Se você tivesse que responder rapidamente: é pinguça, pingólatra ou pingófila?
Foi exatamente assim que começou a nossa conversa com Denise Marcolino, especialista em cachaça e uma das pessoas que mais defendem a valorização da bebida genuinamente brasileira. A resposta veio sem hesitar.
“Olha, acho que o mais certo é dizer que sou cachaceira e militante da cachaça. Uma apaixonada, que luta pelo fim do preconceito contra um dos ícones do nosso país.”
A entrevista, que começou em tom descontraído, rapidamente mostrou que a cachaça carrega muito mais história, cultura e qualidade do que a maioria dos brasileiros imagina.
Amor à primeira dose
Ao contrário de muita gente, Denise lembra exatamente quando se apaixonou pela bebida. Foi em Fernando de Noronha, há cerca de vinte anos.
Ela viu uma bebida de cor âmbar sendo servida e perguntou ao garçom do que se tratava. A resposta foi “Carvalheira”. Sem saber que era uma marca de cachaça, pediu uma dose.
“Foi encantamento no primeiro gole.”
Ela conta que sempre gostou de destilados, mas evitava a cachaça porque acreditava que fosse uma bebida inferior.
Como acontece com muitos brasileiros, seu preconceito vinha das experiências ruins com produtos industriais de baixa qualidade, normalmente usados em caipirinhas.
“Eu costumo dizer que tive muita sorte, pois a cachaça me escolheu. É amor pra toda vida.”
O preconceito ainda existe
Segundo Denise, o maior problema da cachaça continua sendo a falta de informação. Muita gente nunca experimentou uma boa cachaça artesanal e acaba julgando toda a categoria pelas versões de menor qualidade.
Ela também aponta outro fator importante: a fiscalização. Assim como em qualquer setor, existem bons e maus produtores. Quando o critério de compra é apenas o menor preço, o consumidor acaba tendo contato com bebidas que não representam o verdadeiro potencial da cachaça.
Afinal, combina com o quê?
Quem pensa que harmonização é assunto exclusivo dos vinhos pode se surpreender. Existe, sim, harmonização para cachaça.
Embora existam recomendações técnicas — cachaças mais jovens para pratos leves e envelhecidas para pratos mais intensos — Denise prefere simplificar.
“Na minha opinião, a cachaça combina com tudo, da entrada à sobremesa. Mas depende do gosto de cada pessoa.”
E ela ainda faz uma provocação que muitos brasileiros provavelmente aprovam:
“Quem não gosta de uma branquinha com uma feijoada?”
Envelhecida é sempre melhor?
Nem sempre. Para Denise, existem excelentes cachaças brancas que não passaram por envelhecimento e apresentam aromas e sabores extraordinários. Ou seja: tempo em barril não é garantia absoluta de qualidade.
Dá para reconhecer uma boa cachaça pelo cheiro?
Segundo ela, sim. Quem já está acostumado consegue identificar rapidamente quando há problemas. O principal sinal de alerta é quando o aroma agride o nariz.
“Se machucar seu nariz e tiver cheiro exagerado de álcool, de acetona ou até água de azeitona, fuja.”
Além de indicar defeitos na produção, esse tipo de bebida pode até representar riscos ao consumidor.
Uma frase para convencer qualquer estrangeiro
Antes de encerrar a conversa, fizemos um desafio. Se ela tivesse apenas uma frase para convencer um estrangeiro a experimentar cachaça, qual seria? A resposta veio quase como um convite para viajar sem sair do lugar:
“Feche os olhos e prove o Brasil no copo.”
Talvez essa seja justamente a maior virtude da cachaça. Mais do que uma bebida, ela conta um pedaço da história, da cultura e da identidade brasileira. E, como toda boa história, merece ser conhecida antes de ser julgada.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










