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O que os quadrinhos podem ensinar às empresas sobre comunicação?

Clareza, síntese e criatividade. Em um mundo onde todos disputam a atenção das pessoas, os quadrinhos podem ensinar lições valiosas para empresas e profissionais que desejam se comunicar melhor.

Quando pensamos em histórias em quadrinhos, normalmente associamos o formato ao entretenimento. Mas por trás dos personagens, balões e narrativas existe uma linguagem construída para fazer algo que muitas empresas ainda têm dificuldade de alcançar: transmitir uma mensagem de forma clara, rápida e envolvente.

Para entender o que o universo das HQs pode ensinar ao mundo corporativo, conversamos com o quadrinista, cartunista e escritor Érico San Juan, profissional que há décadas trabalha com comunicação visual e narrativa.

Segundo ele, um dos maiores erros cometidos pelas empresas é justamente não compreender o poder da síntese.

“Já fiz roteiros de revistas em quadrinhos para empresas. A tendência delas é ignorar o potencial de síntese da linguagem, em favor de diálogos entre personagens com balões gigantescos, em tom de palestra”, explica.

Na prática, o resultado costuma ser o oposto do desejado.

“O trabalho vira uma sucessão de imagens ilustradas com legendas, sem a fluidez desejada na leitura. Com isso, o objetivo de transmitir a mensagem perde o foco e o propósito.”

A observação vale não apenas para revistas corporativas, mas também para apresentações, reuniões, campanhas de marketing e até para a comunicação cotidiana entre líderes e equipes.

O problema não é falta de informação

Vivemos em uma era em que informação não falta. O desafio está em organizar e transmitir essa informação de forma que ela seja compreendida. Para Érico, um dos maiores problemas de comunicação tanto em empresas quanto entre pessoas está na dificuldade de ser objetivo.

“A dificuldade em se expressarem de forma clara, precisa e direta, sem recorrer a clichês do mundo corporativo.”

A frase parece simples, mas toca em um ponto sensível. Muitas vezes, profissionais tentam parecer sofisticados utilizando expressões complexas, jargões e discursos excessivamente elaborados. O resultado é uma comunicação menos eficiente.

Histórias ainda são a melhor forma de conquistar atenção

Enquanto muitas empresas lutam para conquistar alguns segundos da atenção de clientes e colaboradores, os quadrinhos fazem isso há mais de um século. Mas qual é o segredo? Para Érico, a resposta é direta:

“História envolvente. E imagens que sustentem a narrativa.”

A fórmula pode parecer óbvia, mas é frequentemente ignorada. Muitas marcas investem em informações, dados e argumentos, mas esquecem de construir uma narrativa capaz de gerar conexão emocional com o público.

O desafio permanente de conquistar leitores

Com redes sociais, vídeos curtos e plataformas digitais disputando a atenção das pessoas, seria natural imaginar que os quadrinhos estivessem em desvantagem. Érico vê a questão por outro ângulo.

“A minha experiência inicial de leitura de HQs se deu nas revistas vendidas em bancas de jornal e nas tirinhas publicadas em jornais. O desafio para os quadrinhos é continuarem acessíveis a um público maior, sem se limitarem aos tiozões feito eu.”

Para ele, a busca por relevância é uma missão permanente.

“Cativar o público é o desafio permanente. Seja qual for esse público.”

A reflexão também vale para empresas. Afinal, não importa se o canal é uma revista, um vídeo, um podcast ou uma rede social. Quem não consegue gerar interesse acaba sendo ignorado.

Criatividade não é exclusividade dos artistas

Outro mito que Érico faz questão de derrubar é a ideia de que criatividade pertence apenas ao universo artístico.

“Criatividade é uma ferramenta de poder, por isso ela é tão cerceada, inclusive entre os artistas.”

A afirmação chama atenção porque amplia o conceito de criatividade. Mais do que produzir arte, ela está relacionada à capacidade de resolver problemas, encontrar caminhos diferentes e construir soluções inovadoras — algo essencial em qualquer organização.

A principal lição dos quadrinhos para as empresas

Ao final da conversa, pedimos que Érico resumisse em uma única lição aquilo que os quadrinhos podem ensinar às empresas. A resposta foi tão simples quanto poderosa:

“Criação é importante, é fundamental, mas ela precisa estar a serviço dessa entidade relativamente abstrata: o cliente. Criação sem direcionamento é investimento desperdiçado.”

Em outras palavras, criatividade por si só não basta. Comunicação eficiente acontece quando existe um objetivo claro e quando a mensagem é construída pensando em quem vai recebê-la.

Talvez seja justamente essa a grande lição dos quadrinhos para o mundo corporativo: comunicar menos para impressionar e mais para conectar.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo