Aquisições de empresas e investimentos bilionários são confirmados por documentos públicos, mas não sustentam a afirmação de que o país estaria sob controle chinês
A compra da CPFL aconteceu. Os investimentos em locomotivas e vagões também. O problema começa quando negócios documentados viram prova de que a China decide o que o brasileiro planta, quanto paga pela comida e qual será o valor da conta de luz.
Em um vídeo publicado no YouTube, o perfil @felipedantasf reúne operações de grupos chineses nos setores de energia, portos, ferrovias e açúcar para afirmar que um “império” está sendo construído no Brasil. A conclusão é que o controle do país estaria saindo das mãos dos brasileiros, com a permissão do governo que promete defender a soberania nacional.
A checagem das afirmações transcritas encontrou respaldo para boa parte das compras e dos valores citados. Encontrou também uma confusão entre extensão de linhas elétricas e quantidade de energia, um recorde apresentado de maneira incorreta e aquisições antigas reunidas em uma crítica ao governo atual.
Confira os dez pontos.
1. A State Grid comprou o controle da CPFL?
Sim. A operação foi concluída em 2017.
Documentação da CPFL apresentada à SEC, órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, registra que a State Grid passou a controlar a companhia em 23 de janeiro de 2017, com participação de 54,64%. www.sec.gov
A data situa a aquisição no governo Michel Temer. O vídeo não diz expressamente que a compra ocorreu no atual mandato de Lula, mas omite essa referência ao reunir os negócios como exemplos da responsabilidade do governo atual.
2. Os 16 mil quilômetros de linhas representam 10% da energia brasileira?
Não é isso que o indicador mede.
A State Grid informa operar mais de 16 mil quilômetros de linhas, equivalentes a aproximadamente 10% da malha de transmissão de alta tensão. O percentual se refere à extensão da rede. Não à quantidade de eletricidade produzida ou consumida no Brasil. stategrid.com.br
A frase “a luz da sua sala passa por um fio que responde à China” também deixa de fora uma distinção: o controlador de uma empresa não assume, por isso, o comando do sistema elétrico nacional. O ONS coordena a operação da geração e da transmissão no Sistema Interligado Nacional, sob fiscalização e regulação da Aneel. www.ons.org.br
3. A CMPort é dona de 90% do terminal de Paranaguá?
Esse foi o percentual da aquisição original. Houve mudança posterior.
Em fevereiro de 2018, o governo federal confirmou a compra de 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá pela China Merchants Port. A operação também ocorreu durante o governo Temer. Na ocasião, a comunicação oficial descrevia o empreendimento como o terceiro maior terminal de contêineres do país. www.gov.br
Em janeiro de 2020, porém, a publicação especializada DatamarNews informou que a CMPort havia vendido uma participação de 22,5% do TCP a dois fundos ligados a instituições chinesas. O vídeo não menciona essa alteração. datamarnews.com
A aquisição original está comprovada. Atribuir os mesmos 90% exclusivamente à CMPort no presente exige uma atualização da estrutura societária. A posição de “terceiro maior” também não foi confirmada em um ranking de 2026. Outro cuidado: comprar participação no terminal não equivale a comprar todo o Porto de Paranaguá.
4. Houve um acordo de mais de R$ 1,5 bilhão para ampliar o terminal?
Sim. O anúncio é de novembro de 2025.
O Ministério de Portos e Aeroportos informou que o acordo com a CMPort foi assinado em 5 de novembro de 2025, em Xangai, com investimentos previstos superiores a R$ 1,5 bilhão para ampliar a capacidade de armazenagem e movimentação de cargas. www.gov.br
Nesse ponto, o vídeo tem respaldo. O comunicado trata de recursos a serem aplicados nos anos seguintes, e não de um valor integralmente desembolsado na assinatura.
5. A Cofco investiu R$ 1,2 bilhão em locomotivas e vagões?
Sim. As quantidades citadas estão corretas.
Um comunicado publicado pela Rumo em 27 de janeiro de 2025 informa o investimento da Cofco em 23 locomotivas e 979 vagões, com capacidade de transportar até 4 milhões de toneladas de grãos e açúcar para seu terminal no Porto de Santos. www.rumolog.com
Há duas simplificações na fala. A origem das cargas inclui o Centro-Oeste e o interior paulista, não apenas São Paulo. E a capacidade anunciada não comprova que esse volume já tenha sido transportado.
A operação dos equipamentos cabe à Rumo. A compra dos trens, portanto, não representa a aquisição da ferrovia.
6. Cofco e Bunge negociaram a compra de 15% da Rumo?
A negociação foi noticiada. Isso não comprova controle chinês da companhia.
Em 3 de setembro de 2026, o Brazil Journal publicou que a Cosan mantinha conversas avançadas com um consórcio formado por Cofco e Bunge para vender uma participação de 15% na Rumo. A informação foi atribuída a fontes próximas ao assunto. braziljournal.com
O vídeo usa corretamente a expressão “entrou em negociação”. Mas acrescenta que quem tinha os vagões “agora quer mandar no trilho”.
Essa segunda frase é uma interpretação. Negociar não significa concluir a compra, e uma participação conjunta de 15% não demonstra, por si só, que a Cofco passaria a controlar a empresa. Essa avaliação depende dos direitos de voto, dos acordos entre acionistas e das condições finais do negócio.
7. O Cade aprovou a compra de duas usinas da Bunge pela Cofco?
Sim. O aumento anunciado de capacidade também confere.
O Diário Oficial da União de 28 de setembro de 2026 publicou o Despacho nº 1.263/2026, com aprovação sem restrições da operação envolvendo Cofco, Viterra Bioenergia e empresas da Bunge. www.gov.br
O negócio inclui as usinas Rio Vermelho e Nova Unialco, em São Paulo. A capacidade de moagem anunciada passa de 18,5 milhões para 25,5 milhões de toneladas por safra, crescimento de aproximadamente 37,8%, corretamente arredondado para 38%. forbes.com.br
Já a expressão “faltava terra” vai além desses dados. A aquisição de usinas e o aumento da capacidade de processamento não informam, sozinhos, quantos hectares próprios foram transferidos.
8. Todas essas empresas têm um único acionista, o Partido Comunista Chinês?
A frase confunde propriedade estatal, controle político e estrutura societária.
State Grid, China Merchants e Cofco têm vínculo com o Estado chinês. As fontes consultadas identificam os grupos como estatais. No caso da State Grid, a propriedade é atribuída à SASAC, órgão estatal de administração de ativos. www.cspi-ratings.com
Esse vínculo é relevante para discutir a influência do governo chinês sobre os investimentos. Mas não torna correta a descrição de todas as empresas como pertencentes a um único acionista formal chamado Partido Comunista Chinês.
O vídeo também aproxima operações diferentes: o terminal de contêineres de Paranaguá está ligado à CMPort; o terminal de Santos mencionado no investimento ferroviário é da Cofco; e os trens são operados pela Rumo. Os negócios apresentados não demonstram um comando empresarial único sobre toda essa cadeia. www.gov.br
9. O Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em 52 projetos chineses em 2025?
Sim. Mas o recorde foi de projetos, não de dinheiro.
O Conselho Empresarial Brasil-China confirma US$ 6,1 bilhões, distribuídos em 52 projetos, com crescimento de 45% no valor investido em relação a 2024. No levantamento, o Brasil aparece como principal destino dos investimentos chineses naquele ano.
A distorção surge quando o vídeo chama o resultado de “recorde de dinheiro chinês”. Segundo o mesmo relatório, 2025 registrou o maior valor desde 2017, quando os investimentos chegaram a US$ 8,8 bilhões. www.cebc.org.br
Também não há fundamento para atribuir todo o montante a “esse acionista”, como faz a gravação. O estudo reúne investimentos de empresas chinesas e não comprova que os recursos tenham partido de um único proprietário.
10. Essas empresas decidem o preço da comida e da conta de luz?
A conclusão não foi demonstrada.
No setor elétrico, as tarifas das distribuidoras são reguladas e homologadas pela Aneel. O controle estrangeiro de uma companhia não lhe concede liberdade para definir unilateralmente a tarifa cobrada dos consumidores. www.gov.br
No agronegócio, controlar instalações de processamento e escoamento pode conferir influência comercial. Comprovar poder para determinar o plantio e o preço dos alimentos, porém, exige dados sobre participação de mercado, concorrência, contratos e efeitos sobre preços. A relação de aquisições apresentada no vídeo não oferece essa demonstração.
Há ainda um dado que ficou fora da gravação. Segundo reportagem da CNN Brasil sobre a análise do Cade, o órgão considerou que as participações envolvidas na compra das usinas não configuravam posição dominante nos mercados examinados. A avaliação se refere àquela operação, não ao conjunto dos investimentos chineses no país. www.cnnbrasil.com.br
A presença de estatais estrangeiras em infraestrutura essencial permite discutir dependência econômica, concentração de mercado e capacidade de fiscalização. Para afirmar que o Brasil perdeu o controle sobre esses setores, entretanto, é preciso demonstrar quais decisões o país deixou de poder tomar. O vídeo lista negócios. Não apresenta essa prova.










