Parece Mas Não É

Mar de Lama

Há um mar de lama sob o palácio do governo. É desta forma que a mídia classifica as investigações sobre corrupção. O tema deixa de estar circunscrito a alguns estados da Federação e atinge de frente o Executivo federal. Há uma forte reação por parte do presidente da República, que nega com ênfase e reforça não haver provas sobre as acusações que percorrem o país de norte a sul. Há pelo menos duas narrativas antagônicas e isso contribui fortemente para a polarização política. O chefe do Executivo nunca se caracterizou como um político de esquerda, mas é apoiado ruidosamente por ela, que defende uma aliança entre o Estado e o capitalismo tupiniquim. Os sindicatos se aliam ao presidente, uma vez que entendem que ele defende a soberania brasileira ameaçada pelo imperialismo americano. Dizem que o que está em jogo é a soberania nacional.

O cenário é a narrativa de que fortes lobbies internacionais querem se apropriar das riquezas naturais do Brasil e privilegiar o capital estrangeiro, principalmente os interesses norte-americanos. A esquerda não esquece de que o presidente dos Estados Unidos é republicano e tem uma política de intervenção na América Latina. Lembra sempre da Doutrina Monroe, que reivindica domínio do continente apenas para os interesses dos Estados Unidos. A direita tem forte representação tanto no Congresso como na mídia. Os debates entre deputados e senadores são acirrados e ocupam grande parte do noticiário político, não só na capital do Brasil, mas principalmente em São Paulo, o estado mais industrializado do país e sede de sindicatos aguerridos, muitos controlados por lideranças de esquerda. O presidente acusa a direita de ser contra uma política social e a um aumento do salário mínimo. Apesar do apoio popular, não tem na mídia a mesma força que têm os seus opositores.

O escândalo do banco corrói a popularidade do presidente. Há suspeita de casos de corrupção, entre eles o financiamento de um jornal que defende o governo. A oposição consegue abrir uma CPI no Congresso e avança contra o chefe do Executivo. O líder da direita é o jornalista Carlos Lacerda, editor do cáustico jornal Tribuna da Imprensa. É apoiado por Roberto Marinho, que abre para ele os microfones da poderosa rádio Globo do Rio de Janeiro, de alcance nacional. O presidente Getúlio Vargas é colocado contra as cordas. Nem mesmo a criação da empresa de capital misto, a Petrobras, e a vitória do movimento “O petróleo é nosso” aliviam a radicalização política. Lacerda diz que há um mar de lama sob o palácio presidencial do Catete. A suspeita paira também sobre um dos filhos de Vargas e o seu guarda-costas Gregório Fortunato. O jargão lacerdista é repetido à exaustão: “Vargas não deve ser candidato a presidente; candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse; empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. O atentado contra Lacerda e a morte do seu guarda-costas, Major Vaz, levam o presidente ao suicídio em pleno mandato.

* Prof. Heródoto Barbeiro âncora do Jornal Nova Brasil, colunista do R7, apresentou o Roda Viva na TV Cultura, Jornal da CBN e Podcast NEH. Tem livros nas áreas de Jornalismo, História. Midia Training e Budismo. Grande prêmio Ayrton Senna, Líbero Badaró, Unesco, APCA, Comunique-se. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Palestras e mídia training. Canal no Youtube “Por Dentro da Máquina”, www.herodoto.com.br