Política

Barulho seletivo


Chega mais uma eleição e, mais uma vez, alguns temas morais dominam o debate. Discursos inflamados, promessas de defender a família, os bons costumes e a moral.


Enquanto isso, problemas concretos seguem em segundo plano.


Meninas vítimas de estupro enfrentam obstáculos até para exercer direitos previstos em lei. Mulheres continuam sendo assassinadas por parceiros e ex-parceiros. Crianças e adolescentes sofrem violência sexual, quase sempre praticada por pessoas que conhecem, justamente nos lugares onde deveriam estar mais protegidas.


Os abusadores raramente são monstros desconhecidos. Muitas vezes são pais, padrastos, avôs, tios, parentes ou pessoas próximas da família. Alguns até ocupam posições destacadas na sociedade e na política. Ainda assim, esse tema raramente ocupa o centro dos discursos indignados.


Há um barulho seletivo.


É mais fácil vigiar o corpo das vítimas do que enfrentar quem as violenta. Mais fácil transformar costumes em bandeiras eleitorais do que fortalecer a prevenção, a investigação, o acolhimento e a responsabilização dos agressores.


O que mais me inquieta é ver homens e mulheres idosos engrossando esse coro. A idade não nos torna automaticamente mais lúcidos nem mais justos. A experiência só vale a pena quando nos torna mais sensíveis ao sofrimento humano e menos prisioneiros de certezas morais.


Grita-se muito sobre moral.


Silencia-se diante da violência que acontece dentro de casa.


Enquanto isso, crianças continuam sendo abusadas, mulheres continuam sendo assassinadas e meninas estupradas continuam tendo seus direitos questionados.


Talvez o problema nunca tenha sido a moral.


Talvez tenha sido a escolha de quem merece nossa indignação.

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco  décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.