Microfone Imaginário

Reclamações pelo rádio

Pintura em óleo de um radialista com microfone, cercado por cenas do cotidiano paulistano e reclamações de moradores

Em uma cidade que não tem sossego, até o canto dos sabiás incomoda. Eles costumam piar nas madrugadas e assim atrair as fêmeas para o acasalamento.

O namoro dos pássaros costuma acontecer entre agosto e novembro, deveria ser visto com romantismo, mas não é bem assim, há pessoas que reclamam.

Durante anos apresentei programas de rádio, em um deles, recebia dos ouvintes queixas e reclamações sobre a cidade.

Reclamavam com toda a razão, porque os prefeitos prometem mesmo sabendo que não conseguirão cumprir, eles sabem que o cobertor de verbas é curto.

Há também o lado sarcástico por parte do público que é o gosto de reclamar para poder ouvir a própria voz no rádio, além da oportunidade de um desabafo.

Reclamam de tudo; dos buracos nas ruas, da coleta de lixo que atrasa e às vezes nem passa, do vazamento de água que ninguém conserta.

Até questões pessoais querem que o radialista resolva, mas existem situações que não há como remediar. Vou tentar citar um exemplo com bom humor.

O vizinho do apartamento do andar de cima, aumenta o volume da televisão na hora do jogo e o vizinho do apartamento de baixo, gosta de dormir cedo.

O de cima xinga o árbitro, os jogadores do seu clube e do time adversário, ele irrita o outro morador que precisa dormir para acordar cedinho no dia seguinte.

Na hora do gol, o paspalho grita como um louco, dá urros de felicidade e, se for final de campeonato, sem exagero, costuma até soltar rojões.

Aquele que perdeu o sono liga para a rádio, e nós, o que podemos fazer? Colocamos a reclamação no ar, mas a solução precisa vir entre as partes.

Mesmo assim aquele que reclama fica esperançoso. Quem sabe, o vizinho de cima tenha ouvido e, preocupado, se emende. Acha? Deus nos ouça!

Sono, ou a falta dele, é assunto recorrente entre os ouvintes de rádio. Contei no começo do cidadão que certa vez ligou para reclamar do sabiá-laranjeira.

Pois é! De uma árvore em frente à sua janela, a cantoria começava por volta das três e meia e prosseguia até o dia clarear.

Nem aqueles que moram próximos a cemitérios conseguem dormir bem, embora todos saibam que a vizinhança em frente não faz barulho.

Certa vez, um galo que seria sacrificado em um ritual em frente a um dos portões de uma necrópole, conseguiu fugir.

O galináceo passou a viver e ciscar entre os túmulos e nas madrugadas soltava o seu canto. Acredite se quiser, reclamaram do galo!

Os paulistanos reclamam de tudo! As madrugadas estão cada vez mais barulhentas e até guarda noturno causa incômodo à cidade dos insones.

Geraldo Nunes, colunista da Younik

Geraldo Nunes é jornalista profissional, escritor e radialista premiado. Na saudosa Rádio Eldorado, além de repórter aéreo, apresentou o programa São Paulo de Todos os Tempos, onde se fez cronista da cidade, premiado pela APCA e com o Colar Guilherme de Almeida. Da Câmara Municipal recebeu a Medalha Anchieta e o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. Integra a Academia Paulista de História, Academia Cristã de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é membro honorário da Força Aérea Brasileira – FAB.