Mudança para Cuba, elefante de inteligência artificial e decisões judiciais imaginárias: oito boatos sobre cada candidato mostram que a criatividade está em campanha. A verdade tenta acompanhar.
A eleição brasileira tem debate, pesquisa, entrevista e uma modalidade extracurricular: a ficção distribuída com a palavra URGENTE. Nela, ninguém precisa apresentar documento. Uma foto, uma legenda indignada e três sirenes vermelhas já fazem as vezes de investigação.
Selecionamos oito conteúdos falsos ou manipulados sobre Lula e oito sobre Flávio Bolsonaro, verificados por Aos Fatos e Lupa e que circularam no contexto eleitoral de 2026. Há invenções recentes e boatos antigos reaproveitados. Afinal, para que fabricar uma mentira nova se a antiga ainda dá engajamento?
As “melhores” do título são, evidentemente, as piores para quem quer se informar. A quantidade igual é uma escolha desta seleção, não uma conclusão de que os dois campos políticos produzem o mesmo volume de desinformação. Esta matéria também não atribui a criação dos conteúdos aos candidatos ou a seus partidos.
E não promete reunir todas as fake news da eleição. Seria bastante otimismo acreditar que a produção esperaria a reportagem terminar.
Oito fake news sobre Lula
1. A mudança para Cuba que ninguém combinou com o passageiro
É falso que Lula tenha prometido se mudar para Cuba se Flávio vencer. Aos Fatos não encontrou registro da declaração atribuída ao presidente, e o Planalto negou a fala.
A internet resolveu acumular as funções de analista político, corretora de imóveis e agência de viagens. Só faltou perguntar ao suposto passageiro se ele pretendia embarcar.
Checagem: Aos Fatos, 24/04/2026.
2. A bandeira que caiu apenas na legenda
Lula não jogou a bandeira do Brasil no chão após votar. Segundo a Lupa, as imagens mostram que ele e Alckmin posaram com o símbolo nacional e depois o entregaram ao fotógrafo Ricardo Stuckert.
Na versão do boato, entregar um objeto a outra pessoa virou um atentado patriótico. O próximo passo é investigar quem passou o saleiro sem cantar o Hino Nacional.
3. O corte de vídeo que cortou justamente o sentido
É enganoso apresentar a fala sobre perder o interesse pelos pobres depois da eleição como uma confissão de Lula. Na entrevista original, ele criticava a maneira como outros políticos tratavam essa população. O recorte mudou o sentido, como explicou a Lupa.
É uma edição muito eficiente: você remove o contexto e economiza também o trabalho de discutir o que a pessoa realmente disse.
4. A crítica de Xuxa que trocaram de endereço
O vídeo usado para dizer que Xuxa criticou Lula por uma declaração sobre saúde das mulheres foi editado. A gravação original era de 2022 e tinha Jair Bolsonaro como alvo, segundo a Lupa.
Reciclagem é importante. Mas pegar uma crítica antiga, trocar o destinatário e apresentar como novidade já é um serviço de redirecionamento de indignação.
5. A torcida que foi ao estádio e acabou escalada para um protesto
O vídeo de flamenguistas apresentado como protesto contra Lula pela proibição das bets não mostrava essa manifestação. A Lupa identificou imagens de agosto de 2026, relacionadas ao retorno da Torcida Jovem Fla ao Maracanã.
O torcedor sai de casa para acompanhar o Flamengo e descobre que uma legenda o nomeou representante de uma causa. Nem convocação da seleção é tão inesperada.
6. A inelegibilidade decretada pelo tribunal do vídeo curto
É falso que André Mendonça tenha declarado Lula inelegível, como afirmava um vídeo de setembro. A Lupa consultou o registro da candidatura e recebeu do TSE a confirmação de que a informação era falsa. A checagem também identificou indícios de áudio gerado por IA.
Uma decisão judicial sem decisão judicial: a burocracia finalmente foi abolida. Pelo menos no vídeo.
7. A conta de viagens em que coube um governo inteiro
É falso atribuir R$ 7,35 bilhões exclusivamente a viagens de Lula com Janja. A Lupa mostrou que a alegação confundia despesas de viagens de toda a estrutura federal com gastos do casal. A agência encontrou cerca de R$ 7,14 bilhões para o conjunto do governo entre 2023 e 2025.
Fiscalizar gasto público é necessário. Colocar um governo inteiro dentro de uma mala de casal é uma técnica contábil bastante peculiar.
8. O Zico que entrou em campo por inteligência artificial
É falsa a imagem de Zico segurando uma faixa contra Lula. A Lupa identificou manipulação por IA; o conteúdo original mostrava o ex-jogador apontando para o símbolo do Flamengo em uma camiseta.
Já não basta escalar o jogador sem consultar o técnico. Agora escalam sem consultar o próprio jogador — e ainda inventam o uniforme.
Oito fake news sobre Flávio Bolsonaro
1. O salário mínimo abolido por uma capa falsa
É falso que Flávio tenha anunciado o fim do salário mínimo no conteúdo atribuído ao InfoMoney. Aos Fatos identificou uma falsa capa e não encontrou a suposta declaração nos registros consultados.
A publicação resolveu eliminar o salário mínimo antes mesmo de resolver uma questão básica: a existência da entrevista.
Checagem: Aos Fatos, 17/03/2026.
2. A privatização do SUS anunciada por uma frase inventada
É falsa a declaração atribuída a Flávio de que privatizaria o SUS ao assumir a Presidência. Aos Fatos mostrou que o conteúdo inventava uma fala e distorcia informações sobre uma proposta para a saúde. A reportagem citada pelo boato não anunciava a privatização do sistema.
Para avaliar uma proposta de saúde, é preciso ler. Para fabricar uma, aparentemente basta abrir a caixa de texto.
Checagem: Aos Fatos, publicada em 13/04/2026 e atualizada em outubro.
3. O Farmácia Popular fechado pela farmácia de boatos
Flávio não fez o anúncio de encerramento do Farmácia Popular que lhe foi atribuído nas redes. Aos Fatos não encontrou a declaração, e a campanha negou sua autoria. A checagem distingue essa frase inventada do histórico real de propostas de cortes no programa durante o governo Jair Bolsonaro.
O boato oferece indignação sem receita. A contraindicação aparece quando alguém procura a entrevista original.
Checagem: Aos Fatos, 08/10/2026.
4. A entrevista trabalhista dublada pela inteligência artificial
É manipulado o vídeo em que Flávio aparece defendendo uma escolha entre emprego e direitos trabalhistas. Aos Fatos localizou a gravação original, sobre outro assunto, e identificou a inserção de áudio falso com recursos de IA.
O candidato compareceu com a imagem. O texto e a voz ficaram por conta de quem montou a cena. Uma entrevista em que o entrevistado é o último a saber o que respondeu.
Checagem: Aos Fatos, 04/10/2026.
5. O FBI convocado para um roteiro sem provas
É falso o conteúdo que anunciava um pedido do FBI para prender Flávio por suposta ligação com facções. A Lupa não encontrou registros que sustentassem a alegação, também negada pela assessoria do senador.
Acrescentar “FBI” parece ser o modo de dar orçamento de Hollywood a um boato. Continuam faltando documentos, mas a trilha sonora já pode começar.
6. A candidatura cancelada sem avisar à Justiça Eleitoral
Era falso o vídeo que, em setembro, dizia que Flávio estava fora da eleição. A Lupa verificou que o registro da candidatura havia sido aprovado pelo TSE e permanecia ativo.
Assim como no boato envolvendo Lula, bastou um vídeo para alguém achar que podia atualizar a lista de candidatos. O tribunal virou um detalhe administrativo.
7. O elefante que a IA colocou na campanha
É falsa a imagem de Flávio com uma arma ao lado de um elefante abatido. A Lupa mostrou que a foto foi criada com IA e inserida em uma reprodução adulterada de reportagem da revista Piauí. Havia uma reportagem real sobre a viagem; aquela fotografia não fazia parte dela.
A mentira pegou carona numa notícia verdadeira e levou um elefante de bagagem. Discrição nunca foi uma exigência do gênero.
8. A camiseta estampada pela confecção da mentira
É adulterada a foto de Flávio usando uma camiseta com mensagem ofensiva aos nordestinos. A Lupa localizou o registro original, de 2016, no qual ele vestia uma camiseta azul com adesivo partidário. A montagem já circulava em 2018 e reapareceu em 2026.
É a moda circular: a mesma mentira atravessa eleições, muda de postagem e volta como lançamento.
A única unanimidade deveria ser conferir
É possível criticar Lula e Flávio Bolsonaro por declarações, propostas e decisões reais. Material inventado só atrapalha a discussão — e ainda faz o leitor trabalhar de graça para quem fabricou a história.
Antes de encaminhar a próxima bomba, vale procurar a fonte, a data e o vídeo completo. Se a informação depende de você não conferir nada para continuar convincente, ela já está pedindo um favor grande demais.
Seu candidato pode ter o seu voto. Não precisa ter também a sua senha do senso crítico.
Seleção editorial baseada em checagens consultadas em 16 de outubro de 2026. Os comentários humorísticos são desta matéria; as verificações factuais estão vinculadas em cada item. A lista não é exaustiva e não estabelece autoria dos boatos









