Minha mãe estava hospitalizada, já aos 96 anos.
Perguntei à prima responsável pelo túmulo da família sobre espaço.
Ela, sempre muito prática, respondeu:
— Não se preocupe. Com a retirada das ossaturas, ali há espaço para todas nós.
Ainda eram comuns os velórios, embora já não fossem necessariamente a noite toda. Quando minha mãe morreu, meu marido e eu aceitamos ficar no local das dez da noite às sete da manhã, para não ferir as normas.
Depois, fui a velórios de duas horas de duração. Acompanhei cremações.
Os rituais mudaram.
A dor, não.
Em todos os casos, havia alguém que tinha morrido e pessoas que precisavam se despedir.
O ritual da despedida é importante para o luto.
Não porque diminua a dor.
Mas porque torna a morte concreta. Reúne os vivos. Permite ver o corpo, quando ele está presente.
Ouvir histórias. Chorar. Abraçar. Ficar em silêncio.
Depois, cada um volta para casa com a ausência.
Não há uma forma única de se despedir. Os costumes mudam, as famílias mudam, as circunstâncias mudam.
Mas continuamos precisando de algum modo de reconhecer a morte.
Em Antígona, Sófocles, há milênios, já colocava essa questão: uma mulher enfrenta o poder para dar sepultura ao irmão.
A questão permanece.
Famílias de desaparecidos da ditadura ainda lutam para saber o que aconteceu com seus entes queridos.
Em desastres, famílias podem esperar pela localização e identificação dos corpos.
Há também mortos que, por diferentes circunstâncias, não chegam a ser encontrados ou identificados.
Nessas situações, a ausência ganha outra dimensão. Não há corpo para velar, túmulo para visitar, lugar onde depositar flores ou onde permanecer em silêncio.
Saber onde estão nossos mortos e poder nos despedir deles faz parte da condição humana.
Negar isso é também negar algo da nossa própria humanidade.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









