Quando um cachorro aparece abandonado na rua, a maioria das pessoas enxerga apenas o momento do resgate. Mas essa é, talvez, a parte mais simples de toda a história.
Depois que o animal é colocado em segurança, começa uma sequência de cuidados que envolve consultas veterinárias, exames, vermífugos, vacinas, castração, alimentação, transporte, hospedagem em lar temporário e, principalmente, tempo. Muito tempo.
Segundo a Glaucia Lombardi, presidente do Projeto Cão Sem Fome, um cão considerado saudável permanece, em média, 40 dias sendo preparado para adoção. Nesse período, ele recebe todos os cuidados necessários para encontrar uma nova família.
“Quando a adoção acontece rapidamente, os custos são menores. Porém, muitos animais permanecem semanas ou meses em lares temporários, gerando despesas contínuas com alimentação, hospedagem, transporte, acompanhamento veterinário e demais cuidados diários.”
O Projeto Cão Sem Fome acompanha cerca de 600 animais todos os meses, oferecendo ração, atendimento veterinário e apoio aos chamados “protetores independentes”, pessoas que acolhem animais abandonados em suas próprias casas, muitas vezes utilizando recursos próprios.
Quanto custa salvar uma vida?
Ao contrário do que muita gente imagina, a alimentação representa apenas uma parte da conta.
Um animal resgatado passa por diversas etapas antes de estar apto para adoção:
| Etapa | Valor aproximado |
|---|---|
| Consulta veterinária | R$ 200 |
| Banho e tosa | R$ 150 |
| Exames | R$ 100 |
| Vacinação | R$ 300 |
| Castração | R$ 430 |
| Vermífugos e medicamentos | R$ 48 |
| Alimentação (1 mês) | R$ 95 |
| Lar temporário, transporte e logística | R$ 600 |
| Total aproximado | R$ 1.923 |
Esse valor pode aumentar significativamente quando o animal chega doente, ferido ou vítima de maus-tratos.
“Nesses casos precisamos fazer campanhas, rifas, eventos e pedir doações para financiar o tratamento.”
O abandono está mudando de perfil
Um dado que chamou a atenção da equipe do Projeto Cão Sem Fome é que muitos dos animais abandonados hoje não nasceram nas ruas. São cães que tinham família.
Mudança de casa, separação, nascimento de um filho, dificuldades financeiras ou simplesmente falta de interesse continuam sendo alguns dos principais motivos para o abandono.
Segundo Glaucia, ainda existe uma falsa impressão de que entregar um animal para uma ONG ou para um protetor não caracteriza abandono.
“Existe uma cultura de que deixar um animal em uma ONG ou com um protetor não é abandono. Mas é. Muitos animais que viveram em uma casa não conseguem se adaptar à vida em comunidade e acabam adoecendo ou morrendo.”
Outro problema crescente é o abandono de cães idosos e de animais provenientes de canis clandestinos.
“Os cães que já não servem para reprodução ou não foram vendidos chegam em grupos de cinco, dez ou até vinte animais de uma só vez. Acolher tantos cães gera um custo altíssimo.”
A despesa que ninguém vê
Curiosamente, Glaucia afirma que o maior peso financeiro nem sempre é o tratamento veterinário.
“A alimentação pesa mais porque é uma despesa constante.”
Ela explica que campanhas para custear cirurgias costumam mobilizar mais pessoas, enquanto despesas do dia a dia passam despercebidas.
Ração, água, energia elétrica, produtos de limpeza, aluguel, transporte, manutenção e salários dificilmente despertam o mesmo engajamento de um animal ferido estampado nas redes sociais.
É justamente essa estrutura invisível que mantém o trabalho funcionando.
Muito além do dinheiro
Durante a entrevista, a conversa foi tomando outro rumo. A impressão inicial era de que esta seria uma matéria sobre custos financeiros. Mas ficou evidente que existe uma conta muito maior sendo paga todos os dias. A dos próprios protetores.
São pessoas que acolhem dezenas de animais em suas casas, enfrentam dificuldades financeiras, acumulam dívidas, lidam diariamente com sofrimento, violência e abandono e, muitas vezes, adoecem emocionalmente.
“O excesso de compaixão leva ao caos.”
Glaucia conta que muitos protetores começam ajudando um ou dois animais e, quando percebem, estão responsáveis por dezenas deles. Voltar atrás significa colocar aqueles animais novamente nas ruas. Continuar significa assumir uma responsabilidade praticamente impossível de sustentar sozinho.
A proteção animal não termina no resgate
Para Glaucia, reduzir o abandono depende de uma mudança de comportamento da sociedade. Ela acredita que cada pessoa pode fazer mais do que apenas compartilhar fotos nas redes sociais.
Acolher temporariamente um animal, ajudar nos custos de um tratamento, divulgar uma adoção responsável ou contribuir regularmente com projetos sérios são formas concretas de fazer parte da solução.
“Não há ONG ou protetor que dê conta de tanto abandono.”
Talvez a maior reflexão da entrevista seja justamente essa. Quando um cachorro é abandonado, alguém paga essa conta. Às vezes é uma ONG. Às vezes é um protetor independente. Às vezes são doadores anônimos.
E, muitas vezes, são pessoas que colocam a própria saúde física, emocional e financeira em risco para garantir que um animal tenha aquilo que nunca deveria ter perdido: a chance de viver com dignidade.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










