No meio de vídeos, notícias e discussões que parecem não acabar, quatro perfis brasileiros mostram que um quadrinho ainda pode interromper a rolagem da tela. Às vezes basta um desenho simples, uma frase atravessada ou uma boa ironia para fazer a gente rir e pensar.
Se tem uma coisa de que o Instagram não precisa é mais gente repetindo opiniões com a mesma imagem de fundo. Por isso, quando um cartunista aparece com uma maneira própria de enxergar o comportamento humano, a política ou nossas pequenas contradições, vale prestar atenção. Os quadrinhos conseguem algo que muitos textos enormes não fazem: apresentar uma situação, provocar uma reação e deixar a interpretação por conta de quem lê.
Separei quatro contas brasileiras que merecem uma visita. Não é um ranking de popularidade nem uma tentativa de comparar artistas que fazem trabalhos diferentes. É uma seleção de perfis cujas publicações chamam atenção pelo desenho, pelo humor e pelas perguntas que deixam no ar.
1. Tom Cotrim: a ironia que cabe em poucos traços
O desenho de Tom Cotrim muitas vezes parece despretensioso: linhas soltas, cores discretas e personagens que não precisam de grandes expressões para dizer bastante. No exemplo que acompanha esta matéria, um homem ajoelhado olha para o alto e recebe a resposta: “Vá pedir para o seu candidato!”. A graça aparece no encontro entre uma cena de súplica e o cansaço com a política transformada em solução para absolutamente tudo.
É uma crítica que funciona justamente pela economia de elementos. Não precisa desenhar um palanque, uma multidão ou o rosto de um político. O leitor completa a cena sozinho, provavelmente lembrando de alguma promessa eleitoral que nunca saiu do papel.

Para conhecer outros trabalhos, acesse @tomcotrim_ no Instagram.
2. Will Desenha: humor que não pede licença
No perfil Will Desenha, a linguagem é outra. Personagens de aparência simples, cores fortes, expressões exageradas e um ritmo visual que lembra as reações instantâneas da internet. O exemplo selecionado brinca com aquela cobrança conhecida: “Mas você tem que se posicionar politicamente…”. A resposta chega sem nenhuma disposição para uma discussão educada.
A charge é direta, escrachada e reconhecível para quem já foi pressionado a transformar toda conversa, publicação ou encontro em declaração partidária. O humor está no exagero. E também no fato de que muita gente provavelmente já pensou em responder algo parecido, embora tenha escolhido a alternativa socialmente mais prudente: ficar quieta.

Veja mais publicações em @willdesenha no Instagram.
3. Dito, o Bendito: diálogos absurdos para discutir certezas
O perfil Dito, o Bendito chama atenção por transformar conversas aparentemente bobas em pequenas provocações filosóficas. Numa sequência de quatro quadros, o personagem Leco, um peixinho num aquário, afirma que a verdade é uma só: a dele. O interlocutor reage perguntando se poderia alugá-la, caso um dia precisasse usar.
A piada é boa porque transforma uma discussão abstrata em algo ridiculamente concreto. Se alguém é dono da verdade, será que cobra aluguel? O desfecho ainda brinca com a ideia de propriedade, que obviamente não resolve o problema de quem confunde opinião pessoal com fato incontestável.

O perfil está em @ditoobendito no Instagram.
4. Caio Cocuruto: quadrinhos, colagem e provocação visual
Já Caio Cocuruto chama atenção por uma composição mais carregada, em que desenhos, recortes, texturas e palavras dividem o espaço. A imagem selecionada mistura um personagem, uma figura enjaulada, um livro e uma frase provocativa. É um trabalho que parece pedir ao leitor para olhar duas vezes, primeiro para entender a composição, depois para interpretar a crítica.
Essa combinação de elementos dá ao quadrinho um aspecto próximo do cartaz e da colagem editorial. O texto não aparece apenas como legenda: faz parte do desenho, ajuda a determinar o ritmo da leitura e reforça a sensação de desconforto que a obra procura criar.

Conheça outras obras em @caiococuruto no Instagram.
O quadrinho brasileiro continua encontrando novas formas de conversar
Esses quatro perfis mostram como a linguagem dos quadrinhos pode assumir caminhos bastante diferentes no ambiente digital. Há quem aposte na delicadeza do traço, quem prefira o impacto da cor, quem construa diálogos com personagens recorrentes e quem faça da própria composição uma provocação. Nenhum desses formatos precisa de páginas e páginas para produzir efeito.
O Instagram pode ser um lugar cansativo, mas ainda oferece espaço para artistas que usam o desenho para formular perguntas e desafiar certezas. Vale visitar os quatro perfis, acompanhar as publicações e, quando algum trabalho fizer sentido, compartilhar indicando o autor. Uma arte que circula sem crédito pode até arrancar risadas; não ajuda muito quem a criou.
Fernando Vítolo é comunicador, jornalista, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










