Uma demissão pode abalar muito mais do que a renda. Quando o emprego se confunde com a identidade de uma pessoa, o desligamento costuma provocar a sensação de que ela perdeu parte de quem é. Em entrevista a Marcelo Nóbrega, no podcast Você Está Contratado!, José Augusto Minarelli, pioneiro em outplacement no Brasil e presidente do Conselho de Administração do CIEE, explicou como enfrentar essa ruptura e preparar a continuação da carreira.
Para Minarelli, um dos primeiros passos é mudar a forma de enxergar o vínculo profissional. Muita gente costuma se apresentar dizendo que é de determinada empresa, quando, na verdade, mantém com ela uma relação de trabalho que pode ter início, meio e fim. Parece uma diferença pequena de linguagem, mas o especialista afirma que ela ajuda a separar a identidade pessoal do cargo ocupado.
“Eu oriento as pessoas para que use o verbo estar”, explicou durante a conversa. A ideia é reconhecer que o conhecimento, a experiência e os relacionamentos construídos continuam pertencendo ao profissional mesmo depois do encerramento do contrato.
O que fazer depois de ser demitido?
Minarelli não recomenda começar a procurar outro emprego como se nada tivesse acontecido. Ele reconhece que o desligamento pode provocar tristeza, frustração, insegurança e sensação de perda, especialmente quando a pessoa passou muitos anos dedicada à mesma organização.
Sua orientação é dar espaço para assimilar o acontecimento, reorganizar as emoções e compreender o que efetivamente terminou: uma relação contratual. A carreira, por outro lado, continua. Depois desse primeiro momento, é preciso avaliar competências, definir objetivos e voltar a conversar com o mercado.
“Procurar trabalho é um trabalho”, disse o especialista. Isso significa tratar a recolocação como um projeto, com foco, preparação, contatos, apresentação profissional e acompanhamento das oportunidades. A pessoa deixa de se colocar apenas na posição de quem pede uma vaga e passa a mostrar quais problemas pode resolver.
Outplacement: o que é e para que serve
Marcelo Nóbrega abriu a entrevista pedindo uma explicação sobre outplacement, termo frequentemente confundido com recrutamento executivo ou headhunting. Segundo Minarelli, os serviços atendem a necessidades diferentes.
O headhunter atua na busca de profissionais para preencher posições. O outplacement, em sua concepção, começa antes mesmo da demissão: auxilia a empresa a planejar e comunicar a saída com respeito, evitando improvisos e reduzindo danos humanos e organizacionais.
Depois do desligamento, o serviço pode oferecer orientação ao profissional que sai, ajudando-o a reorganizar seu posicionamento, identificar competências, preparar sua comunicação e buscar oportunidades. Em geral, o outplacement corporativo é contratado pela empresa que promove a demissão, embora também existam programas individuais de orientação de carreira.
Minarelli insistiu que a maneira de conduzir a conversa de desligamento importa tanto quanto os procedimentos formais. A empresa precisa comunicar com clareza a quem sai e também à equipe que permanece. O cuidado não elimina o sofrimento, mas pode evitar que ele seja agravado por uma abordagem desrespeitosa.
Net living: por que fazer contatos apenas quando precisa é um erro
Um dos conceitos mais comentados da entrevista foi o net living, expressão usada por Minarelli para descrever o cultivo contínuo de relacionamentos. Diferentemente da atitude de procurar antigos colegas apenas depois de perder o emprego, o net living pressupõe participar de grupos profissionais, manter contato, trocar experiências e contribuir regularmente com outras pessoas.
Na avaliação dele, quem constrói vínculos ao longo do tempo tem mais facilidade para pedir conselhos, compartilhar mudanças de carreira e ser lembrado quando surge uma oportunidade. Já procurar alguém apenas para solicitar uma vaga pode colocar o interlocutor em uma situação desconfortável.
O entrevistado também defendeu a importância da “encontrabilidade”: estar acessível a quem deseja fazer contato. Isso envolve atualizar o perfil profissional, apresentar com clareza o que faz e permitir que pessoas interessadas encontrem uma forma adequada de comunicação. A presença digital, nesse caso, funciona como apoio à reputação construída fora da internet.
A técnica COISA para melhorar o networking
Durante a conversa, Minarelli apresentou a técnica COISA, que organiza uma conversa profissional em cinco tipos de pedido. A proposta é trocar mensagens vagas, como “se souber de alguma coisa, me avise”, por perguntas específicas que permitam ao outro ajudar de maneira prática.
As letras significam C de conselhos, O de orientações, I de informações, S de sugestões e A de aproximações ou apresentações. Uma pessoa que procura uma mudança profissional pode perguntar a um contato experiente qual caminho ele recomenda, que informação possui sobre um setor ou com quem valeria a pena conversar.
O ponto central é não transferir a busca por trabalho para o amigo. Em vez de pedir que ele encontre uma vaga, o profissional procura aprender com a experiência do interlocutor e, quando a conversa permite, obter uma apresentação a alguém que possa acrescentar conhecimento ou abrir portas.
“O COISA, na realidade, hoje, é um prompt”, brincou Minarelli, ao relacionar sua técnica à prática de fazer boas perguntas a ferramentas de inteligência artificial. Nos dois casos, quanto mais claro for o pedido, mais útil tende a ser a resposta.
Empregabilidade vai muito além de ter um bom currículo
Autor do livro Empregabilidade, Minarelli defende que um profissional precisa cuidar de sua capacidade de ser contratado antes de precisar procurar outro trabalho. Essa condição não depende exclusivamente de títulos ou experiências anteriores.
Seu modelo reúne seis pilares: adequação vocacional, competência profissional, idoneidade, saúde, reserva financeira e relacionamentos. Os elementos são descritos também em materiais da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo. Na entrevista, Minarelli deu especial atenção ao alinhamento entre a profissão e aquilo que a pessoa gosta de fazer.
Ele comparou a atualização profissional ao esforço de subir uma escada rolante que está descendo. Mesmo para permanecer no mesmo lugar, é necessário continuar aprendendo. Novas tecnologias, processos e exigências alteram o tipo de problema que as empresas precisam resolver; o profissional que deixa de se desenvolver corre o risco de perder relevância.
O conselho de José Augusto Minarelli para quem está começando
Além de atuar em consultoria de carreira, Minarelli preside o Conselho de Administração do CIEE, instituição ligada ao acesso de estudantes e jovens ao mundo profissional. Ao falar da primeira experiência de trabalho, ele ressaltou a importância dos programas de estágio e aprendizagem.
Na opinião do especialista, os jovens precisam combinar ambição com paciência para desenvolver uma base sólida. A convivência com colegas experientes, o aprendizado das rotinas e a oportunidade de colocar em prática o que se estuda ajudam a formar profissionais capazes de assumir responsabilidades maiores.
Minarelli também dirigiu um recado às empresas que reclamam da falta de mão de obra preparada: participar da formação de jovens pode ser parte da solução. A contratação de aprendizes e estagiários permite que novos talentos conheçam o ambiente de trabalho e que as organizações contribuam para desenvolver os profissionais de que precisarão no futuro.
O que uma viagem à China ensinou sobre a carreira
Na parte final da entrevista, Marcelo Nóbrega pediu que Minarelli comentasse uma viagem recente que os dois haviam feito à China com profissionais de recursos humanos. O convidado contou que se impressionou com a infraestrutura, a organização das empresas visitadas e a atenção dada à inovação, à educação e ao empreendedorismo.
Um dos aprendizados que destacou foi a disposição de experimentar, corrigir e seguir adiante. Ele relacionou essa postura ao desenvolvimento profissional: para continuar relevante, não basta repetir o que já se sabe fazer. É necessário aprender, pedir orientação e colocar novas habilidades em prática.
Assista à entrevista completa com José Augusto Minarelli
No podcast Você Está Contratado!, Marcelo Nóbrega conversa com José Augusto Minarelli sobre demissão, outplacement, empregabilidade, networking, recolocação profissional, formação de jovens e aprendizados de uma viagem à China. O episódio foi gravado nos estúdios da Younik. Assista ao vídeo completo abaixo.










