Mundo Real

SE NÃO PODE VENCÊ-LOS, CONTRATE-OS

Primeiro eles eram um problema. Depois viraram uma pauta. Depois viraram um debate (bem curto e superficial). E agora… bem, agora viraram publicidade.

As chamadas “bets”, que até ontem eram tratadas como um fenômeno quase clandestino da internet, alvo de CPI, críticas inflamadas, alertas morais e um movimento que estava tirando grandes quantias de dinheiro de circular em nosso mercado, hoje passam por aí com a mesma tranquilidade de um comercial de margarina.

Mudou o problema ou mudou o interesse? A pergunta parece simples, mas a resposta é bem mais brasileira do que gostaríamos de admitir. Em tudo da-se um jeitinho.

Elas estão na internet, estão nas redes, da boca dos influenciadores, na mão dos jogadores, estão nos patrocínios e, claro, estão na televisão. Em alguns casos, não apenas como anunciantes mas como parte do próprio ecossistema. Sim, tem empresa abrindo bet.

E quando o dinheiro entra em cena, você já sabe o que acontece, o discurso sai pela porta dos fundos.

O crítico que virou silêncio

Em meio a esse cenário, um dos nomes que mais vocalizavam críticas ao universo das apostas online era o influenciador Felca. Voz ativa, conteúdo direto, posicionamento claro. Até que, de repente, silêncio.

Mais de 10 meses sem publicações regulares. Tem postagem no Instagram dele de foto. Agora virou modelo? Coincidência de calendário ou coincidência de contexto?

No mesmo período, o criador de conteúdo passa a integrar o time da Rede Globo, um dos maiores conglomerados de mídia do país, que, como outros grandes grupos, também abriu espaço comercial para o setor de apostas. Inclusive com iniciativas próprias ligadas ao segmento. E aí nasce o tipo de pergunta que ninguém responde diretamente, mas todo mundo observa em silêncio:

Quando você entra na grande engrenagem da mídia tradicional, você continua dizendo tudo o que dizia antes? Ou aprende, aos poucos, o idioma da convivência?

Silêncio estratégico ou maturidade profissional?

É claro que existem explicações óbvias e legítimas: mudança de fase, novos projetos, contratos, formatos, prioridades. Influenciadores não são máquinas de postagem contínua. E carreira muda mesmo. Mas também é igualmente legítimo observar como certos discursos parecem esfriar exatamente quando os ambientes mudam.

É um padrão. E padrões são perigosos justamente porque não precisam de anúncio oficial.

A nova era: crítica patrocinada

O mais curioso de tudo isso é que não estamos mais na era da censura explícita. Ninguém precisa dizer “você não pode falar disso”. Basta integrar, contratar e inserir. E quando você percebe, o crítico continua existindo, só que agora dentro do sistema que ele criticava. E sistemas são ótimos em uma coisa: absorver oposição sem necessariamente mudar de opinião.

E a Globo nisso tudo?

A pergunta que fica desconfortável, e por isso mesmo relevante, é: como se posiciona uma emissora que, ao mesmo tempo, abre espaço comercial para um setor altamente controverso e incorpora vozes que já foram críticas a ele?

Isso muda a crítica ou muda o crítico? Ou simplesmente muda o quanto a crítica pode ser dita em voz alta?

Virginia, contratos e novas vizinhanças

E já que o jogo é de convivência, não de confronto, surge outra curiosidade inevitável: quando antigos críticos passam a dividir o mesmo ambiente profissional com nomes associados ao mesmo universo de marcas e campanhas, o tom muda? As opiniões mudam? Ou só muda o volume?

No fim, sobra a pergunta incômoda

Talvez a frase que melhor resuma tudo isso não seja uma denúncia. as uma estratégia antiga com roupa nova:

“Se não pode vencê-los, contrate-os.”

Quando todo mundo está dentro do mesmo sistema, quem ainda consegue falar de fora dele?

No fim das contas, fica também um incômodo pessoal nesse cenário todo. Eu sempre fui um admirador do Felca pelas coisas que ele dizia, pela franqueza e pela coragem de bater em temas que muita gente evita. E talvez por isso a sensação atual gere estranheza. Prefiro, sinceramente, estar errado nessa leitura. Prefiro mesmo ver isso tudo como apenas uma fase. E que, em algum momento próximo, ele volte a falar com a mesma firmeza de antes, inclusive sobre as bets.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo