Comportamento Humano

Amarrar cachorro com linguiça

Homem e menino dividem tarefas domésticas em uma cozinha de família, simbolizando a educação para o respeito e o cuidado

Minha mãe usava essa expressão para se referir a tempos antigos. Tão antigos que nem dava para imaginar.

Quando menina, eu ria. Tinha cachorro e sabia que isso nunca seria possível.

Parei de rir há pouco tempo, ao ler declarações de homens e mulheres condenando o feminismo. O feminismo como eles o entendem, claro. Não a luta por direitos e equidade, mas uma ameaça à natureza.

Vivi para ler uma mulher jovem afirmar que feminicídio não existe e que o homem é violento por natureza, podendo chegar a matar. Isso num país de números assustadores. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios: mais de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. E esse número não inclui as que sobreviveram às tentativas.

São vidas interrompidas, famílias destroçadas, crianças que perdem as mães. E ainda há quem negue o problema.

Olho em volta e vejo homens levando ou buscando crianças na escola, trocando fraldas, cuidando de pessoas idosas com respeito. Homens que dividem tarefas e assumem responsabilidades sem acreditar que cuidar diminua sua masculinidade.

Como conciliar essas duas realidades? De um lado, homens que exercem o cuidado e constroem relações de respeito. De outro, discursos que apresentam a violência masculina como inevitável, quase um direito inscrito na natureza.

Não. A violência não é destino biológico. É preciso olhar para a educação, para os modelos de masculinidade e para o que ensinamos aos meninos sobre poder, desejo, frustração e mulheres.

E nós, que educamos? Nós, que nos calamos diante de uma piada machista, ensinamos meninas a se protegerem sem ensinar meninos a respeitar e confundimos autoridade com obediência?

Também temos responsabilidade pela educação que muitos jovens recebem. Isso não significa que sejamos culpados pela violência praticada por outros, mas que não podemos fingir que nossas atitudes e nossos silêncios não têm consequências.

Não basta condenar o feminicídio depois que acontece, nem defender o feminismo apenas quando a violência atinge alguém próximo.

É preciso educar para o respeito antes que seja tarde. E parar de amarrar cachorros com linguiça, como se não tivéssemos nada a ver com o que acontece depois.

Fonte do dado: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2026 (via Agência Brasil).

Retrato de Vera Lucia Vaccari

Vera Lucia Vaccari é psicóloga, psicoterapeuta, mestre em Saúde Pública, professora, tradutora e escritora. Há mais de cinco décadas escuta histórias e escreve sobre o que o tempo faz com as pessoas, os vínculos e a vida cotidiana.