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História

IBM: a gigante que provou que sobreviver depende de saber se reinventar

Há empresas que se tornam famosas por um produto. Outras, por uma grande invenção. A IBM pertence a uma categoria ainda mais rara: a das empresas que conseguiram atravessar mais de um século permanecendo relevantes em um mercado que muda o tempo todo.

No episódio do NEH! Podcast, Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro revisitam a trajetória da companhia americana para mostrar que sua história vai muito além dos computadores. A IBM é um exemplo de como visão de futuro, capacidade de adaptação e disposição para mudar podem determinar a sobrevivência de uma organização.

Fundada em 1911, a empresa nasceu da união de quatro companhias especializadas em equipamentos de medição, registro e processamento de dados. Na época, ela ainda se chamava Computing-Tabulating-Recording Company (CTR). Somente em 1924 adotaria o nome International Business Machines, ou IBM, identidade que carregaria para se tornar uma das marcas mais conhecidas do mundo.

A origem da empresa ajuda a entender seu DNA. Muito antes de fabricar computadores, a IBM já buscava soluções para um desafio que se tornaria cada vez mais importante ao longo do século XX: organizar informações. Em uma época em que governos e grandes empresas cresciam rapidamente, administrar dados de forma eficiente passava a ser uma necessidade estratégica.

Durante o episódio, Heródoto Barbeiro lembra uma curiosidade histórica envolvendo Herman Hollerith, inventor das máquinas de cartões perfurados que deram origem a boa parte das tecnologias utilizadas pela empresa. Seu sobrenome acabou inspirando uma palavra que entrou para o vocabulário brasileiro: “holerite”, utilizada durante décadas como sinônimo de comprovante de pagamento. Assim como “Gillette” e “Melhoral”, o nome acabou ultrapassando sua origem e passou a designar um produto.

A conversa também contextualiza o momento histórico em que a IBM surgiu. No fim do século XIX, os Estados Unidos iniciavam sua expansão econômica enquanto as potências europeias disputavam mercados ao redor do mundo. Para crescer industrialmente, não bastava fabricar máquinas; era necessário criar sistemas capazes de administrar empresas cada vez mais complexas. Foi nesse cenário que a IBM encontrou espaço para desenvolver soluções que transformariam a gestão corporativa nas décadas seguintes.

Ao longo de sua história, a empresa passou por sucessivas reinvenções. Fabricou máquinas de escrever elétricas, dominou o mercado de grandes computadores corporativos, ajudou a popularizar o computador pessoal, investiu em servidores, software, consultoria, computação em nuvem e, mais recentemente, inteligência artificial. Poucas organizações conseguiram mudar tantas vezes sem perder relevância.

Heródoto destaca que talvez nenhuma outra marca americana represente tão bem essa capacidade de transformação. Enquanto empresas que pareciam inabaláveis desapareceram ou perderam protagonismo, a IBM soube abandonar modelos de negócio antes que eles se tornassem obsoletos. Sua permanência no mercado não aconteceu porque continuou fazendo as mesmas coisas, mas justamente porque nunca deixou de mudar.

O Brasil faz parte dessa história. Durante décadas, o prédio da IBM na Avenida 23 de Maio, em São Paulo, tornou-se um dos símbolos da presença da multinacional no país. Além disso, a companhia escolheu o Brasil para sediar um de seus laboratórios globais de pesquisa, demonstrando a importância estratégica do mercado brasileiro em sua operação internacional.

Entre os grandes marcos da empresa está o lançamento do System/360, em 1964. O projeto revolucionou a indústria ao criar uma arquitetura compatível entre diferentes computadores, permitindo que empresas evoluíssem seus sistemas sem precisar recomeçar do zero. Foi uma inovação que mudou definitivamente a forma como a computação corporativa era desenvolvida.

Anos mais tarde, em 1981, outro lançamento ajudaria a transformar o mercado: o IBM PC. O computador estabeleceu um padrão que seria seguido por praticamente toda a indústria e popularizou a sigla “PC”, utilizada até hoje para designar computadores pessoais. Mesmo quem nunca utilizou um equipamento da IBM convive diariamente com um legado deixado por ela.

Mas talvez o momento mais inspirador do episódio seja quando Fernando Vítolo relaciona a história da IBM ao filme Estrelas Além do Tempo. O longa retrata o trabalho de matemáticas negras na NASA durante os anos 1960, período em que a agência espacial adquiriu um computador da IBM para automatizar cálculos que antes eram realizados manualmente.

Diante da chegada da nova tecnologia, muitas pessoas enxergaram apenas uma ameaça aos seus empregos. Uma das líderes da equipe, porém, teve uma atitude diferente. Percebendo que a mudança era inevitável, buscou aprender programação antes mesmo da instalação da máquina. Depois compartilhou esse conhecimento com todas as mulheres de seu departamento, transformando uma equipe que poderia ser substituída pela tecnologia em um grupo indispensável para operá-la.

A história serve como ponto de partida para uma reflexão proposta pelos apresentadores. Em diferentes momentos da história, a reação diante da inovação costuma dividir pessoas e empresas em dois grupos: aquelas que resistem às mudanças e aquelas que procuram entendê-las.

Heródoto lembra o exemplo dos luditas, trabalhadores ingleses que, durante a Revolução Industrial, destruíam máquinas acreditando que elas eram responsáveis pela perda de empregos. A tecnologia, porém, continuou avançando. O mercado mudou independentemente da resistência daqueles profissionais.

Hoje, diante da inteligência artificial e da automação, o cenário apresenta semelhanças. Novas ferramentas continuam surgindo, transformando profissões e criando desafios inéditos. A grande diferença continua sendo a postura adotada diante dessas mudanças.

Em 2011, quando completou cem anos, a IBM apresentou o Watson, plataforma de computação cognitiva capaz de compreender linguagem natural, aprender continuamente e gerar respostas a partir das informações que recebe. Na época, parecia um vislumbre distante do futuro. Poucos anos depois, ferramentas baseadas em inteligência artificial passaram a fazer parte da rotina de empresas e consumidores em todo o mundo.

Essa trajetória mostra que o verdadeiro produto da IBM nunca foi apenas hardware. Ao longo de mais de um século, a empresa vendeu diferentes tecnologias, mas sempre teve como propósito encontrar novas formas de organizar, interpretar e transformar informação em conhecimento.

Ao final do episódio, Fernando Vítolo e Heródoto Barbeiro chegam a uma conclusão que ultrapassa a história da companhia americana. Em um mercado em constante transformação, empresas e profissionais precisam desenvolver a mesma capacidade de adaptação. O conhecimento envelhece rapidamente, tecnologias deixam de ser novidade em poucos anos e modelos de negócio podem desaparecer quase da noite para o dia.

A história da IBM demonstra que longevidade não é consequência de permanecer igual. Pelo contrário. Permanecer relevante exige disposição para questionar o próprio sucesso, abandonar velhas fórmulas e aprender continuamente. Em um mundo onde a mudança deixou de ser exceção para se tornar regra, talvez essa seja a principal lição deixada por uma empresa que atravessou mais de um século sem perder sua capacidade de inovar.

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