Saúde

Um País Pode Impedir Uma Geração Inteira de Fumar?

Nova lei britânica proíbe a venda de tabaco a todos os nascidos a partir de 2009 e levanta uma questão discutida por Heródoto Barbeiro no programa Por Dentro da Máquina: a força da lei é suficiente para encerrar um hábito que atravessou séculos de proibições?

Imagine dois jovens diante do balcão de uma loja no Reino Unido. Um nasceu em 31 de dezembro de 2008. O outro, em 1.º de janeiro de 2009. Há apenas um dia de diferença entre eles, mas, pela nova legislação britânica, o primeiro poderá comprar cigarros legalmente, enquanto o segundo jamais poderá fazer a mesma compra.

É assim que o Reino Unido pretende criar sua primeira geração livre do tabaco. A Lei do Tabaco e dos Vapes, sancionada em abril de 2026, torna ilegal a venda de produtos de tabaco a qualquer pessoa nascida a partir de 1.º de janeiro de 2009. A medida começa a valer em 2027.

Na prática, a idade mínima para a compra aumentará um ano a cada ano. A regra não criminaliza quem fuma nem proíbe a posse de cigarros. O alvo é o comércio: impedir que as novas gerações tenham acesso legal ao produto e, com o passar do tempo, retirar o tabaco do comércio legal.

No programa Por Dentro da Máquina, Heródoto Barbeiro chama atenção para a ousadia da iniciativa, mas também para a dúvida que surge imediatamente diante dela:

“Será que isso vai funcionar?”

A lei consegue vencer um hábito?

Não é a primeira vez que autoridades tentam conter o tabagismo. Ao longo das últimas décadas, diferentes países proibiram a propaganda de cigarros, restringiram o consumo em ambientes fechados, retiraram os maços dos pontos de maior visibilidade e obrigaram os fabricantes a expor imagens e mensagens sobre doenças associadas ao tabaco.

O Brasil é um dos exemplos mais reconhecidos desse esforço. Entre 2006 e 2024, o percentual de adultos fumantes nas capitais e no Distrito Federal caiu de 15,7% para 11,5%, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer. Nos anos mais recentes, porém, a redução perdeu força. O próprio INCA recomenda cautela na comparação entre 2023 e 2024 por causa de mudanças na metodologia da pesquisa, mas classifica o período atual como de estabilização.

Isso mostra que uma política pública pode mudar comportamentos, mas também que nenhuma conquista é definitiva. O mercado ilegal, a facilidade de acesso e o surgimento de novos produtos continuam desafiando a fiscalização e a percepção de risco.

O cigarro mudou de aparência

Heródoto relata uma cena que presenciou em uma estação de metrô. Enquanto esperava o trem, viu uma passageira retirar do bolso um aparelho pequeno e soltar uma grande nuvem de aerossol. Era um cigarro eletrônico. Depois da tragada, ela simplesmente guardou o dispositivo e entrou no vagão.

A cena ajuda a entender uma das principais dificuldades enfrentadas pelas campanhas atuais. Durante décadas, o cigarro foi sendo associado ao mau cheiro, às cinzas, aos dentes amarelados e às imagens de doenças impressas nas embalagens. O vape apareceu com outra estética: é discreto, tecnológico, colorido e oferecido em sabores variados. Muda a embalagem e, para muitos jovens, muda também a percepção do perigo.

No Brasil, fabricar, importar, vender, distribuir ou fazer propaganda de cigarros eletrônicos é proibido. A regulamentação da Anvisa também veta o uso desses dispositivos em recintos coletivos fechados. Mesmo assim, eles são vistos com facilidade nas ruas, festas e estações de transporte público.

A existência de uma proibição, portanto, não significa automaticamente o desaparecimento de um produto. Entre a lei escrita e o comportamento cotidiano existe uma máquina complexa, formada por fiscalização, comércio ilegal, influência social, publicidade disfarçada e desejo de pertencimento.

Uma discussão que atravessa séculos

O espanto provocado pelo fumo não é recente. Quando o tabaco chegou à Europa vindo das Américas, no século XVI, o hábito de expelir fumaça pela boca e pelo nariz chegou a ser associado a uma imagem demoníaca. Em 1642, o papa Urbano VIII determinou que o uso de tabaco dentro das igrejas da Diocese de Sevilha poderia ser punido com excomunhão.

Nem mesmo uma ameaça tão severa foi capaz de deter a expansão do hábito. O tabaco atravessou os séculos, transformou-se em uma indústria global e passou por diferentes ciclos de aceitação, glamourização e rejeição.

É justamente esse passado que torna a experiência britânica tão relevante. A nova lei não pretende apenas convencer as pessoas a abandonar o cigarro. Ela tenta impedir que uma parte da população entre no ciclo da dependência.

Mas o sucesso da medida dependerá de algo que nenhuma votação parlamentar consegue garantir sozinha: a capacidade de transformar uma proibição legal em uma nova norma cultural. Se os jovens continuarem desejando o produto, outros caminhos poderão aparecer. Se o cigarro tradicional perder espaço, novas formas de consumir nicotina poderão ocupar o lugar deixado por ele.

O Reino Unido decidiu começar pelo acesso. Agora terá de lidar com tudo o que movimenta a engrenagem por trás do hábito.

A pergunta deixada por Heródoto Barbeiro permanece no ar — junto, talvez, daquela nuvem vista na estação de metrô: estamos diante do começo do fim do cigarro ou apenas de mais uma transformação da maneira de fumar?