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O dinheiro vai acabar?

Os pagamentos digitais estão ocupando o lugar das cédulas e moedas, mas o exemplo da Suécia mostra que uma sociedade sem dinheiro físico também pode enfrentar problemas.

Cartas, envelopes e selos já fizeram parte da rotina das pessoas. Hoje, embora ainda existam, foram substituídos em grande parte por e-mails, aplicativos de mensagens e documentos digitais. Será que o mesmo acontecerá com as cédulas e moedas?

Essa foi a provocação feita pelo jornalista Heródoto Barbeiro em sua coluna Tome Nota, no Jornal NovaBrasil. Ao abrir a carteira e não encontrar nenhuma nota ou moeda, ele levantou uma pergunta que provavelmente já passou pela cabeça de muita gente: o dinheiro vai acabar?

Antes de responder, é preciso fazer uma distinção. O dinheiro não é apenas a cédula que carregamos no bolso. O saldo disponível na conta bancária, os valores enviados pelo Pix e os pagamentos realizados com cartão também são dinheiro.

Portanto, o dinheiro não está desaparecendo. O que pode estar com os dias contados — pelo menos como principal forma de pagamento — é o dinheiro físico.

A carteira ficou vazia

Não faz muito tempo, sair de casa sem dinheiro na carteira poderia causar problemas. Hoje, uma pessoa pode passar o dia inteiro fazendo compras, pagando contas, usando o transporte e dividindo despesas sem tocar em uma única cédula.

O celular tornou-se carteira, banco, cartão e caixa eletrônico ao mesmo tempo. Essa mudança ganhou ainda mais velocidade no Brasil depois da criação do Pix.

Segundo o Banco Central, o Pix respondeu por 54,7% das transações de pagamento realizadas no segundo semestre de 2025. Outro levantamento mostra que ele se consolidou como o meio de pagamento preferido de 73% dos brasileiros, ocupando parte significativa do espaço antes pertencente ao dinheiro em espécie. (Banco Central)

A preferência é fácil de entender. O pagamento acontece em poucos segundos, funciona todos os dias e não exige troco. Para os comerciantes, também reduz a quantidade de dinheiro guardada no caixa e os riscos relacionados ao transporte de valores.

A Suécia está praticamente sem dinheiro?

Heródoto apresenta a Suécia como um dos exemplos mais avançados dessa transformação. No país, cartões e pagamentos pelo celular fazem parte da maioria absoluta das transações, e muitos estabelecimentos deixaram de aceitar cédulas e moedas.

Os números ajudam a entender o tamanho da mudança. Em 2025, apenas 5% dos entrevistados disseram ter usado dinheiro físico em sua compra mais recente em uma loja. Em 2010, essa proporção era de 40%. Somadas todas as modalidades, os cartões foram utilizados em aproximadamente 92% das compras presenciais mais recentes. (Banco Central da Suécia)

Isso não significa que nenhuma loja sueca aceite dinheiro. Ainda existem estabelecimentos que trabalham com notas e moedas, principalmente aqueles que vendem produtos essenciais. A aceitação, entretanto, diminuiu significativamente em diversos setores.

O movimento chegou a tal ponto que o país começou a discutir como preservar o próprio dinheiro físico.

Por que a Suécia quer proteger as cédulas?

A redução do uso do dinheiro trouxe praticidade, mas também revelou fragilidades.

Nem todas as pessoas têm a mesma facilidade para utilizar aplicativos, cartões e serviços bancários. Idosos, moradores de regiões afastadas, pessoas com deficiência e cidadãos sem acesso a contas bancárias podem encontrar dificuldades em uma sociedade completamente digital.

Também existe o risco de falhas na infraestrutura. Uma queda de energia, uma interrupção da internet, um ataque cibernético ou um problema no sistema bancário pode impedir milhares de pessoas de realizar pagamentos.

Diante disso, o governo sueco apresentou propostas para fortalecer a circulação de dinheiro e criar a obrigação de aceitação de pagamentos em espécie em supermercados e farmácias. O Banco Central da Suécia considera a medida importante para garantir que toda a população continue tendo meios de pagar por produtos essenciais. (Riksbank)

Em 2026, a instituição chegou a recomendar que cada adulto mantenha em casa mil coroas suecas em dinheiro, distribuídas em diferentes valores. A quantia serviria para cobrir aproximadamente uma semana de compras essenciais durante uma emergência. (Riksbank)

Ou seja, um dos países que mais avançaram na eliminação das cédulas agora tenta garantir que elas não desapareçam completamente.

O dinheiro digital também tem riscos

Os meios digitais são rápidos, convenientes e deixam registros das transações. Ao mesmo tempo, criam novas formas de dependência.

Se uma pessoa perde o celular, tem a conta bloqueada ou se torna vítima de um golpe, pode ficar temporariamente sem acesso ao próprio dinheiro. Além disso, toda transação digital deixa informações sobre onde, quando e como alguém gastou.

O dinheiro físico oferece uma forma de pagamento que não depende de bateria, senha, sinal de internet ou autorização de uma instituição financeira. Também ajuda algumas pessoas a controlar melhor os gastos, já que é possível visualizar concretamente quanto resta na carteira.

Por outro lado, cédulas podem ser perdidas, roubadas, falsificadas e utilizadas em atividades ilegais. Produzir, armazenar e transportar dinheiro também tem custo.

Não existe, portanto, uma solução perfeita. Existem diferentes formas de pagar, cada uma com vantagens e riscos.

E o Drex?

O desenvolvimento do Drex, a versão digital do real estudada pelo Banco Central, também aumentou as especulações sobre o fim das cédulas.

O Drex, porém, não deve ser confundido com o Pix. O Pix é uma forma instantânea de transferir dinheiro entre contas. O Drex é uma representação digital do real pensada para permitir novas operações financeiras e contratos digitais.

O próprio Banco Central informa que, a princípio, a implantação do Drex não deverá provocar um impacto significativo sobre a demanda por dinheiro físico. (Banco Central)

Não existe, portanto, uma decisão oficial de acabar com as notas e moedas brasileiras.

Afinal, o dinheiro vai acabar?

O dinheiro, não. As cédulas e moedas provavelmente serão cada vez menos utilizadas, assim como aconteceu com as cartas e os selos. Mas isso não significa que desaparecerão completamente em um futuro próximo.

O exemplo da Suécia mostra que uma sociedade quase sem dinheiro físico pode ser moderna e eficiente, mas também mais dependente de energia, internet, bancos e sistemas tecnológicos.

Talvez o futuro não seja escolher entre dinheiro físico ou digital, mas garantir que os dois continuem disponíveis.

A carteira pode até ficar vazia. O dinheiro apenas mudou de lugar.

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