A exclusão digital, a ética e o isolamento da advocacia: os alertas da advogada Gilda Figueiredo Ferraz
Em entrevista ao podcast CLT 4.0, apresentado por Sólon Cunha, a advogada Gilda Figueiredo Ferraz falou sobre os impactos da tecnologia na advocacia trabalhista, os desafios da inteligência artificial, a importância da ética e a preocupação com o isolamento das novas gerações de profissionais.
Com 45 anos de atuação na advocacia e uma trajetória ligada à OAB, FIESP, Fecomércio e CIEE, Gilda Figueiredo Ferraz acredita que o maior desafio atual da profissão é aprender a conviver com a inteligência artificial e as transformações tecnológicas.
“Sem tecnologia não existe inteligência artificial. O grande desafio é aprender a usar essas ferramentas e se adaptar ao que temos hoje”, afirmou.
Exclusão digital preocupa gerações mais experientes
Para a advogada, existe uma exclusão digital que afeta principalmente os profissionais mais velhos. Embora considere que muitos colegas da sua geração ainda consigam se adaptar, ela acredita que pessoas acima dos 75 anos enfrentam mais dificuldades.
Segundo Gilda, a tecnologia trouxe avanços importantes, mas também criou barreiras para quem não nasceu em um ambiente digital.
Audiências virtuais reduziram o aprendizado dos jovens advogados
Um dos pontos que mais preocupam a especialista é a perda do aprendizado informal proporcionado pelas audiências presenciais.
Antes, era comum que advogados em início de carreira acompanhassem audiências de colegas, observassem estratégias, postura e argumentação. Com a virtualização, esse ambiente praticamente desapareceu.
“Hoje o advogado entra na sala de espera, faz sua audiência e vai embora. Esse impacto será percebido daqui a alguns anos”, disse.
Ela também destacou que a convivência nos fóruns e tribunais permitia a troca de experiências e a criação de uma rede de relacionamentos que ajudava no desenvolvimento profissional.
Ética será o tema mais importante dos próximos anos
Ao ser questionada sobre quais assuntos deverão dominar o Direito do Trabalho no futuro, Gilda surpreendeu ao não citar inteligência artificial ou pejotização.
Para ela, a palavra-chave é ética.
“Vivemos uma época em que a ética foi relativizada. Isso não acontece apenas na advocacia, mas em toda a sociedade”, afirmou.
A advogada ressaltou que a conduta ética deveria ser um valor inegociável e que a credibilidade das instituições depende desse compromisso.
O advogado trabalhista precisa continuar estudando
Gilda destacou que a área trabalhista exige atualização constante. Segundo ela, mudanças legislativas, decisões judiciais e novas interpretações exigem estudo diário.
“Se você não acordar cedo para ler jornais, acompanhar os portais especializados e estudar, fica fora do tempo”, comentou.
Ela também defendeu que o advogado trabalhe sempre com base na lei e mantenha a ética como princípio fundamental.
Sustentação oral continua fazendo diferença
Frequentadora assídua dos tribunais, Gilda acredita que a sustentação oral continua sendo uma ferramenta importante.
Segundo ela, mais do que repetir argumentos escritos, a apresentação oral permite chamar a atenção para os pontos realmente decisivos do processo.
“O corpo fala. O contato entre advogado e julgador continua sendo importante”, afirmou.
Além disso, defendeu a importância dos memoriais e do contato presencial com os tribunais.
O valor das relações humanas na advocacia
Ao longo da conversa com Solon Cunha, a advogada lamentou o que chamou de “isolamento social da advocacia”. Para ela, a profissão sempre foi construída por meio da convivência entre colegas, da troca de experiências e da colaboração.
Casos, precedentes e estratégias eram compartilhados naturalmente nos fóruns e tribunais. Hoje, segundo ela, essa interação está diminuindo.
“Advogar é se relacionar. Nosso ganha-pão é a fala”, resumiu.
O conflito faz parte da profissão
Apesar das mudanças provocadas pela tecnologia, Gilda acredita que o brasileiro continua recorrendo ao Judiciário para resolver seus problemas.
Embora reconheça a importância da arbitragem e da mediação, ela entende que a cultura nacional ainda favorece a judicialização.
E deixa claro que isso nunca a afastou da profissão.
“Eu adoro fazer audiência. Adoro conflito. O problema do cliente passa a ser meu problema”, concluiu.
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