Inspirada no filme O Ditador, de 2012, a sátira acompanha um candidato à Presidência que elogia personagens da ditadura militar, relativiza a violência de agentes do Estado, questiona urnas eletrônicas e promete mudar a Constituição. Tudo isso enquanto garante que a democracia estará protegida.
NOTA DO AUTOR: Calma! Antes de me chamar de comunista, petista ou infiltrado do governo, saiba que Lula também está em cartaz na nossa outra produção: O Presidente que Sabia de Menos. Portanto, se você ficou incomodado com Flávio Bolsonaro montado em um camelo, recomendo assistir à outra sessão. Lá, o protagonista parece descobrir o roteiro depois de todo mundo. Aqui, o humor não tem partido, e político de estimação não ganha imunidade. Nem meia-entrada.
Confira também: O Presidente que Sabia de Menos, estrelado por Lula.
Em 2012, Sacha Baron Cohen levou aos cinemas O Ditador (The Dictator), uma comédia sobre o almirante-general Aladeen, governante absoluto da fictícia República de Wadiya. Acostumado a controlar tudo e todos, o personagem viaja aos Estados Unidos e acaba tendo contato com uma realidade bastante inconveniente para quem concentra tanto poder: a democracia.
Quatorze anos depois, o Brasil ganha uma adaptação imaginária que promete dispensar boa parte do trabalho dos roteiristas. Estreia em 2026 O Ditador, uma comédia política estrelada por Flávio Bolsonaro, senador da República e candidato à Presidência, que tenta convencer os brasileiros de que representa uma versão mais moderada do bolsonarismo.
A sinopse acompanha um político que cresceu vendo o pai defender a ditadura militar e que, ao longo da carreira, também fez declarações favoráveis a personagens e práticas daquele período. Agora, diante da possibilidade de assumir a Presidência, precisa conquistar eleitores preocupados justamente com o respeito à democracia.
O desafio seria suficiente para sustentar um filme inteiro. Mas o roteiro ainda reserva algumas surpresas.
A primeira cena acontece em 2007, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, discursa sobre as milícias que atuavam nas comunidades cariocas. Na tribuna, argumenta que esses grupos não deveriam ser simplesmente estigmatizados e destaca supostos benefícios proporcionados à população.
Em sua fala, registrada nos arquivos oficiais da Alerj, chega a apresentar as milícias como grupos de policiais que buscariam combater criminosos e garantir segurança onde o Estado falhava. Também critica organizações de direitos humanos, acusando-as de se beneficiarem da permanência da violência nas comunidades.
O diretor poderia aproveitar o momento para incluir uma cena em que moradores recebem a visita de homens armados oferecendo segurança mediante pagamento. No roteiro, a dúvida seria quem fiscaliza os responsáveis por esse serviço. Afinal, quando grupos armados assumem o controle de um território, os moradores costumam ter pouca liberdade para escolher quem manda.
Anos depois, Flávio esclareceria que não apoiava milícias criminosas e que pretendia defender policiais que protegiam suas comunidades. A explicação consta do material de divulgação da produção. Sua fala de 2007, porém, continua disponível nos arquivos da Assembleia.
É importante registrar que o discurso não comprova participação de Flávio em atividades criminosas. O próprio Tribunal Superior Eleitoral, em outubro de 2026, determinou a suspensão de uma propaganda que o associava a milícias sem apresentar provas suficientes dessa ligação.
O roteiro, portanto, trabalha com as declarações públicas do personagem. E há bastante material.
A história avança para 2017, quando Flávio publica uma biografia do pai, Jair Bolsonaro. É nessa parte que o filme começa a revelar de onde vieram algumas das ideias de seu protagonista.
Na obra, Flávio questiona a existência do golpe militar de 1964 e relativiza o caráter ditatorial do regime que governou o Brasil até 1985. Também afirma que militares daquele período deveriam receber reconhecimento por terem impedido a implantação de uma ditadura socialista.
O personagem parece ter uma relação complicada com a palavra ditadura. Dependendo de quem ocupa o poder, a definição muda bastante.
A sequência fica ainda mais curiosa quando surge o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão política durante o regime militar e reconhecido judicialmente como torturador.
No livro, Flávio descreve Ustra como “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.
É o tipo de declaração que um roteirista provavelmente guardaria para apresentar o passado controverso de um personagem. Mas, na adaptação brasileira, a frase foi escrita pelo próprio protagonista.
O roteiro também aborda o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando uma intervenção da Polícia Militar deixou 111 presos mortos. Na biografia, Flávio defende que os policiais envolvidos agiram em legítima defesa e utiliza a periculosidade de parte dos detentos para justificar sua posição.
A cena provoca uma questão que acompanha o filme: qual deve ser o limite da força do Estado? O personagem costuma valorizar a autoridade policial e a punição de criminosos. A preocupação dos críticos está justamente na maneira como ele interpreta episódios de violência estatal.
Afinal, a defesa da segurança pública é uma atribuição legítima de qualquer governante. Já o respeito à vida e aos direitos fundamentais precisa acompanhar essa defesa, inclusive quando o Estado atua contra pessoas acusadas ou condenadas por crimes.
O cinema costuma apresentar ditadores como personagens que enxergam a força como solução para praticamente tudo. A história de Flávio oferece material para discutir essa preferência política sem precisar recorrer a cenas inventadas.
A produção então avança para julho de 2026, quando o protagonista decide reunir diplomatas estrangeiros para falar sobre o sistema eleitoral brasileiro.
Durante o encontro, Flávio associa as urnas utilizadas no Brasil à empresa venezuelana Smartmatic. O problema é que a informação está errada. O Tribunal Superior Eleitoral esclarece que a empresa não fornece as urnas eletrônicas brasileiras nem desenvolve seus programas.
A cena lembra episódios protagonizados por Jair Bolsonaro, que também questionou o sistema eleitoral perante representantes estrangeiros.
Flávio, posteriormente, afirma que não pretendia colocar em dúvida a legitimidade da votação brasileira e defende a presença de observadores internacionais.
A explicação oferece uma situação interessante para a comédia: um candidato apresenta informações falsas sobre as urnas, o tribunal responsável pelas eleições precisa corrigi-las e, em seguida, o próprio candidato assegura que confia no processo.
Na versão de Hollywood, Aladeen provavelmente tentaria resolver a questão escolhendo pessoalmente quem contaria os votos.
Na versão brasileira, as urnas continuam funcionando sob a responsabilidade da Justiça Eleitoral. O espetáculo acontece na disputa pelas informações a respeito delas.
Mas é em outubro de 2026 que O Ditador entrega suas sequências mais recentes.
Durante a campanha presidencial, Flávio anuncia que pretende utilizar a força política de uma maioria de direita no Congresso para promover mudanças na Constituição e, segundo suas próprias palavras, “redemocratizar o país”.
Em 7 de outubro, explica que suas propostas incluem reforma do Judiciário, redução da maioridade penal, mudanças tributárias e fim da reeleição presidencial. Também deixa em aberto a possibilidade de ampliar o mandato presidencial de quatro para cinco anos, caso o Congresso aprove essa alteração.
Aqui, o público precisa prestar atenção aos detalhes. Reformar a Constituição por meio de emendas aprovadas pelo Congresso faz parte do funcionamento normal de uma democracia. O procedimento exige votação em dois turnos nas duas Casas e aprovação de três quintos dos parlamentares.
A dúvida está nos efeitos concretos das mudanças propostas, sobretudo quando envolvem o funcionamento do Judiciário e os mecanismos de controle do poder político.
No filme, essa discussão renderia uma cena em que o protagonista recebe um exemplar da Constituição e começa a explicar quais partes pretende modificar.
Um assessor pergunta quais serão os limites das reformas. Flávio, na versão fictícia, responde que tudo será feito dentro da lei. O assessor olha novamente para o documento. A câmera corta antes que alguém pergunte quais leis serão alteradas primeiro.
A sequência utiliza uma tensão que aparece nas declarações públicas do candidato: Flávio afirma que o Brasil não vive uma democracia plena e defende mudanças institucionais para corrigir o que considera problemas do sistema. Ao mesmo tempo, promete respeitar a Constituição e preservar a segurança jurídica.
O desfecho dependeria das propostas efetivamente aprovadas e de sua aplicação. Até agora, não há prova de que Flávio pretenda abolir eleições ou fechar o Congresso.
A comédia, porém, ganha seu momento visual mais curioso poucos dias depois.
Em 8 de outubro, um canal oficial do Partido Liberal no WhatsApp publica uma imagem de campanha com o rosto de Flávio Bolsonaro acompanhado da expressão “Tropa do Flávio”. A composição remete à propaganda fascista utilizada na Itália de Benito Mussolini, especificamente a uma imagem histórica do Palazzo Braschi, em Roma, durante o regime fascista.
Sim, Mussolini.
O homem que governou a Itália sob uma ditadura aparece como referência visual involuntária — segundo a explicação do partido — em uma campanha que busca convencer os eleitores de seu compromisso com a democracia.
A repercussão leva à retirada da imagem. A ala jovem do PL afirma que a peça havia sido inspirada em elementos gráficos antigos, nega qualquer intenção de fazer referência ao ditador italiano e pede desculpas.
Os responsáveis pelo filme provavelmente dispensariam qualquer tentativa de reproduzir a cena. O material original já apresenta uma composição que Sacha Baron Cohen poderia utilizar na divulgação de O Ditador sem grandes adaptações.
A ironia aumenta quando lembramos que a candidatura tenta afastar a imagem de autoritarismo associada por críticos ao bolsonarismo.
Em Hollywood, um personagem que deseja convencer o público de suas credenciais democráticas provavelmente evitaria referências estéticas a Mussolini. Na versão brasileira, a imagem foi publicada pelo próprio partido e precisou ser retirada depois da repercussão.
Mas os roteiristas ainda guardavam uma sequência para 15 de outubro, quando a campanha de Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra 48 perfis do Instagram que publicavam conteúdos favoráveis a Lula ou críticos ao candidato do PL.
A ação solicitou a suspensão temporária de 32 contas até depois do segundo turno, a retirada de 221 publicações e outras medidas envolvendo os demais perfis, entre eles páginas de esquerda, parlamentares e o Mídia Ninja.
A campanha alegou que existia uma atuação coordenada para divulgar informações falsas ou descontextualizadas sobre Flávio. Seus advogados sustentaram que a iniciativa buscava combater desinformação e não representava censura.
O corregedor eleitoral Ricardo Villas Bôas Cueva pediu esclarecimentos sobre as condutas atribuídas a cada perfil antes de decidir sobre os pedidos.
É uma cena que combina perfeitamente com o roteiro: o candidato que promete defender as liberdades pede à Justiça Eleitoral restrições sobre dezenas de contas que participam do debate político.
Evidentemente, o direito de buscar reparação judicial contra desinformação também pertence a candidatos e cidadãos. Durante as eleições de 2026, as campanhas de Lula e Flávio recorreram inúmeras vezes ao TSE para pedir a retirada de conteúdos. O tribunal também determinou a remoção de publicações feitas pelas duas campanhas.
A questão levantada pela sátira está na amplitude dos pedidos e no equilíbrio entre o combate a informações falsas e a proteção da liberdade de expressão.
No cinema, Aladeen resolveria o problema com uma ordem direta aos seus subordinados. No Brasil, Flávio depende de decisões judiciais, que podem acolher ou rejeitar seus argumentos.
A diferença institucional é importante. E também explica por que o título da produção funciona como uma provocação política, sem representar uma descrição literal da condição do candidato.
O filme reserva ainda uma reviravolta interessante. Em 14 de outubro de 2026, durante um comício em Porto Alegre, Flávio afirma que governará para todos os brasileiros, inclusive para os eleitores do PT, e garante que a democracia estará protegida caso seja eleito.
“Vou governar até para petistas; eles verão que, com Bolsonaro, a democracia está garantida.”
A declaração apresenta uma faceta diferente do protagonista. Durante a campanha, Flávio procura transmitir uma imagem de moderação, pacificação e respeito às instituições. Afirma que pretende olhar para a frente e evitar conflitos políticos permanentes.
O público, que acompanhou as cenas anteriores, fica encarregado de avaliar a distância entre algumas posições históricas do candidato e suas promessas mais recentes.
Afinal, a trajetória de um político pode incluir mudanças de opinião. Resta saber quais posições permaneceriam caso ele chegasse ao Palácio do Planalto.
O elenco de apoio também merece atenção. Jair Bolsonaro ocupa um papel central na história, mesmo sem aparecer em todas as cenas. Ex-presidente da República e pai do protagonista, ele construiu uma carreira marcada por elogios ao regime militar e por conflitos com instituições democráticas. Em 2025, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Flávio procura herdar o eleitorado e o capital político do pai, apresentando-se como alguém capaz de conduzir esse movimento com menos confrontos.
O desafio dramático está justamente nessa herança. O personagem precisa preservar a identidade política que o levou à candidatura enquanto tenta convencer outros setores da sociedade de que respeitará as regras democráticas.
É uma tarefa complexa, especialmente quando declarações antigas reaparecem, propostas constitucionais geram dúvidas e peças publicitárias provocam comparações históricas pouco convenientes.
No filme de Sacha Baron Cohen, o almirante-general Aladeen precisa enfrentar o desconforto de viver em uma sociedade na qual não pode simplesmente ordenar tudo o que deseja.
Na versão brasileira, o protagonista disputa uma eleição em um país onde Congresso, Judiciário, imprensa e sociedade civil têm poderes e garantias próprios.
Caso Flávio seja eleito, terá de conviver com esses limites. Suas promessas democráticas poderão ser avaliadas pelos atos de governo, pelas reformas que apresentar e pela maneira como reagir às críticas e às decisões institucionais contrárias aos seus interesses.
A produção termina sem revelar o resultado dessa experiência. Afinal, o segundo turno das eleições presidenciais está marcado para 25 de outubro de 2026.
Mas o diretor aproveita os créditos finais para deixar uma pergunta.
Se um candidato elogia personagens de um regime autoritário, relativiza episódios de violência estatal, divulga informações falsas sobre urnas eletrônicas e propõe mudanças nas estruturas de poder, até que ponto suas declarações recentes de compromisso com a democracia são suficientes para tranquilizar os eleitores?
A resposta exige observar suas propostas, suas ações e os limites que está disposto a respeitar.
Talvez o personagem de Sacha Baron Cohen encontrasse dificuldades para compreender esse debate. Em Wadiya, ele estava acostumado a decidir tudo sozinho.
Flávio Bolsonaro, por enquanto, depende do voto dos brasileiros.
E essa é uma diferença que o eleitor tem o direito de preservar.
O Ditador. Estreia fictícia de 2026. Inspirado em declarações reais. Com um protagonista que promete garantir a democracia enquanto carrega uma biografia política repleta de elogios a personagens que governaram sem ela.
Ficha técnica da paródia
Título: O Ditador
Ano: 2026
Gênero: Comédia política e sátira eleitoral
Inspirado em: O Ditador (2012), estrelado por Sacha Baron Cohen
Protagonista: Flávio Bolsonaro
Participação especial: Jair Bolsonaro
Elenco de apoio: Dirigentes partidários, parlamentares, autoridades eleitorais e assessores de campanha
Locações: Brasília, Rio de Janeiro e campanhas eleitorais pelo Brasil
Classificação indicativa fictícia: Recomendado para eleitores que conhecem a história do Brasil.
Duração: Uma campanha eleitoral com antecedentes que remontam à ditadura militar.
Continuação: Depende do resultado das urnas em 25 de outubro de 2026.
Fontes que inspiraram o roteiro
- Paramount Pictures — The Dictator (2012): sinopse oficial
- Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro — Registro do discurso de Flávio Bolsonaro sobre milícias, em 2007
- Folha de S.Paulo — Flávio nega golpe militar, elogia Ustra e questiona urnas em livro
- Agência Brasil — TSE esclarece informação falsa sobre a Smartmatic e urnas brasileiras
- Folha de S.Paulo — Flávio propõe mudanças na Constituição e admite discutir mandato de cinco anos
- UOL — Grupo oficial do PL publica imagem de Flávio com referência visual a Mussolini
- Folha de S.Paulo — Campanha de Flávio pede medidas contra 48 perfis no Instagram
- UOL/Estadão — Flávio promete governar para petistas e garantir a democracia
- UOL — TSE suspende propaganda que associava Flávio a milícias sem provas
Nota editorial
Este texto é uma sátira política apresentada como crítica de um filme fictício, inspirada na comédia O Ditador (2012), estrelada por Sacha Baron Cohen. A obra cinematográfica atribuída a Flávio Bolsonaro, sua estreia em 2026 e os diálogos imaginados são elementos de ficção. As declarações, os acontecimentos políticos e as propostas mencionadas foram baseados em registros públicos e reportagens jornalísticas.
A utilização do título O Ditador constitui uma referência humorística e crítica às posições históricas do candidato sobre a ditadura militar, violência estatal, sistema eleitoral e instituições democráticas. O texto não afirma como fato que Flávio Bolsonaro seja um ditador, participe de organizações criminosas ou tenha um plano comprovado para instaurar um regime autoritário. Também registra suas declarações públicas de compromisso com a Constituição, a democracia e o respeito aos adversários políticos.
A sátira utiliza fatos documentados como matéria-prima e preserva a distinção entre registros históricos, interpretações políticas e situações fictícias.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










