Arrelia Vive: o neto que transformou memória em missão e mantém acesa uma das maiores lendas do entretenimento brasileiro

Poucos personagens atravessaram tantas gerações no Brasil quanto o palhaço Arrelia. Dono do famoso bordão “Como vai? Como vai? Como vai?”, ele ajudou a levar a arte circense para milhões de brasileiros, tornou-se um dos pioneiros da televisão nacional e entrou definitivamente para a história da cultura popular.
Décadas após sua partida, o personagem continua vivo. E boa parte dessa permanência se deve ao trabalho de seu neto, Carlos Alexandre Seyssel Arrelia, conhecido artisticamente como Arrelia Neto.
Em entrevista ao portal da Younik, Carlos falou sobre a convivência com o avô Waldemar Seyssel, os ensinamentos que recebeu, a importância de preservar a memória do circo brasileiro e os livros que escreveu para registrar a trajetória de uma das famílias mais importantes da história da palhaçaria nacional.
Muito além do personagem
Quem conhecia apenas o Arrelia dos palcos e da televisão talvez imaginasse que Waldemar Seyssel fosse um brincalhão em tempo integral. Segundo o neto, a realidade era um pouco diferente.
“Meu avô era um homem muito simpático, comunicativo, atencioso e generoso com os fãs, mas era extremamente disciplinado. Sempre chegava pronto uma hora antes dos compromissos. Não ficava contando piadas o tempo todo. Porém, quando surgia uma situação adequada, fazia as pessoas rirem naturalmente.”
A dedicação ao trabalho era uma de suas marcas mais fortes. O profissionalismo que demonstrava nos programas, no circo e nos eventos também aparecia nos bastidores. Mas havia algo que o público raramente via: seu lado solidário.
Carlos lembra que muitas vezes, logo após encerrar a apresentação do programa “Circo do Arrelia”, na TV Record, seu avô recebia pedidos para visitar crianças enfermas.
“Ele ia pessoalmente, caracterizado como Arrelia, visitar essas crianças. Fazia isso voluntariamente.”
O avô que virou patrimônio cultural

Carlos cresceu cercado por artistas, programas de televisão e apresentações circenses. Ainda bebê, foi levado pelo avô ao programa “Almoço com as Estrelas”, apresentado por Airton Rodrigues e Lolita Rodrigues. Curiosamente, durante muito tempo ele não tinha consciência da dimensão da fama do avô.
“Eu sabia que ele era o Arrelia, mas não sabia o que era ser famoso. Fui percebendo isso quando as pessoas me pediam autógrafos dele, perguntavam sobre ele e demonstravam um enorme carinho.”
Foi convivendo com a admiração do público que ele entendeu que estava diante de uma figura histórica do entretenimento brasileiro.
A missão de fazer rir
Para Carlos, ser palhaço está longe de ser apenas vestir uma roupa colorida e arrancar gargalhadas.
“O que faz um palhaço ser realmente bom é dedicação, estudo, treinamento, prática constante e respeito ao público.”
Ele também acredita que o humor é consequência de algo maior.
“O riso é o resultado da dedicação e do amor pelo que se faz.”
Essa visão foi herdada diretamente de Waldemar Seyssel, que defendia um humor familiar, sem palavrões ou apelos fáceis.
O primeiro palhaço da televisão brasileira
Embora suas raízes estivessem profundamente ligadas ao circo, Arrelia nunca teve medo de inovar. Carlos destaca que seu avô enxergou o potencial da televisão quando muitos artistas ainda desconfiavam da novidade.
“Ele foi o primeiro palhaço da TV brasileira.”
E acredita que, se estivesse vivo hoje, continuaria inovando.
“Tenho certeza de que ele utilizaria hologramas, inteligência artificial, redes sociais e plataformas digitais. Ele sempre investiria em novas tecnologias.”
Ao mesmo tempo, faz uma observação importante:
“Hoje existe uma carência de programas infantis com humor puro para as crianças.”
O que os palhaços modernos podem aprender com Arrelia?
Para Carlos, conhecer a história é fundamental para qualquer artista que queira inovar. Ele lamenta que muitos profissionais atuais desconheçam os grandes nomes da tradição circense brasileira.
“Os palhaços modernos podem aprender muito sobre técnicas, maquiagem, figurino, criação de esquetes, história do circo e da palhaçaria.”
Segundo ele, uma das maiores perdas dos últimos anos foi justamente o afastamento de parte da nova geração em relação às raízes históricas da profissão.
Um legado que ultrapassa um século
Por que Arrelia continua vivo na memória popular? Carlos tem uma resposta simples.
“O nome Arrelia continua vivo pelo amor que meu avô tinha pelo personagem e pelo amor que o público continua sentindo por ele.”
Mas existe também um aspecto quase poético nessa história.
“Meu avô dizia que o Arrelia é um encantado e, por isso, não morre.”
Talvez seja essa uma das explicações para um personagem criado há mais de cem anos continuar despertando carinho e nostalgia em diferentes gerações.
A sucessão de uma dinastia circense

A história dos Seyssel está ligada ao circo há gerações. O bisavô de Carlos, Ferdinando Seyssel, conhecido como o palhaço Pingapulha, foi mestre de Waldemar Seyssel. Depois, Waldemar tornou-se mestre de Carlos. A transmissão do conhecimento aconteceu da forma mais tradicional possível: dentro da própria família.
“O meu avô me ensinou a arte do palhaço de 1980 até 1997.”
Na adolescência, recebeu oficialmente o reconhecimento do mestre.
“Meu avô me disse que eu já era palhaço e que, quando eu quisesse, seria o Arrelia II.”
Hoje, apresentando-se como Arrelia Neto, ele entende a dimensão da responsabilidade.
“Não tive medo. Compreendi a responsabilidade de ser a quinta geração de uma tradicional família de palhaços.”
Dois livros para preservar a memória
Além dos espetáculos e apresentações, Carlos assumiu outra missão: registrar a história da família e do personagem em livros. A motivação é direta.
“Preservar a história e a memória do meu avô.”
Durante a pesquisa, encontrou centenas de reportagens, documentos, fotografias e cartas.
“As cartas e os artigos de jornal me emocionaram muito.”
O maior desafio foi justamente selecionar o material.
“A quantidade de informações era enorme. Foi preciso escolher para que os livros não ficassem cansativos e mantivessem o foco na preservação da memória.”
As obras se tornaram uma importante fonte de consulta para pesquisadores, artistas circenses e admiradores que desejam conhecer mais profundamente a trajetória de Arrelia.
O Brasil ainda precisa de palhaços?
A resposta de Carlos é imediata.
“Sim. O Brasil e todos os países sempre precisarão de palhaços.”
Para ele, os palhaços representam algo muito humano. Enquanto trapezistas e acrobatas impressionam por desafiar limites, o palhaço conquista o público justamente por suas imperfeições.
“O palhaço cai, tropeça, erra. Ele é um espelho. O público se identifica porque todos nós temos defeitos.”
É essa humanidade que faz o público rir e se emocionar ao mesmo tempo.

A última lição

Entre tantas lembranças, uma das últimas lições deixadas por Waldemar Seyssel permanece viva na memória do neto. Segundo Carlos, o avô entendia que a longevidade era uma bênção, mas também reconhecia a fragilidade do corpo humano. Mesmo dominando técnicas de acrobacia, trapézio e diversas artes circenses, chegou um momento em que a idade impôs limitações. A mensagem que deixou foi clara:
“Devemos fazer sempre o nosso melhor pela humanidade, porque o corpo humano é frágil e vulnerável.”
Uma história que merece ser contada
Ao final da entrevista, Carlos foi desafiado a explicar para uma criança de hoje por que ela deveria conhecer a história de Arrelia. A resposta resume perfeitamente o encanto desse personagem:
“Amiguinho, eu vou te contar a história do palhaço Arrelia, o palhaço mais famoso e mais engraçado do Brasil, que era de uma família que vivia em um castelo, mas que, por amor a uma bailarina, deixou o castelo e foi viver no circo.”
Talvez seja justamente essa mistura de sonho, coragem, amor, humor e tradição que faz com que Arrelia continue vivo mais de um século depois de seu nascimento. E enquanto existirem pessoas como Carlos Alexandre Arrelia dedicadas a preservar essa memória, o velho bordão seguirá ecoando na cultura brasileira:
“Como vai? Como vai? Como vai?”
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo









