• Home
  • Tecnologia
  • Projeto Hanna nasceu de um bot no Discord e hoje usa jogos para ensinar tecnologia
Tecnologia

Projeto Hanna nasceu de um bot no Discord e hoje usa jogos para ensinar tecnologia

Criada durante a pandemia, iniciativa de Marcus Natrielli reúne voluntários, desenvolve games e mostra que não é preciso saber programar para começar a participar de uma comunidade de tecnologia.

Antes de se tornar um projeto de ensino de tecnologia, a Hanna era um bot que fazia piadas, promovia jogos e animava conversas no Discord. A ideia surgiu durante a pandemia, quando Marcus Natrielli, então estudante de Ciência da Computação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, procurava uma maneira de manter os colegas conectados em meio à suspensão das atividades presenciais.

Marcus participava da organização de uma atividade de extensão universitária dedicada à segurança digital e ao hacking, assuntos que, segundo ele, recebiam pouca atenção na grade curricular. Com o isolamento social, percebeu que muitos estudantes, especialmente os recém-chegados à universidade, estavam sem saber como continuar os estudos e manter contato com os colegas.

“Grande parte tinha acabado de entrar na universidade e muitos até mudaram de endereço para estudar. De repente, tudo para e ninguém sabe bem o que fazer”, recorda.

A solução foi criar um espaço de convivência no Discord. Nascia o HackoonSpace, que posteriormente ganhou reconhecimento como entidade estudantil. Ali, Marcus começou a experimentar maneiras de estimular a participação dos alunos. Organizou aulas, eventos, pequenos campeonatos de videogame e desenvolveu um programa que interagia com os integrantes da comunidade.

Era a primeira versão da Hanna.

O software começou como um experimento de programação, mas as respostas positivas dos participantes fizeram Marcus enxergar possibilidades fora da universidade. Afinal, sua formação chegaria ao fim, e a comunidade precisaria continuar sem depender exclusivamente dele. O bot acabou se tornando parte de algo maior: o Projeto Hanna.

Hoje, a iniciativa reúne interessados em programação, desenvolvimento de jogos, segurança digital e outras áreas da computação. As atividades acontecem pela internet e em eventos presenciais, com a participação de voluntários de diferentes regiões do Brasil.

Aprender tecnologia sem precisar começar pelo código

Uma das preocupações de Marcus é evitar que o primeiro contato com a tecnologia seja intimidante. Isso não significa abandonar os conteúdos técnicos, mas encontrar maneiras de apresentá-los a pessoas com experiências e idades diferentes.

Na prática, a equipe parte de três perguntas: o que precisa ser feito, o que pode ser ensinado durante a atividade e como tornar aquela experiência divertida ou relevante para quem participa.

Um exemplo aconteceu durante uma edição da Campus Party Brasil. O grupo precisava atrair visitantes à sua bancada e apresentar conteúdos de tecnologia em poucos minutos. A solução foi combinar perguntas sobre computação e programação com um jogo gratuito que podia ser experimentado nos computadores disponíveis. Quem participava concorria a brindes, como chaveiros e adesivos da personagem Hanna.

A proposta funcionou como uma porta de entrada para assuntos que, numa aula convencional, poderiam afastar parte do público.

Para participar, porém, ninguém precisa chegar sabendo escrever uma linha de código.

“Nosso grupo é bem aberto, para pessoas de diversos níveis técnicos. O maior critério, em verdade, é o querer aprender e ter disponibilidade para participar das nossas atividades”, explica Marcus.

O caminho mais simples para conhecer a comunidade é acompanhar os conteúdos publicados no Instagram e no YouTube e ingressar nos grupos de WhatsApp e Discord, onde são divulgados encontros, transmissões ao vivo e oportunidades de participação.

Uma artista, uma bióloga e um estudante de linguística

As histórias dos participantes ajudam a entender como a comunidade funciona. Uma delas é a de Magda, artista pernambucana que trabalha com encomendas de ilustrações digitais e começou a colaborar com o projeto produzindo artes da personagem Hanna.

A participação cresceu. Ela chegou a emprestar sua voz à personagem em vídeos, acompanhou aulas e transmissões e, quando surgiu a oportunidade de organizar uma atividade presencial perto de sua cidade, assumiu tarefas que iam muito além da ilustração.

Como boa parte da equipe estava em São Paulo, Magda e outros integrantes ficaram responsáveis pela organização local. Ela atuou como apresentadora, entrevistadora e produtora de conteúdo, além de mostrar ao público alguns trabalhos da comunidade, incluindo um jogo ainda em desenvolvimento.

Outros exemplos vêm de áreas aparentemente distantes da computação. Ana, formada em Biologia, aprendeu a programar, passou a produzir conteúdos sobre bioinformática e participa do desenvolvimento de um projeto ainda não anunciado. Breno, estudante de Linguística, aprofundou seus conhecimentos em inteligência artificial e modelos de linguagem, chegando a desenvolver artigos científicos na área.

Os três casos ilustram uma característica que Marcus procura preservar: cada participante pode contribuir com aquilo que já sabe enquanto aprende alguma coisa nova.

Atualmente, o Projeto Hanna conta com cerca de 12 voluntários que colaboram regularmente e outros 15 que participam de maneira esporádica. Nos canais digitais, a comunidade reúne entre 50 e 100 membros, segundo Marcus.

O acompanhamento dos resultados não depende de provas ou certificados. A equipe observa a evolução dos integrantes, os projetos desenvolvidos, as oportunidades profissionais conquistadas e os relatos de quem encontrou ali um espaço para aprender.

“Cada vaga de emprego, trabalho derivado e oportunidade que acompanhamos deles é uma conquista para nós também”, afirma.

O desafio de manter uma comunidade funcionando

Embora tenha começado com brincadeiras e atividades recreativas, o projeto enfrenta problemas bastante concretos. O principal deles é conciliar a disponibilidade de pessoas que estudam, trabalham, cuidam da família e moram em cidades diferentes.

Marcus cita uma dificuldade recorrente: muitos integrantes são de Sorocaba, enquanto boa parte dos eventos de tecnologia acontece na capital paulista. Organizar deslocamentos e atividades que contemplem o maior número possível de voluntários exige negociação e planejamento.

Nem sempre dá certo.

“Sabemos que, às vezes, apenas alguns poucos vão poder participar. Mas continuamos tentando e oferecendo mais e mais espaços para todos terem oportunidades”, conta.

Há também uma preocupação com a continuidade da iniciativa. Marcus prefere manter uma estrutura que consiga funcionar por anos a buscar um crescimento acelerado que a equipe não tenha condições de sustentar.

É nesse ponto que ele faz uma ressalva à própria proposta de aprender com diversão. Jogos, encontros descontraídos e atividades criativas ajudam a despertar o interesse, mas não substituem disciplina e organização.

A recomendação vale especialmente para quem está começando a estudar tecnologia e enfrenta dificuldades para acompanhar os conteúdos.

“Acompanhe seu progresso. Anote dificuldades. Entenda o que você gosta e não gosta, e planeje em qual patamar você quer chegar”, aconselha.

Ele também chama a atenção para a tendência de estudantes compararem seu desempenho ao de outras pessoas. Na avaliação de Marcus, a diversidade de especialidades permite encontrar caminhos diferentes dentro da computação. Conhece, por exemplo, profissionais formados em programação que acabaram trabalhando com gestão, recursos humanos ou outras atividades, mantendo o código apenas como passatempo.

Próximos passos incluem novos eventos e sustentabilidade financeira

O Projeto Hanna pretende ampliar iniciativas realizadas em 2026, entre elas o HannaDay, evento presencial organizado pela comunidade, e os conteúdos de orientação sobre segurança na internet. Uma das ações nessa área envolve a produção de histórias em quadrinhos para apresentar o tema de maneira acessível.

O portfólio da iniciativa também inclui softwares educativos, ferramentas para o Discord e jogos como o Endless Runner, disponibilizado para computadores e dispositivos Android.

A principal preocupação para os próximos anos, entretanto, é financeira. O grupo procura formas de custear recursos necessários às atividades e, futuramente, remunerar os voluntários que dedicam parte do próprio tempo à comunidade.

Marcus reconhece que há entraves burocráticos e limitações de tempo para colocar os planos em prática. Por enquanto, o trabalho depende da colaboração dos integrantes e da disposição para manter as atividades.

Ao falar sobre o futuro da Hanna, ele evita anunciar projetos que ainda não estão prontos. Prefere destacar o que considera indispensável para continuar.

“O que eu garanto que temos é o mais importante: pessoas que acreditam que dará certo.”

Para conhecer o Projeto Hanna: www.projetohanna.com

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo