Uma pessoa da minha família, mais velha do que eu, caiu.
Foi no quarto da casa, algo aparentemente leve, mas levou a um osso quebrado, cirurgia e dias de hospitalização.
Em visita, dei tanto conselho que cheguei a cansar.
Velhos e velhas precisam tomar cuidado e toda a longa lista correspondente.
Pois é.
Uma semana depois, tropecei numa das calçadas esburacadas do bairro.
Fui.
Achei que não ia.
Coloquei a mão à frente.
Deus sabe como, o pior impacto foi no rosto.
Por sorte, gente boa há em todo lado. Ajudaram-me a levantar, levaram-me para o saguão de uma empresa, serviram-me água. Um funcionário acompanhou-me ao Pilates ali perto. Chamaram-me um carro de aplicativo e voltei para casa.
Rosto e queixo inchados, joelho e mão esfolados, orgulho afundado.
Passei alguns dias pensando na quantidade de conselhos que damos aos velhos.
Cuidado com a escada.
Cuidado com o banheiro.
Cuidado com o tapete.
Cuidado com o chão molhado.
Cuidado para não cair.
Como se envelhecer fosse, sobretudo, aprender a evitar armadilhas.
Mas há armadilhas que não escolhemos.
Uma calçada esburacada não é resultado de uma distração minha. Uma cidade mal cuidada também pode transformar uma caminhada comum em acidente.
Talvez seja mais fácil dizer ao velho que tome cuidado do que perguntar por que ele precisa andar desviando de buracos.
Eu mesma fiz isso.
Primeiro com a pessoa da minha família.
Depois, comigo.
Talvez haja uma diferença entre cuidar e cercar alguém de cuidados. Entre alertar para um risco e transformar o medo de cair em regra para viver.
Afinal, não podemos eliminar todos os riscos da vida.
E, se tentarmos, talvez acabemos eliminando também alguns dos prazeres que fazem a vida valer a pena.
A diferença é que, desta vez, além de cair, fiquei com a língua de trapo funcionando.
Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.









