A reação revela o quanto ainda subestimamos o papel do pai.
Quando o atacante belga Jérémy Doku deixou temporariamente a concentração da seleção da Bélgica durante a Copa do Mundo para acompanhar o nascimento de seu primeiro filho, muita gente enxergou ali um gesto natural. Outras pessoas, porém, reagiram como se ele tivesse cometido um pecado profissional.
A crítica mais dura veio da jornalista francesa France Pierron, da L’Équipe TV. Em um programa ao vivo, ela afirmou que o pai “não serve para nada” durante o parto, dizendo que sua função seria apenas “segurar a mão” da esposa e tirar uma foto. Para ela, abandonar a Copa do Mundo por esse motivo seria um desperdício de uma oportunidade única.
A repercussão foi imediata. Pierron recebeu inúmeras críticas, pediu desculpas publicamente e acabou sendo afastada da cobertura do torneio. Enquanto isso, Doku retornou normalmente à delegação belga após acompanhar o nascimento do filho, com autorização da federação de seu país.
A história foi amplamente repercutida pela imprensa, entre eles Aquiles Marchel Argolo e o portal Canguru News, que aproveitaram o episódio para discutir o significado da presença paterna desde o primeiro instante de vida de uma criança.
Mas talvez a maior discussão não seja sobre futebol.
Se Doku estivesse voltando para resolver um grande contrato milionário, dificilmente alguém questionaria sua decisão. O problema parece surgir justamente quando um homem decide colocar a família acima do trabalho.
“O pai não faz diferença”
Durante décadas, fomos ensinados que o parto pertence exclusivamente à mãe. O pai ficava do lado de fora da sala de parto, andando de um lado para o outro no corredor do hospital, esperando alguém aparecer com a notícia de que o bebê havia nascido.
Essa imagem acabou moldando uma ideia que ainda persiste em muitos lugares: a de que o homem é apenas um figurante naquele momento.
A frase dita por France Pierron não surgiu do nada. Ela apenas verbalizou uma visão bastante difundida na sociedade: a de que a presença do pai é opcional porque, afinal, quem dá à luz é a mãe.
Mas esse raciocínio ignora algo fundamental.
É evidente que o pai não substitui médicos, enfermeiros ou obstetras. Também não vive as dores físicas do parto. Ainda assim, sua presença pode representar apoio emocional, segurança, acolhimento e parceria para a mulher justamente em um dos momentos mais intensos de sua vida.
Segurar uma mão pode parecer pouco para quem observa de fora. Para quem está passando pelo parto, muitas vezes significa tudo.
A nova paternidade exige escolhas
Existe outro aspecto que o caso Doku evidencia. Muito se fala sobre pais presentes. Incentivamos homens a participarem da gestação, das consultas, do parto e da criação dos filhos. Mas, quando essa participação exige abrir mão de compromissos profissionais importantes, nem sempre a sociedade reage bem.
Nem todo mundo terá o privilégio de receber autorização do empregador para viajar e acompanhar o nascimento de um filho durante um grande projeto de trabalho. Muitos brasileiros sequer conseguem negociar algumas horas de ausência.
Mesmo assim, inúmeros pais enfrentam críticas quando decidem priorizar a família.
“Você vai faltar por causa disso?”
“Não dá para sua esposa resolver?”
“Você não precisa estar lá.”
Frases como essas continuam sendo comuns.
Estar presente também é responsabilidade
A boa notícia é que essa visão vem mudando. Cada vez mais homens querem participar do pré-natal, acompanhar consultas, assistir ao parto, trocar fraldas, acordar de madrugada e dividir, de fato, a responsabilidade pela criação dos filhos.
Isso não diminui o papel da mãe. Também não transforma o pai em protagonista. Transforma ambos em parceiros.
Talvez esse seja justamente o ponto que ainda causa desconforto para algumas pessoas: abandonar a ideia de que cuidar dos filhos é uma tarefa exclusivamente feminina.
A Copa passa. O nascimento não volta.
Jérémy Doku provavelmente disputará outros campeonatos ao longo da carreira. Talvez jogue outra Copa do Mundo. Talvez conquiste novos títulos. Mas o nascimento do primeiro filho aconteceria apenas uma única vez.
Há momentos na vida que não admitem replay. É claro que nem todos poderão fazer a mesma escolha que Doku. A realidade de um atleta de elite é diferente da de milhões de trabalhadores. Mas a discussão que seu caso desperta vale para qualquer família.
A verdadeira pergunta talvez não seja se um pai “serve para alguma coisa” durante o parto. Mas sim, que tipo de sociedade queremos construir? Uma que continue dizendo aos homens que seu lugar é do lado de fora, esperando notícias? Ou uma que reconheça que a presença, o cuidado e o compromisso começam muito antes do primeiro abraço?









