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Milhões de Brasileiros Não Conseguem Ler Essa Manchete

Na coluna Tome Nota, do Jornal NovaBrasil, Heródoto Barbeiro lembra as campanhas de alfabetização do passado e defende que escolas, igrejas, sindicatos e outras organizações também participem do esforço para retirar 8,4 milhões de brasileiros do analfabetismo.

Se você chegou até este parágrafo, realizou uma tarefa aparentemente simples: leu uma manchete, compreendeu o assunto e decidiu continuar. Para 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais, essa ação ainda não é possível.

Eles não conseguem ler um bilhete simples, identificar as informações escritas em uma placa ou registrar por escrito uma mensagem curta. Em um país no qual quase tudo passou a depender de telas, senhas, aplicativos e formulários, não saber ler e escrever significa encontrar uma barreira em praticamente todos os caminhos.

Na coluna Tome Nota, exibida no Jornal NovaBrasil, Heródoto Barbeiro chamou atenção para um problema que vem diminuindo, mas está longe de ter sido resolvido.

“Nós ainda temos 8 milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever. Esse número é ruim para a sociedade brasileira e, principalmente, para essas pessoas”, afirmou.

O menor índice da história ainda representa milhões de pessoas

Segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil tinha 8,4 milhões de pessoas analfabetas em 2025. A taxa chegou a 4,9% da população com 15 anos ou mais e ficou abaixo de 5% pela primeira vez na série histórica.

Houve avanço. Em 2024, eram aproximadamente 9,1 milhões de pessoas nessa condição, o equivalente a 5,3% da população da mesma faixa etária. Em apenas um ano, portanto, a estimativa caiu em cerca de 700 mil pessoas.

O dado merece ser comemorado, mas não pode servir como autorização para acomodação. Uma porcentagem aparentemente pequena esconde milhões de histórias marcadas por dependência, constrangimento e perda de oportunidades.

Quem não consegue ler pode precisar de ajuda para usar o transporte público, interpretar uma receita médica, conferir um contrato, procurar emprego, movimentar uma conta bancária ou compreender uma orientação do governo. O analfabetismo não permanece restrito à sala de aula: acompanha a pessoa no trabalho, no consumo, na saúde e no exercício da cidadania.

Analfabetismo não é o mesmo que analfabetismo funcional

Heródoto faz uma distinção importante. O número citado pelo IBGE se refere ao analfabetismo propriamente dito. Pela definição adotada na pesquisa, uma pessoa é considerada não alfabetizada quando declara que não sabe ler e escrever um bilhete simples.

O analfabetismo funcional é outro problema. Ele atinge pessoas que reconhecem palavras, frases e números, mas têm dificuldade para compreender textos, relacionar informações ou utilizar a leitura e a escrita em situações mais complexas do cotidiano.

As duas situações limitam a autonomia, mas não podem ser misturadas nas estatísticas. Os 8,4 milhões mencionados na coluna não representam todos os brasileiros com dificuldades de compreensão. Referem-se ao grupo que permanece privado das habilidades mais elementares de leitura e escrita.

Do Mobral aos desafios atuais

Ao comentar o tema, Heródoto recordou o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o Mobral, uma das iniciativas mais conhecidas da história brasileira voltadas à educação de jovens e adultos.

Criado em 1967, durante a ditadura militar, e colocado em funcionamento a partir de 1970, o programa pretendia enfrentar os elevados índices de analfabetismo existentes no país. O Mobral atuava por meio de uma estrutura descentralizada, com comissões municipais, salas de aula, professores e monitores mobilizados nas comunidades. Foi encerrado em 1985 sem cumprir a promessa de erradicar o problema.

Apesar das críticas feitas ao modelo, a lembrança do programa mostra há quanto tempo o Brasil tenta responder à mesma questão. As taxas caíram de maneira expressiva ao longo das décadas, mas cada geração que chega à vida adulta sem saber ler e escrever renova uma dívida que deveria ter sido resolvida durante a infância.

O desafio atual também é diferente daquele enfrentado nos anos 1970. Muitos dos brasileiros não alfabetizados são adultos ou idosos que trabalham, cuidam da família e carregam experiências negativas de exclusão escolar. Criar uma turma não é suficiente se o aluno não tem transporte, horário disponível, acolhimento ou confiança para voltar a estudar.

Uma responsabilidade do Estado que pode mobilizar toda a sociedade

Garantir acesso à educação é dever do poder público. Isso, porém, não impede a participação de outros setores. É justamente essa mobilização que Heródoto propõe.

“Eu não estou falando apenas de ação do governo. Estou falando de escolas que poderiam ajudar, de igrejas, sindicatos e outras entidades”, disse o jornalista.

Essas organizações já possuem algo decisivo para alcançar quem está fora da escola: presença nas comunidades. Escolas podem abrir espaço para turmas de educação de jovens e adultos; igrejas e associações podem localizar pessoas que escondem a dificuldade por vergonha; sindicatos e empresas podem contribuir com horários, transporte e divulgação das oportunidades de estudo.

A participação social não deve substituir políticas públicas, professores preparados ou financiamento permanente. Pode, entretanto, ajudar o Estado a encontrar quem permanece invisível para os programas oficiais e a remover obstáculos que fazem um adulto abandonar novamente a sala de aula.

O próprio Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos, instituído em 2024, prevê colaboração entre União, estados e municípios e a participação voluntária da sociedade civil organizada e do setor produtivo.

Zerar o analfabetismo exige enxergar pessoas, não apenas índices

No encerramento da coluna, Heródoto propõe uma ambição: chegar ao próximo ano podendo dizer que o Brasil zerou o número de pessoas analfabetas.

Talvez a meta não possa ser cumprida tão rapidamente, mas ela muda a maneira de olhar para o problema. Enquanto o objetivo for apenas reduzir algumas casas decimais, milhões de pessoas poderão continuar escondidas dentro de uma porcentagem considerada aceitável.

Zerar o analfabetismo exige procurar quem não procurará sozinho uma escola, compreender por que essa pessoa não foi alfabetizada e criar condições para que permaneça estudando. Exige também abandonar a ideia de que aprender tem idade certa. O direito à leitura não perde a validade quando alguém se torna adulto.

O Brasil alcançou a menor taxa de analfabetismo de sua história. A notícia é boa. Mas será realmente completa apenas quando nenhuma pessoa precisar pedir a alguém que leia por ela uma placa, um documento, uma mensagem — ou esta manchete.

https://www.youtube.com/watch?v=7A4cPGDZp80