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Humorista transforma o luto pela morte do pai em uma história sobre vida, memória e afeto

Após levar mais de 5 mil pessoas ao teatro e realizar sessões esgotadas, Pedro Casali registra o especial “Solo Ideal: Arenoso”, espetáculo que nasceu de uma brincadeira capaz de fazer sua mãe rir novamente após a perda do marido

É possível rir depois de uma tragédia? Para o humorista, ator e dramaturgo Pedro Casali, a resposta começou dentro de casa, pouco tempo depois da morte de seu pai.

Com a mãe ainda mergulhada no luto, Casali fez uma brincadeira qualquer. Ela riu. Não foi uma risada educada, mas uma daquelas espontâneas, capazes de fazer alguém esquecer por alguns segundos o peso que carrega. Foi naquele momento que o artista percebeu que o humor poderia ter uma função muito maior do que simplesmente provocar o riso.

“Eu entendi que o humor não apaga a dor. Ele não faz a saudade desaparecer. Mas ele cria pequenas pausas para que a gente consiga respirar”, conta.

A experiência se transformou em ponto de partida para “Solo Ideal: Arenoso”, espetáculo que mistura stand-up, teatro e música para revisitar a relação com o pai, as lembranças da infância em Ilhabela e os acontecimentos em torno de sua morte. Depois de passar por diferentes palcos e conquistar mais de 5 mil espectadores, a montagem será registrada em um especial audiovisual no dia 28 de setembro, no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo.

Mas, para Casali, a história nunca foi simplesmente sobre a morte do pai.

“Eu não fiz um espetáculo sobre a morte dele. Eu fiz um espetáculo sobre a vida dele e sobre tudo o que ficou depois que ele se foi”, afirma.

Essa diferença ajuda a entender a proposta da obra. Em vez de transformar o luto em um território intocável, Casali utiliza o humor para falar justamente das situações contraditórias que surgem quando alguém precisa continuar vivendo depois de uma perda.

E foi observando a própria mãe que ele encontrou algumas das questões mais delicadas do espetáculo.

Depois de perder o marido, ela precisou reaprender a viver. E, nesse processo, surgiu algo que muitas pessoas enfrentam, mas raramente colocam em palavras: a culpa por voltar a rir, se divertir, criar novas memórias e até pensar na possibilidade de amar novamente.

Casali diz que não sentiu culpa por transformar essas experiências em material para o espetáculo, mas viu esse sentimento aparecer na própria mãe.

“Vi a culpa aparecer quando minha mãe voltou a rir. Vi o medo do julgamento quando ela começou a reconstruir a vida. E percebi que isso acontece com muita gente, mas quase ninguém fala sobre o assunto.”

É justamente aí que o espetáculo encontra sua dimensão mais humana. As piadas não têm como alvo a dor de quem perdeu alguém, mas o absurdo das situações, as contradições e os comportamentos que surgem quando tentamos lidar com a ausência.

O retorno do público parece confirmar que existe uma identificação profunda com esse caminho. Depois das apresentações, Casali passou a ser procurado por pessoas que viveram experiências semelhantes.

“Viúvos, filhos, mães, pessoas que perderam alguém… Eles dizem: ‘Era exatamente isso que eu sentia e nunca consegui colocar em palavras’.”

Para o artista, esse talvez seja o principal sinal de que a escolha de falar sobre o luto através da comédia fez sentido.

Ao longo de mais de 15 anos de carreira, Casali passou pelo teatro, televisão, cinema, publicidade e stand-up comedy. Trabalhou em produções da Globo, SBT, Record TV e Comedy Central, participou de mais de 30 montagens teatrais, escreveu para televisão e atua também como roteirista, diretor, dramaturgo, escritor e professor.

A experiência com o humor, porém, ganhou uma nova dimensão a partir de “Solo Ideal: Arenoso”.

“Passei muitos anos tentando entender do que as pessoas riem. Hoje continuo minha pesquisa, mas entendi que o riso pode fazer muito mais do que divertir. Ele pode acolher, aproximar e até ajudar alguém a atravessar um momento difícil.”

O espetáculo também mudou a forma como o próprio artista enxerga sua relação com a ausência do pai.

“Como filho, sinto que consegui transformar a ausência do meu pai em presença. Enquanto essa história continua sendo contada, de alguma forma ele continua vivo.”

Essa ideia parece resumir o coração de “Solo Ideal: Arenoso”: a memória como uma maneira de manter alguém presente e o humor como uma ferramenta para falar dessa presença sem negar a dor da ausência.

Na gravação do especial, Casali pretende ampliar esse alcance. A ideia é fazer com que uma história que nasceu dentro de sua própria casa possa chegar a pessoas que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao espetáculo ao vivo.

E existe ainda uma consequência inesperada desse processo. Inspirada pelo próprio filho, a mãe de Casali já pediu um espetáculo para chamar de seu.

Ele revela que já começou a rabiscar a ideia e até encontrou o nome: “Sed libera nos a malo!”

O humor, afinal, parece ter se tornado uma espécie de linguagem familiar para lidar com aquilo que não tem solução.

E se pudesse ter o pai novamente sentado na plateia, Casali sabe exatamente o que gostaria que ele entendesse sobre o espetáculo.

“Eu gostaria que ele entendesse que eu não fiz um espetáculo sobre a morte dele. Eu fiz um espetáculo sobre a vida dele e sobre tudo o que ficou depois que ele se foi.”

O pai, segundo Casali, era um homem que brincava com tudo, inclusive com as situações difíceis. Por isso, o humorista imagina que ele compreenderia a escolha. E provavelmente ainda faria uma crítica.

“Argentino não perde essa oportunidade”, brinca Casali.

Depois, imagina que ouviria do pai: “Gracias, boludo! Você aprendeu direitinho que a melhor forma de encarar a morte é rindo dela.”

Talvez seja justamente essa a essência de “Solo Ideal: Arenoso”: não rir da perda, mas encontrar, mesmo dentro dela, algum espaço para continuar celebrando a vida.

Serviço

Espetáculo: Solo Ideal: Arenoso
Gênero: Comédia Dramática / Stand-up Poético
Duração: 70 minutos
Local: Teatro Sabesp Frei Caneca – São Paulo
Data: 28 de setembro
Sessões: 19h30 e 22h
Ingressos: uhuu.com.br
Classificação: 16 anos

Texto, direção e atuação: Pedro Casali
Canções originais e letras: Pedro Casali e Marcus Veríssimo
Direção Musical: Marcus Veríssimo
Lighting Designer: César Pivetti
Músicos: Marcus Veríssimo e Gabriel Ferrara
Cantoras convidadas: Priscilla Dieminger e Marcela Gibo
Preparação Vocal: Israel Tedesco
Locução: Lawrence Shum
Filmagem: FlagShip
Produção e realização: Timing House Produções Artísticas

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo