O café que ensina paciência: a história de um produtor que transformou dedicação em excelência
Quando as pessoas pensam em café especial, normalmente imaginam aromas sofisticados, notas sensoriais complexas e premiações internacionais. Poucos imaginam que por trás de cada xícara existe uma rotina construída ao longo de gerações, marcada por escolhas difíceis, experimentos arriscados, decepções, aprendizado e, principalmente, paciência.
É exatamente essa história que encontramos no Sítio Três Barras, em Simonésia, na região das Matas de Minas, onde o produtor Horácio Antônio de Moura cultiva cafés especiais desde 2003.
A propriedade está na família há seis gerações. Tudo começou quando seu bisavô, Luiz Amorim, chegou às terras, desbravou a região e plantou os primeiros cafezais. Naquela época, o café era lavado em um moinho de pedra, uma lembrança que Horácio guarda da infância. Hoje, a tradição familiar convive com técnicas modernas de processamento, secagem e armazenamento que ajudaram a transformar o sítio em uma referência na produção de cafés especiais.
O reconhecimento veio em forma de importantes conquistas, entre elas o segundo lugar no Cup of Excellence 2023, uma das mais respeitadas premiações da cafeicultura mundial.
Mas o que chama atenção não é apenas a qualidade do café. É a forma como Horácio encara sua profissão. Questionado se se considera mais agricultor ou artista, ele responde sem hesitar:
“Sou agricultor.”
A simplicidade da resposta contrasta com o nível de dedicação exigido para produzir cafés capazes de conquistar consumidores em diferentes partes do mundo. Somente neste ano, as 850 sacas comercializadas pelo produtor representam cerca de 3,4 milhões de xícaras consumidas globalmente.
E a procura é tão grande que aproximadamente 65% da produção já está comprometida antes mesmo da colheita.Mesmo assim, Hor ácio já recusou vendas.
“Sim. Por serem concorrentes próximos.”
A resposta mostra que, em um mercado altamente competitivo, estratégia e posicionamento também fazem parte do negócio.
O sabor que virou assinatura
Todo produtor sonha em criar algo único. No caso de Horácio, ele acredita ter conseguido. Segundo ele, existe um perfil que os consumidores reconhecem imediatamente em seus cafés: o clássico sabor de melaço de cana.
É uma espécie de assinatura sensorial construída ao longo dos anos, resultado de conhecimento técnico, observação constante e muito aprendizado. Mas nem sempre os experimentos terminam bem.
Ao longo da trajetória, ele já tentou diversas abordagens para buscar resultados diferentes. Uma das mais curiosas foi levar um lote de café para uma caverna existente dentro da própria propriedade. Por outro lado, algumas tentativas acabaram se transformando em lições.
“Fermentação por temperatura. Deu completamente errado.”
Para quem produz café especial, errar faz parte do processo. E talvez seja justamente isso que diferencia os melhores produtores: a capacidade de aprender com os fracassos.
A dedicação por trás de cada xícara
Quando perguntado sobre quanto trabalho existe por trás de uma simples xícara de café, Horácio faz uma correção interessante.
“Nem diria trabalho, e sim dedicação diária para se obter a xícara perfeita.”
A frase ajuda a entender por que tantos produtores tratam o café quase como uma missão de vida. Essa dedicação, no entanto, não elimina os momentos difíceis. Horácio admite que já pensou em desistir.
“Sim, mas é um momento que passa rápido.”
E o motivo para continuar é simples:
“O amor pela profissão.”
O café ensina mais do que produzir café
Ao longo dos anos, a cafeicultura também se transformou em uma escola de vida. Entre os ensinamentos herdados das gerações anteriores, Horácio destaca um princípio que considera inegociável:
“Não fazer algo errado e sempre levar a verdade.”
A paciência é outra lição que o café ensinou.
“É fundamental tê-la, ou então desista logo.”
Na lavoura, algumas decisões podem levar anos para mostrar seus resultados. Segundo ele, uma das mais importantes é a escolha da variedade correta de café. Já sobre o eterno debate entre técnica e talento, sua visão é equilibrada.
“Muitas coisas caminham juntas. Se não tiver disposição para ouvir e estudar, fica difícil.”
O valor das dificuldades
Talvez uma das respostas mais interessantes da entrevista tenha surgido ao falar sobre as diferenças entre uma safra boa e uma safra ruim. Para Horácio, os momentos difíceis costumam ensinar mais.
“Uma safra ruim ensina que devemos estar preparados para as dificuldades. Uma safra boa não ensina que a quantidade pode ser uma decepção.”
É uma reflexão que vale não apenas para a agricultura, mas para qualquer atividade humana. No fim das contas, o café produzido em Simonésia não é apenas resultado de técnicas, equipamentos modernos ou premiações. Ele carrega a experiência de seis gerações, a coragem de experimentar, a humildade para aprender e a paciência para esperar.
Talvez seja justamente por isso que milhões de xícaras espalhadas pelo mundo consigam transmitir algo que vai muito além do sabor.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









