Em entrevista a Heródoto Barbeiro no Jornal da NovaBrasil, Dr. Álvaro Lopes de Oliveira explica como identificar o adenocarcinoma pulmonar, quais exames ajudam no diagnóstico e quando a cirurgia pode ser suficiente para tratar a doença
Uma pessoa pode desenvolver câncer de pulmão sem apresentar tosse, falta de ar ou qualquer outro sintoma. Em alguns casos, a doença avança silenciosamente e só é identificada durante exames realizados por outros motivos. Foi esse um dos principais alertas feitos pelo médico Álvaro Lopes de Oliveira, do A.C.Camargo Cancer Center, durante entrevista ao jornalista Heródoto Barbeiro, no Jornal da NovaBrasil.
A conversa aconteceu após a divulgação do diagnóstico de câncer de pulmão do papa Leão XIV, submetido a uma cirurgia no Hospital Gemelli, em Roma, no dia 13 de outubro. O Vaticano confirmou que o pontífice, de 71 anos, foi diagnosticado com adenocarcinoma pulmonar, um dos tipos mais frequentes da doença.
Heródoto quis saber se esse tipo de câncer é particularmente agressivo e como costuma se manifestar. O especialista explicou que o adenocarcinoma representa aproximadamente metade dos diagnósticos de câncer de pulmão e pode atingir tanto fumantes quanto pessoas que nunca tiveram o hábito de fumar.
O problema é que nem sempre o organismo dá sinais de que alguma coisa está errada.
“Muitos pacientes podem não sentir absolutamente nada”, afirmou o médico.
Segundo ele, quando aparecem, os sintomas podem incluir tosse persistente, falta de ar, presença de sangue ao tossir e dor no peito. A ausência dessas manifestações, entretanto, não significa que a pessoa esteja livre da doença.
Como o câncer de pulmão é descoberto?
Durante a entrevista, Heródoto perguntou quais exames devem ser realizados quando existe suspeita de câncer pulmonar.
Álvaro explicou que a tomografia computadorizada de tórax é um dos principais recursos utilizados para investigar alterações nos pulmões. O exame permite identificar nódulos, avaliar suas características e orientar os próximos passos da investigação.
A detecção precoce merece atenção especial porque o estágio em que o câncer é identificado influencia diretamente as possibilidades de tratamento.
O médico também destacou a importância do rastreamento em pessoas com histórico significativo de tabagismo.
Diretrizes internacionais recomendam a realização anual de tomografia de baixa dose para determinados grupos de risco, especialmente pessoas entre 50 e 80 anos com histórico de consumo de pelo menos 20 maços-ano, incluindo fumantes atuais e aqueles que deixaram o cigarro há menos de 15 anos.
Um maço-ano corresponde ao consumo de um maço de cigarros por dia durante um ano. Assim, uma pessoa que fumou um maço diariamente por 20 anos acumula 20 maços-ano. O mesmo ocorre com quem fumou dois maços por dia durante dez anos.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) esclarece que o rastreamento não é recomendado indiscriminadamente para toda a população. A indicação deve considerar o histórico do paciente, seus fatores de risco e os possíveis benefícios e consequências da investigação.
Outro ponto importante: o cigarro continua sendo o principal fator de risco para o câncer de pulmão, mas não é o único. Pessoas que nunca fumaram também podem desenvolver a doença, como destacou Álvaro durante a entrevista.
Quando a cirurgia é suficiente para tratar o câncer de pulmão?
A decisão de operar um tumor pulmonar depende de uma série de fatores. Entre eles estão o tamanho da lesão, sua localização, o comprometimento de outras estruturas e a capacidade respiratória do paciente.
Álvaro explicou que tumores pequenos, especialmente aqueles com menos de três centímetros e identificados em estágios iniciais, podem ser tratados cirurgicamente quando o paciente apresenta condições clínicas adequadas.
Nesses casos, uma equipe médica avalia a possibilidade de retirar a lesão e, posteriormente, acompanha a evolução por exames de imagem.
Mas nem sempre a cirurgia encerra o tratamento.
Quando o tumor apresenta características de maior risco, como tamanho elevado ou comprometimento de outras estruturas, pode ser necessário complementar a operação com quimioterapia, imunoterapia ou medicamentos direcionados a alterações específicas das células cancerígenas.
Na entrevista, o especialista mencionou especialmente os tumores maiores que quatro centímetros como situações em que tratamentos complementares precisam ser considerados.
O tamanho, porém, não é o único critério. A decisão depende também da análise do material retirado, do estágio da doença e das condições gerais do paciente.
Foi justamente essa avaliação que Heródoto procurou compreender ao perguntar como os médicos determinam se um tumor é maligno ou benigno.
Como os médicos confirmam que um tumor é maligno?
A identificação de um nódulo no pulmão não significa, necessariamente, que exista câncer. Algumas lesões podem ser benignas, enquanto outras exigem investigação mais detalhada.
Para confirmar a presença de células cancerígenas, os médicos recorrem ao exame anatomopatológico, realizado por um patologista que analisa amostras do tecido suspeito ao microscópio.
Álvaro explicou que, em determinadas cirurgias, essa avaliação pode ocorrer durante o próprio procedimento, permitindo que a equipe obtenha informações importantes sobre a natureza da lesão.
O especialista considerou provável que uma análise desse tipo tivesse sido realizada durante a operação do papa Leão XIV.
A informação foi posteriormente confirmada pelo Vaticano. Segundo o boletim médico divulgado em 13 de outubro, o exame histológico realizado durante a cirurgia identificou adenocarcinoma pulmonar, conforme já suspeitavam os médicos responsáveis pelo caso.
Durante o procedimento, a equipe retirou o lobo inferior do pulmão direito do pontífice por meio de uma técnica videoassistida. A cirurgia durou aproximadamente 90 minutos e, segundo a Santa Sé, ocorreu sem complicações.
Papa Leão XIV recebe alta após cirurgia
O Vaticano informou neste sábado, 17 de outubro, que o papa Leão XIV apresentou evolução favorável e recebeu autorização médica para deixar o Hospital Gemelli.
A decisão foi tomada depois da análise de exames de sangue, de uma radiografia do tórax e da avaliação clínica do pontífice.
Segundo os médicos, a recuperação pós-operatória permitiu sua alta hospitalar quatro dias após a intervenção. O retorno à oração do Angelus, no domingo, 18 de outubro, está previsto para ocorrer da janela do apartamento pontifício.
Apesar da evolução positiva, a recuperação após uma cirurgia não determina, por si só, o prognóstico do câncer. A análise completa do tumor e dos demais exames é necessária para estabelecer o estágio da doença e verificar se haverá necessidade de tratamento complementar.
Na entrevista ao Jornal da NovaBrasil, Álvaro Lopes de Oliveira evitou fazer avaliações específicas sobre o prognóstico do papa. Suas explicações se concentraram nos procedimentos médicos habitualmente adotados em pacientes diagnosticados com adenocarcinoma pulmonar.
O cuidado é importante. Dois pacientes com o mesmo tipo de câncer podem receber tratamentos diferentes, dependendo das características do tumor e de suas condições de saúde.
Para o médico, compreender essas diferenças ajuda a explicar por que alguns casos são tratados apenas com cirurgia, enquanto outros exigem uma combinação de procedimentos.
Ao encerrar a conversa, Heródoto Barbeiro agradeceu ao especialista pela clareza das explicações e destacou a preocupação mundial com a recuperação do pontífice.
O caso de Leão XIV também chama atenção para uma característica particularmente preocupante do câncer de pulmão: a possibilidade de a doença permanecer sem sintomas por algum tempo. Por isso, pessoas com fatores de risco devem conversar com seus médicos sobre a necessidade de acompanhamento, mesmo quando aparentemente estão bem.










