fruto de um plano cuidadosamente arquitetado. Pelo contrário. Ela nasceu aos poucos, alimentada por memórias, referências artísticas, experiências pessoais e, principalmente, por personagens que pareciam ter vida própria.
A ideia de um morto que continua presente na história vinha acompanhando o autor desde a adolescência. Primeiro, pela leitura de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, em que o falecido Vadinho retorna à vida de Dona Flor. Depois, por A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, também de Jorge Amado, onde o protagonista percorre uma última noite ao lado dos amigos.
O cinema também deixou marcas profundas. Flavio lembra de uma cena de Último Tango em Paris, em que o personagem de Marlon Brando conversa com a esposa morta ao lado do caixão. Mais tarde, veio Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman, no qual um pai continua presente na vida da família mesmo após sua morte.
Essas referências permaneceram adormecidas durante anos até encontrarem uma forma própria.
A primeira versão de Fica Comigo Esta Noite, escrita em meados de 74 ou 75 para a atriz Mira Haar, era um monólogo. Em algum momento, porém, aconteceu algo decisivo.
“O morto se levantou e começou a falar”, conta o autor.

Foi nesse instante que o texto deixou de ser um monólogo para se transformar em diálogo. Sem que ele soubesse, ali começava a nascer a estrutura que décadas depois conquistaria milhares de espectadores.
Na época, entretanto, Flavio não imaginava que aquela seria sua obra mais conhecida. Pelo contrário. Ele a colocava ao lado de outras peças que chamava, com humor, de “esquisitas”, como Suicidas em Revista, Segredos Mal Comportados e Anatomia de um Suicídio. Nenhuma delas parecia destinada aos grandes palcos.
Enquanto escrevia, sua vida também mudava. Havia deixado um emprego que descreve como uma “tortura” na Editora Globo para se dedicar ao teatro. Começou dando oficinas para adolescentes e adultos, criando espetáculos coletivos ao fim de cada semestre. Foi nesse ambiente que amadureceu como diretor e dramaturgo. As experiências pessoais também atravessaram o texto.
Embora nunca tenha pretendido escrever uma obra autobiográfica, Flavio reconhece que o relacionamento entre o casal dialoga tanto com seu casamento quanto com a convivência que observou entre seus pais. Há ainda uma lembrança de infância que nunca o abandonou: o velório da avó realizado dentro da casa da família.
“Cheguei e vi minha avó no caixão, com velas, flores e pessoas em volta, como se estivessem assistindo a um espetáculo”, recorda.

Talvez por isso, mesmo sem perceber, tenha ambientado a peça em uma época em que os velórios ainda aconteciam dentro das residências. Curiosamente, Flavio jamais acreditou estar escrevendo uma comédia. Na cabeça dele, Fica Comigo Esta Noite era um drama com alguns momentos de humor. A verdadeira descoberta aconteceu apenas na estreia da primeira montagem, em 1988, estrelada por Marisa Orth e Carlos Moreno.
Quando a viúva pergunta ao marido morto: “Você viu Jesus?”, a plateia explodiu em gargalhadas. Foi naquele instante que o autor, os atores e a equipe compreenderam que tinham criado algo muito raro: uma peça capaz de fazer rir e emocionar quase ao mesmo tempo. Desde então, o texto nunca deixou de evoluir.
Ao longo dos anos, Flavio escreveu versões para cinema, televisão e até uma curiosa adaptação em formato de romance composto apenas por diálogos. Algumas dessas versões jamais chegaram ao público. Outras acrescentaram flashbacks, cenas inéditas e comentários dos visitantes do velório, elementos que, aos poucos, passaram a integrar montagens posteriores.
O autor conta que chegou a se surpreender ao descobrir que lembranças que considerava “originais” haviam surgido, na verdade, durante encenações dirigidas por outros artistas. Essa convivência com diferentes montagens também lhe ensinou uma das maiores lições da dramaturgia.
“Eu sou só o autor da peça. A matéria-prima de um espetáculo.”
Depois da estreia, cada diretor, cada elenco e cada produção passaram a construir um Fica Comigo Esta Noite diferente. Algumas versões o emocionaram profundamente. Outras o incomodaram. Houve montagens das quais saiu sem sequer esperar os aplausos. Com o tempo, aprendeu que essa é a natureza do teatro.
O espetáculo pertence aos artistas que o encenam. O texto permanece pertencendo ao autor. Talvez a revelação mais interessante de seu depoimento esteja na maneira como entende o próprio processo criativo.

Flavio acredita que existem dois modos de escrever. O primeiro é planejando tudo: pesquisando, estruturando, roteirizando. O segundo é partir apenas de uma situação inicial e deixar que os personagens conduzam a história. Segundo ele, Fica Comigo Esta Noite nasceu exatamente dessa segunda maneira.
Em determinado momento, diz o dramaturgo, os personagens simplesmente começaram a falar. A ele coube apenas registrar o que ouvia. É uma sensação que muitos escritores descrevem e que Flavio resume de forma simples: “Às vezes dá a impressão de que eles estão ditando e tudo o que a gente precisa fazer é obedecer.”
Quase quarenta anos depois da estreia, a peça continua sendo remontada, descoberta por novas gerações e emocionando plateias. Talvez porque, como o próprio autor percebeu ao longo do caminho, o espetáculo possa mudar inúmeras vezes. O texto, porém, continua vivo.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










