Com o prato feito custando R$ 31,90 em média, trabalhador que almoça fora durante 20 dias pode gastar R$ 638 por mês somente com a refeição
O salário não precisa diminuir no contracheque para parecer menor. Basta que o mesmo dinheiro passe a comprar menos.
É assim que a inflação chega à vida das pessoas: no carrinho do supermercado, na conta de casa e também na hora do almoço. Em sua coluna Tome Nota, no Jornal NovaBrasil, Heródoto Barbeiro chamou a atenção para uma cena cada vez mais comum nos locais de trabalho: pessoas levando marmita de casa para evitar o custo de comer diariamente em restaurantes.
A escolha tem uma explicação que cabe no bolso. O preço médio do prato feito chegou a R$ 31,90 no Brasil em junho de 2026, segundo o Índice Prato Feito, elaborado pelo Núcleo de Estudos Econômicos da Faculdade do Comércio de São Paulo (FAC-SP).
O valor representa uma alta de 7,2% em relação a janeiro, quando a refeição custava, em média, R$ 29,77. Na comparação com março, quando o preço estava em R$ 30,27, o aumento foi de 5,4%.
A conta do mês
Para quem almoça fora durante os 20 dias úteis do mês, o gasto pode chegar a:
R$ 31,90 × 20 refeições = R$ 638 por mês
O salário mínimo nacional em 2026 é de R$ 1.621. Isso significa que somente o prato principal do almoço pode consumir aproximadamente 39% do valor bruto recebido por um trabalhador que ganha um salário mínimo.
A conta não inclui bebida, sobremesa, café, transporte ou qualquer outra despesa feita ao longo do expediente.
Nos estabelecimentos em que o prato custa R$ 40, como lembrou Heródoto, 20 almoços representam R$ 800. É praticamente metade de um salário mínimo.
O preço muda conforme a região
O levantamento da FAC-SP mostra que o Brasil não almoça pelo mesmo preço. Em junho, o Sul apresentou o prato feito mais caro do país, seguido pelo Centro-Oeste:
- Sul: R$ 34,90
- Centro-Oeste: R$ 34,45
- Sudeste: R$ 31,99
- Nordeste: R$ 30,00
- Norte: R$ 29,99
A média nacional considera uma refeição composta por arroz, feijão, proteína, salada e guarnição. O estudo reuniu 887 preços pesquisados presencialmente e em aplicativos de entrega nas cinco regiões brasileiras.
Não são apenas os ingredientes
Quando o preço do prato feito aumenta, não significa necessariamente que somente o arroz, o feijão ou a carne ficaram mais caros.
O valor final também carrega os custos do aluguel do estabelecimento, energia elétrica, salários dos funcionários, transporte dos alimentos, embalagens, tributos, juros e manutenção do negócio. Toda essa estrutura acaba chegando à mesa do consumidor.
Os dados mais recentes do IBGE ajudam a mostrar essa diferença. Em julho, o IPCA registrou alta de apenas 0,07%, enquanto o grupo alimentação e bebidas apresentou queda de 0,67%. A alimentação fora de casa, porém, seguiu o caminho contrário e subiu 0,55% no mês.
Isso explica por que uma desaceleração da inflação geral nem sempre é percebida imediatamente por quem precisa comer fora todos os dias.
A inflação não pesa da mesma forma para todos
Quando o preço dos alimentos sobe, todo consumidor sente. Mas o impacto é maior entre as pessoas de menor renda, porque a alimentação ocupa uma parcela muito mais significativa do orçamento.
Por isso, levar comida de casa deixa de ser apenas uma preferência e se transforma em estratégia financeira. A marmita pode representar a diferença entre conseguir equilibrar as contas ou chegar ao fim do mês com o orçamento ainda mais apertado.
A inflação parece um assunto abstrato quando apresentada somente por meio de índices e percentuais. Mas, para milhões de brasileiros, ela aparece todos os dias ao meio-dia, na escolha entre pagar pelo prato feito ou abrir a marmita levada de casa.










