Debate agradou as tocidas organizadas da internet? Maurício Meirelles usa o humor para retratar uma disputa em que perguntar parece mais fácil do que responder
Propostas do Lula: ele não é o Flávio. Propostas do Flávio: ele não é o Lula. Isso resume o debate presidencial realizado na Bandeirantes no domingo, 18 de outubro. O encontro deixou um gosto amargo na boca, tipo depois de tomar Buscopan em gotas. O problema é que Buscopan ainda serve pra tirar a dor. Os dois candidatos estiveram empenhados em desqualificar o adversário, sem oferecer razões suficientes para conquistar o voto por mérito próprio.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) participaram do primeiro confronto direto do segundo turno. Corrupção, segurança pública e relações com os Estados Unidos estiveram entre os assuntos discutidos, com cobranças sobre familiares e um desafio de Lula para a abertura de sigilos bancários e telefônicos. Que por mim, já poderia ter esse sigilo quebrado. Inclusive do cartão corporativo.
O debate foi deprimente. Só tivemos troca de acusações e ninguém respondeu nada. Um apontava o dedo. O outro devolvia a acusação.
O humorista Maurício Meirelles chegou a uma leitura semelhante, com sarcasmo: “Adorei o formato inédito de debate que um pergunta e outro não responde”. Para ilustrar, comparou a dinâmica a uma discussão de casal em que alguém pergunta sobre a chegada tarde e bêbado, mas recebe uma cobrança sobre um misto-quente que não foi preparado na quinta-feira.
A graça depende justamente da falta de conexão. Há uma pergunta, há uma fala depois dela, mas a resposta continua pendente.
Seria impreciso dizer, como descrição factual, que nenhuma proposta apareceu. A cobertura da própria Band registra, por exemplo, a defesa de Flávio do uso das Forças Armadas na fiscalização de fronteiras, portos e aeroportos e da ampliação de câmeras com inteligência artificial. Minha crítica é a qualidade da discussão e ao espaço ocupado pelos ataques.
Senti que ao comentar as propostas, parecem apenas ter dado um Ctrl + C e Ctrl + V no “Livro Amarelo”, ideias apresentadas no programa do Partido Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e à candidatura de Renan Santos. A obra reúne diagnósticos e propostas sobre economia, segurança, saúde, educação, infraestrutura e outros temas. Uma versão resumida foi apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral como plano de governo.
Os deputados e influenciadores ligados aos dois lados terminaram o encontro preocupados em gravar a própria participação na confusão. O debate do vídeo selfie. O celular apontado para si mesmo serviu para garantir um corte nas redes, mesmo para quem nem estava disputando a Presidência.
Meirelles também explorou a relação entre política e vídeos curtos. Ao brincar que os candidatos se cansaram de falar, atribuiu o problema ao hábito de gravar Reels. Sugeriu até uma pausa para hidratação, como no futebol.
A comparação esportiva voltou em outro momento: para o humorista, o encontro parecia um Grêmio contra Internacional em que os dois times estavam mal e lutavam contra o rebaixamento. A rivalidade permanecia grande. O desempenho, na piada, não acompanhava.
Do debate que tivemos ontem, até Cabo Daciolo e Padre Kelmon foram muito melhores em outros anos e renderam cortes maravilhosos que carregamos até hoje.
A rejeição por Lula ou por Flávio, pesa mais do que o entusiasmo pelo próprio candidato nos dois campos. É uma interpretação sobre a disputa, não uma medição das motivações do eleitorado.
Meirelles encerrou essa parte de sua análise com outra provocação: o debate teria servido para virar voto porque “todo mundo percebeu que estava votando errado”.
A questão é: a torcida organizada dos dois times ficou satisfeita?
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










