Redes Sociais

Quando a internet ultrapassa o limite da opinião

Caso envolvendo Mila Seidl e Lito Sousa mostra como fragmentos de uma vida podem rapidamente virar julgamentos, acusações e até uma espécie de auditoria pública sobre escolhas que pertencem a uma família.

Mila Seidl anunciou que a família pretende vender o Volvo XC60 T8 de Lito Sousa e, em poucas horas, uma decisão essencialmente privada passou a ser discutida por milhares de pessoas como se todos tivessem acesso à planilha financeira, ao patrimônio, às despesas e, principalmente, ao que acontece dentro da casa do casal.

Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurodegenerativa rara e progressiva. Em meio ao tratamento e à reorganização da vida familiar, Mila explicou que o carro deixou de fazer sentido naquele momento: ficará sem uso por um período, continua gerando despesas e naturalmente sofre desvalorização. Ela também fez questão de esclarecer que a venda não seria para custear o tratamento do marido.

Parece uma explicação relativamente simples. Uma família enfrenta uma mudança radical na rotina, revê suas prioridades e decide se desfazer de um bem que, naquele momento, deixou de ser necessário.

Mas então entrou em cena a internet.

Vieram questionamentos sobre dinheiro, patrimônio, decisões financeiras e até sobre a existência de um suposto relógio de Lito avaliado em R$ 700 mil. A informação ganhou circulação suficiente para que Mila precisasse vir a público dizer que o relógio simplesmente não existe. Segundo ela, Lito não é ligado à ostentação e seu relógio mais caro custa cerca de R$ 3 mil.

Mas talvez exista uma pergunta anterior a essa: e se o relógio de R$ 700 mil existisse?

O que isso mudaria?

Se Lito tivesse decidido, em algum momento de sua vida, gastar R$ 700 mil em um relógio, seria uma escolha dele. Assim como poderia escolher comprar um carro caro, uma casa maior, viajar ou simplesmente manter seu dinheiro investido. A existência de patrimônio não concede aos desconhecidos o direito de assumir o controle moral sobre a vida financeira de uma família.

Seria diferente se o casal estivesse publicamente solicitando dinheiro alegando não possuir recursos. Nesse cenário, questionamentos sobre transparência poderiam fazer sentido. Mas Mila destacou justamente que não pediu dinheiro e explicou que nem sequer considera alternativas como rifa ou arrecadação coletiva compatíveis com o perfil de Lito.

Talvez esse episódio diga menos sobre o carro de Lito Sousa e mais sobre aquilo em que a internet está se transformando.

As redes sociais nos deram acesso a pedaços da vida de pessoas que antes jamais conheceríamos. Vemos o vídeo feito no hospital, a fotografia do carro, o comentário de um familiar, um trecho de entrevista, uma postagem de alguns segundos. O problema começa quando esquecemos que aquilo é exatamente isso: um pedaço.

Um recorte não é uma vida inteira.

Não sabemos quanto uma família ganha, quanto gasta, quais compromissos assumiu, o que perdeu, o que economizou, o que teme para os próximos meses ou quais conversas estão acontecendo quando as câmeras estão desligadas. Ainda assim, bastam alguns segundos de vídeo para que surjam especialistas em patrimônio, casamento, doença, comportamento, criação de filhos e decisões familiares.

No caso de Mila, o julgamento chegou até à legitimidade de seu sofrimento. Ela relatou receber comentários relativizando o momento vivido pela família por causa da condição financeira do casal. A situação levou a uma pergunta que talvez sintetize bem o absurdo: “Eu tenho que pedir autorização para sofrer?”

Dinheiro pode proporcionar conforto. Pode facilitar acesso a hospitais, profissionais, deslocamentos e inúmeras outras coisas que fazem diferença em um momento difícil. Isso é inegável. Mas dinheiro não transforma doença em algo menos doloroso. Não diminui o medo de perder alguém. Não elimina a incerteza. E certamente não estabelece uma espécie de tabela segundo a qual apenas pessoas de determinada condição financeira estejam autorizadas a sofrer.

Existe uma diferença enorme entre acompanhar uma pessoa pública e considerar que, por ela compartilhar parte da vida nas redes sociais, sua vida inteira passou a pertencer ao público.

Não passou.

Ser conhecido não significa entregar ao público procuração para decidir qual carro deve ser vendido, qual patrimônio deve ser mantido, quanto dinheiro pode existir na conta ou qual objeto alguém tem autorização para possuir antes de poder demonstrar tristeza.

A internet democratizou a opinião. Isso foi uma enorme conquista. Mas talvez estejamos confundindo ter o direito de opinar com ter autoridade sobre aquilo que estamos julgando.

Não são a mesma coisa.

Quem está do outro lado da tela possui uma história que começou muito antes daquele post e continuará muito depois dele. Existem conversas que não ouvimos, boletos que não vemos, medos que não conhecemos e decisões cujas razões jamais chegarão ao Instagram.

No fim das contas, Mila Seidl não precisa convencer a internet de que vender o carro é a melhor decisão financeira possível. Precisa apenas tomar, junto de sua família, a decisão que considera melhor diante da realidade que está vivendo.

Talvez esteja aí algo que as redes sociais estejam nos fazendo esquecer: nem toda escolha alheia precisa passar por votação popular.

Porque, por mais informações que a internet ofereça, sempre haverá uma parte da história que não aparece na tela.

E é justamente nessa parte que, muitas vezes, aperta o calo.

Fernando Vítolo é comunicador, escritor e entrevistador. Há mais de uma década trabalha contando histórias, conectando pessoas e produzindo conteúdo multiplataforma. @fernando.vitolo