Quem acha que videogame retrô é um nicho pequeno talvez nunca tenha visto milhares de pessoas fazendo fila para jogar em uma TV de tubo, disputar uma partida em um fliperama ou procurar aquele cartucho que faltava na coleção há décadas.
A RETROCON nasceu justamente dessa paixão compartilhada. O que começou como encontros promovidos pela comunidade da WarpZone acabou se transformando em um dos maiores eventos brasileiros dedicados aos videogames clássicos.
Para Cleber Marques, idealizador da feira, tudo começou quando percebeu que aquela comunidade merecia um espaço próprio.
“Antes dos nossos próprios eventos, os encontros aconteciam em outras feiras, como a BGS. Depois fomos realizando eventos menores, para 300 ou 400 pessoas. Quando vimos que era hora de dar um passo maior, nos unimos a dois sócios e realizamos a primeira RETROCON, em 2023.”
Muito além da nostalgia
É comum dizer que nostalgia vende. Cleber concorda, mas acredita que ela é apenas parte da experiência.
Segundo ele, o sucesso do evento está na emoção que ele desperta.
“As pessoas querem reviver os bons momentos da infância, mas ao lado dos amigos e da família, da forma mais parecida possível com o que viveram naquela época. Por isso pensamos em cada detalhe do evento.”
Essa experiência explica por que consoles antigos, TVs de tubo, fliperamas, brinquedos, VHS, CDs e tantos outros objetos continuam despertando tanto interesse.
Um encontro entre gerações
Embora boa parte do público tenha vivido a era de ouro dos videogames dos anos 80 e 90, a RETROCON também conquistou uma nova geração.
Pais apresentam aos filhos os jogos com os quais cresceram. Mães mostram como eram os fliperamas de sua época. Crianças descobrem que diversão não depende necessariamente de gráficos ultrarrealistas.
“O nosso público é a junção desses dois mundos”, resume Cleber.
Quando a memória vale mais que o preço
Quem visita a área de expositores encontra muito mais do que produtos à venda.
Há colecionadores que aguardam o ano inteiro para encontrar uma peça rara. Quando ela aparece, dificilmente deixam a oportunidade passar.
Mas também existem aqueles que chegam apenas para passear e acabam levando um console para casa.
“Às vezes a pessoa vê um Super Nintendo, lembra de jogar Super Mario World e compra o videogame. Depois procura uma fita, uma TV de tubo… e quando percebe já entrou nesse universo.”
Preservando histórias
Apesar do foco nos videogames, Cleber acredita que a RETROCON preserva algo ainda mais importante.
“É a preservação coletiva da nossa memória mais nostálgica.”
Essa definição talvez explique um dos momentos mais marcantes já vividos durante o evento.
Ele lembra de um visitante que, ao ver um jogo rodando em uma TV de tubo, começou a chorar ao recordar da mãe, que costumava jogar com ele.
“Todo mundo em volta se emocionou. Naquele momento pensamos: o evento cumpriu o seu papel.”

Aprender faz parte do jogo
Organizar um evento desse porte também significa aprender constantemente.
Mesmo depois de anos realizando encontros da comunidade, a primeira edição da RETROCON trouxe desafios relacionados ao espaço, à organização e ao cronograma.
“Erramos em 2023, melhoramos em 2024, encontramos novos desafios em 2025 e certamente teremos outros em 2026. Faz parte de organizar um evento grande.”
De olho em 2026
A expectativa para a edição deste ano é alta.

A organização espera receber mais de 10 mil visitantes durante os três dias de evento e promete atrações internacionais de peso, como atores que participaram do primeiro Mortal Kombat para arcade e o artista responsável pelo visual de personagens de clássicos como Battletoads, Donkey Kong Country e Killer Instinct.
Mais do que uma feira de videogames, a RETROCON se tornou um ponto de encontro para pessoas que descobriram que algumas fases da vida nunca ficam realmente para trás. Basta ligar um console antigo, ouvir a trilha sonora de um jogo clássico ou segurar um controle nas mãos para perceber que certas lembranças continuam vivas.
Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo










