Microfone Imaginário

O Cambuci das noites de crime agora reza pelo Haiti

“Luzes do Cambuci pelas noites de crime!” A frase de Mário de Andrade, inicia o poema “Noturno”, presente no livro Pauliceia Desvairada, de 1922.

Mário descreve uma noite de calor a combinar com o clima sufocante, da falta de segurança em um bairro da metrópole em transformação no século 20.

Permanecem no Cambuci algumas características daqueles tempos de antanho, em especial na Rua do Lavapés.

Ficaram alguns sobrados e residências humildes na parte baixa do bairro, ainda visitado pelas enchentes, especialmente na “Região do Glicério”.

No Cambuci, os bondes que gingavam e sapateavam nos trilhos como fogos de artifício, descritos por Mário, não existem mais. Foram embora faz tempo.

Os riscos com a falta de segurança ainda existem, ladrões se misturam aos pobres nos baixos dos viadutos, o Cambuci virou refúgio dos desvalidos.

Convivem no bairro pessoas em busca de oportunidades, são venezuelanos, haitianos e brasileiros sem moradias, muitos se abrigam debaixo dos viadutos.

Além de Mário, um outro poeta de Sampa, Caetano Veloso, pediu em uma canção: “Pensem no Haiti, rezem pelo Haiti”.

“O Haiti, é aqui”, conclui Caetano. Para conhecer um pedaço desse país, basta seguir para o Cambuci na direção da Igreja Nossa Senhora da Paz.

Lá funciona o maior centro de acolhimento a refugiados do país, mas ainda assim faltam lugares para se atender a todos.

Um ponto triste da degradação paulistana, onde famílias inteiras são vistas vivendo sob as marquises dos viadutos, está nesta área.

Ainda assim essas pessoas costumam dar graças da Deus. Ah! Se não houvesse as lajes asfaltadas que servem de passarela aos automóveis!

Onde estariam essas pessoas que dormem e passam o tempo debaixo dos viadutos? Por que preferem ficar em vez de retornar a seus lugares de origem?

É que na metrópole existe a chance de se obter uma oportunidade e assim, pais, mães e seus filhos permanecem debaixo das pontes.

Rica e pujante, ao mesmo tempo pobre, desumana e preconceituosa, São Paulo segue o destino de ser a metrópole das contradições.

O Haiti, é aqui!

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.