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Às vésperas dos 50 anos, documentário cria um “museu em vídeo” de CHiPs

Produção de 1h15 reúne imagens raras, depoimentos do elenco original e a história da série no Brasil; roteirista Philippe Maia conta como a paixão de infância influenciou sua carreira na dublagem

Em 15 de setembro de 1977, a rede norte-americana NBC exibia pela primeira vez as aventuras dos patrulheiros rodoviários Jon Baker e Frank “Ponch” Poncherello. Exatos 49 anos depois, CHiPs permanece viva na memória de quem cresceu acompanhando suas perseguições, resgates e histórias de companheirismo. No Brasil, essa relação ganhou proporções ainda maiores, atravessando a televisão, a dublagem, os brinquedos e até as escolhas profissionais de parte do público.

Essa história é recuperada em “O Legado de CHiPs no Brasil: O Documentário Definitivo!”, produção do canal Coleção em Ação Show disponível gratuitamente no YouTube. Com 1h15 de duração, o filme levou mais de três anos para ser concluído e tem roteiro de Teily Fabio e Philippe Maia, com apresentação de Teily.

Mais do que relembrar episódios ou enumerar curiosidades, o documentário procura mostrar como uma série policial produzida nos Estados Unidos se transformou em um fenômeno cultural brasileiro. O filme percorre os bastidores da produção original, a formação do elenco, a evolução da trilha sonora, a dublagem nacional, os brinquedos da Glasslite e a inesquecível visita de Larry Wilcox ao Brasil.

Da infância à profissão

Para Philippe Maia, a relação com CHiPs começou muito antes do documentário. Ator, dublador, escritor e diretor de dublagem, ele tinha apenas três ou quatro anos quando começou a acompanhar a série.

CHiPs faz parte da minha história desde uma criança muito pequena. Foi a primeira série que assisti, que moldou o meu gosto e me fez ter apreço pelo heroísmo, pelo combate ao crime e pelos policiais ajudando as crianças”, conta.

Naquele período, a produção havia se transformado em uma febre. Crianças vestiam uniformes inspirados nos patrulheiros, brincavam com motocicletas e acessórios e imaginavam fazer parte da California Highway Patrol. Philippe cresceu, conheceu outros personagens e acompanhou novas produções, mas nunca rompeu a ligação com Jon e Ponch.

Por volta dos 18 anos, ele voltou a assistir à série com outro olhar. A nostalgia começou a dividir espaço com uma preocupação: preservar uma história que se tornava cada vez mais distante no tempo.

Essa influência também chegaria à sua vida profissional.

CHiPs me trouxe a minha profissão. Eu acabei virando dublador muito por causa dela”, revela.

A ligação ganhou um significado ainda mais especial quando Philippe se tornou aluno de Hamilton Ricardo, responsável pela voz brasileira de Jon Baker a partir da segunda temporada. O homem que dublava um de seus heróis de infância se tornaria um de seus principais professores.

“Está tudo interligado”, resume.

Três anos de pesquisa e uma rede internacional

Além de dividir o roteiro com Teily Fabio, Philippe trabalhou como curador do acervo utilizado no documentário. Foi ele quem estabeleceu a conexão entre atores, dubladores, fãs e pesquisadores de diferentes países.

“Eu fui talvez o elo de ligação entre todas as partes envolvidas”, afirma.

Philippe viajou aos Estados Unidos para gravar Larry Wilcox e Erik Estrada, intérpretes de Jon Baker e Frank Poncherello. Paul Linke, responsável pelo policial Grossman e amigo pessoal do roteirista, também enviou um depoimento especial para a produção.

O documentário conta ainda com a participação de fãs internacionais e utiliza materiais preservados há décadas. Um deles é Larry Sherrod, colecionador do Texas que enviava fitas com raridades da série para Philippe desde o final dos anos 1990.

Por acompanhar de perto todo o processo, o roteirista diz que não foi surpreendido por uma imagem ou informação específica. O impacto apareceu quando todas as peças finalmente foram reunidas.

“Eu me surpreendi com a junção de tudo isso: a edição final, todos esses elementos, o sucesso da série no Brasil e as raridades internacionais funcionando juntas.”

A produção também criou uma nova versão do tema musical de CHiPs, interpretada por artistas brasileiros e utilizada na abertura e no encerramento. Na avaliação de Philippe, o resultado alcançou “nível cinematográfico”.

O fenômeno brasileiro

CHiPs chegou ao Brasil em 1979 pela TVS, emissora de Silvio Santos que posteriormente daria origem ao SBT. A série também passou pela Record, Bandeirantes e Manchete, permanecendo por aproximadamente 14 anos consecutivos na televisão brasileira antes de retornar em canais pagos.

Entretanto, sua presença não ficou restrita à programação televisiva.

A Glasslite lançou motocicletas, capacetes, uniformes, jogos e diferentes acessórios inspirados nos personagens. A empresa também criou o Clube CHiPs, que transformava crianças em “patrulheiros mirins” por meio de carteirinhas enviadas pelo correio.

Em 1982, quando a série vivia o auge de sua popularidade no país, Larry Wilcox veio ao Brasil e participou do programa de Silvio Santos. Durante a passagem, o ator conheceu Hamilton Ricardo, sua voz brasileira, encontrou o ator Carlos Miranda, protagonista do seriado nacional O Vigilante Rodoviário, e participou de campanhas publicitárias dos brinquedos da Glasslite.

Parte desse material, que por muito tempo permaneceu espalhado em arquivos particulares e antigas gravações televisivas, reaparece no documentário.

A dublagem ocupa outro espaço importante. O filme reúne depoimentos de profissionais como Ricardo Marigo, Carlos Campanile, Leonardo Camillo, Orlando Viggiani, Wendel Bezerra, Márcio Dondi e Manolo Rey.

Há também um registro especialmente valioso de Márcia Gomes, voz da patrulheira Bonnie Clark. A dubladora deixou um depoimento sobre sua participação na série antes de morrer, transformando sua presença no filme em parte da própria preservação da história da dublagem brasileira.

Histórias que ajudavam a formar valores

Na avaliação de Philippe Maia, revisitar uma produção como CHiPs não significa apenas sentir saudade da televisão do passado. Ele acredita que séries daquele período procuravam transmitir valores como heroísmo, fidelidade, companheirismo e disposição para ajudar o próximo.

“Talvez a gente tenha que olhar mais para o passado para buscar bons exemplos, bons valores e histórias de qualidade”, afirma.

Criada também para alcançar o público infantil, CHiPs apresentava policiais que solucionavam conflitos utilizando mais inteligência e habilidade do que violência. Os episódios geralmente terminavam com alguma lição e podiam ser acompanhados por toda a família.

O documentário apresenta relatos de pessoas que escolheram a carreira policial inspiradas por Jon, Ponch e seus companheiros. Outras receberam nomes como Erik e Cindy por causa dos atores ou personagens. Atualmente, o Clube CHiPs Brasil preserva motocicletas, uniformes e viaturas semelhantes às utilizadas na série e participa de visitas a hospitais, asilos e ações beneficentes.

É nesse ponto que o “legado” do título deixa de representar apenas a permanência de uma produção televisiva e passa a alcançar a vida de quem a assistiu.

Um museu construído em vídeo

O documentário não esconde o lugar de onde nasceu. É uma produção realizada por admiradores e assumida por Philippe como uma declaração de amor. Ao mesmo tempo, seus criadores procuraram organizar os registros com um olhar profissional e uma linguagem capaz de alcançar quem não viveu o fenômeno original.

Philippe trabalha com televisão há cerca de 30 anos e utilizou essa experiência para combinar a memória afetiva com a construção de um registro histórico.

“Eu aproveitei a oportunidade de ter tudo isso junto e ser a pessoa que criou um museu em vídeo de CHiPs para mostrar às novas gerações”, define.

Segundo ele, jovens que acompanham seu trabalho ficaram curiosos e começaram a procurar a série depois de conhecer o projeto. Para o roteirista, essa renovação do público é uma das maiores recompensas de todo o processo.

Às vésperas de completar meio século, em 2027, CHiPs continua reunindo gerações em torno de suas motocicletas, de sua trilha sonora e de uma ideia de heroísmo construída quando a televisão ainda concentrava famílias inteiras diante de uma única tela.

E o trabalho de preservação pode não ter terminado. Philippe Maia admite que uma segunda parte do documentário poderá ser produzida no futuro.

Enquanto isso, “O Legado de CHiPs no Brasil: O Documentário Definitivo!” pode ser assistido gratuitamente no canal Coleção em Ação Show, no YouTube: assista ao documentário.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo