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Economia

Banco Master x Ueno Bank: quais as diferenças entre os escândalos que abalaram Brasil e Paraguai?

Montagem editorial ilustrativa, sem pessoas identificadas, de crise bancária no Brasil e no Paraguai com bandeiras, documentos e indicadores financeiros

A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, em 5 de novembro de 2026, colocou o Ueno Bank no centro de uma crise política e financeira. O caso passou a ser comparado ao escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025. Há semelhanças, como a presença de dinheiro público e suspeitas de irregularidades bancárias. Mas os dois episódios têm dimensões, investigações e consequências políticas diferentes.

A comparação ganhou força após a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank. A instituição digital, com cerca de 2,9 milhões de clientes, teve problemas de solvência identificados pelo regulador e deixou correntistas temporariamente sem acesso a seus recursos. O episódio se tornou uma crise nacional, com protestos, investigações e pressão sobre o governo. No Brasil, o Master também desencadeou investigações e perguntas difíceis sobre a fiscalização financeira, sobretudo pelas operações com o BRB e pelos investimentos de regimes próprios de previdência.

O que aconteceu com o Banco Master?

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. Segundo a autoridade monetária, a decisão foi motivada por grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro. Naquele momento, o conglomerado representava apenas 0,55% das captações do sistema bancário brasileiro, segundo o próprio Banco Central.

Uma das frentes centrais da investigação é a negociação de carteiras de crédito entre o Master e o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal. Documentos da Polícia Federal apontaram indícios de créditos sem lastro, incluindo operações de R$ 12,2 bilhões. A apuração envolve banqueiros, executivos e os mecanismos de aprovação das transações. As conclusões das autoridades investigativas, as versões dos envolvidos e as responsabilidades individuais devem ser distinguidas de condenações judiciais definitivas.

Outra preocupação envolve dinheiro destinado à aposentadoria de servidores públicos. Dados do Ministério da Previdência, divulgados em reportagens, indicaram cerca de R$ 1,8 bilhão aplicado em letras financeiras do Master por regimes próprios de previdência estaduais e municipais entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Esses papéis não tinham a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). É importante não confundir esses regimes com os fundos fechados de previdência complementar, que, segundo a Previc, não tinham exposição aos ativos do Master.

O que aconteceu com o Ueno Bank no Paraguai?

O Ueno Bank cresceu rapidamente como banco digital e alcançou uma parcela expressiva da população paraguaia. Em novembro de 2026, o Banco Central do Paraguai iniciou um procedimento de resolução depois de identificar que seu indicador de solvência havia caído para menos da metade do mínimo legal. A restrição ao acesso às contas atingiu milhões de clientes, entre eles pessoas que recebiam salários e benefícios.

A instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores vinculados à previdência e à saúde. Reguladores e investigadores também passaram a examinar empréstimos a empresas relacionadas aos antigos controladores. A dimensão do banco ajuda a compreender o impacto: ele concentrava cerca de 9,1% dos depósitos bancários do Paraguai, proporção muito superior à participação do Master nas captações brasileiras.

A crise alcançou diretamente o governo. Santiago Peña foi acionista de empresa ligada ao grupo controlador do Ueno até março de 2025. Carlos Carvallo, então presidente do Banco Central paraguaio, havia comandado o banco antes de assumir a autoridade monetária e deixou o cargo no início da crise. Peña negou irregularidades. Em 5 de novembro, sob pressão de protestos e de parlamentares, anunciou a renúncia; a Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos a zero, uma acusação de impeachment. A tramitação institucional e a sucessão pelo vice-presidente Pedro Alliana estavam em andamento naquele dia.

Banco Master x Ueno Bank: veja as principais diferenças

PontoBanco Master (Brasil)Ueno Bank (Paraguai)
Modelo e expansãoCrescimento apoiado em produtos de captação, incluindo títulos com remuneração elevada.Expansão digital acelerada, alcançando cerca de 2,9 milhões de clientes.
Dinheiro públicoCerca de R$ 1,8 bilhão em aplicações de regimes próprios de previdência, segundo dados divulgados sobre 2023 e 2024; operações com o BRB são investigadas.Aproximadamente US$ 850 milhões administrados de órgãos públicos, incluindo previdência e saúde.
Suspeitas e apuraçõesInvestigações sobre carteiras de crédito negociadas com o BRB e outras operações financeiras.Problemas de capital, operações com partes relacionadas e apurações sobre gestão e controles.
Relações políticasTransações com banco controlado pelo governo do DF e investigações envolvendo executivos e agentes públicos.O então presidente Santiago Peña teve participação societária em grupo ligado ao banco; o chefe do BC havia presidido a instituição.
Medida do reguladorLiquidação extrajudicial decretada em 18/11/2025.Intervenção e resolução iniciadas em novembro de 2026.
Peso no sistema financeiro0,55% das captações brasileiras, conforme o BC na data da liquidação.Cerca de 9,1% dos depósitos do Paraguai, segundo dados publicados sobre a crise.
Consequência políticaInvestigações policiais e repercussão sobre instituições e autoridades brasileiras.Renúncia de Santiago Peña em 05/11/2026, com processo de impeachment em discussão.
Comparação com base em comunicados oficiais e reportagens disponíveis até 5 de novembro de 2026. Valores e situações processuais podem ser atualizados.

Primeira semelhança: recursos públicos e aposentadorias

É nesse ponto que os casos mais se aproximam. Quando um órgão público direciona recursos para uma instituição privada, a decisão envolve critérios de risco, responsabilidade dos gestores e fiscalização. Mesmo quando a operação é legalmente possível, é preciso saber por que aquele banco foi escolhido, que garantias existiam e quais alertas estavam disponíveis.

No Master, o debate inclui aplicações feitas por regimes de previdência de servidores de estados e municípios, sem proteção do FGC para determinados títulos. No Ueno, a preocupação envolve depósitos e outras aplicações de órgãos paraguaios, inclusive recursos previdenciários. Os mecanismos financeiros não são idênticos, e os valores não devem ser comparados sem considerar moedas, volume total de ativos e regras locais.

Segunda semelhança: bancos e poder político

Também há dúvidas sobre a proximidade entre instituições privadas e o poder público. No Brasil, o centro da investigação é, entre outros pontos, a negociação de ativos do Master com o BRB, banco de controle estatal. No Paraguai, os vínculos pretéritos de Peña com o grupo econômico e a trajetória do ex-presidente do banco na autoridade monetária ampliaram a pressão por explicações.

Essas relações são relevantes para o jornalismo porque podem indicar riscos de conflito de interesses, falhas de supervisão ou influência indevida. Mas uma relação comercial ou institucional, isoladamente, não comprova crime. A apuração precisa demonstrar decisões, benefícios, eventual violação de normas e responsabilidades concretas.

A maior diferença: o tamanho do impacto

Os números ajudam a explicar por que o Ueno levou a crise para as ruas do Paraguai em poucos dias. Cerca de três milhões de clientes de um país com pouco mais de seis milhões de habitantes tiveram sua vida bancária afetada. O banco concentrava uma fatia relevante dos depósitos do país. Já o Master, embora movimentasse cifras muito maiores em termos absolutos, tinha participação bem menor no conjunto das captações brasileiras.

Isso não diminui os prejuízos e riscos do caso brasileiro. Apenas mostra que o efeito imediato de uma quebra bancária depende da quantidade de pessoas atingidas, do peso da instituição em seu mercado e dos instrumentos disponíveis para proteger os depositantes.

Por que um caso levou à renúncia presidencial e o outro não?

O contexto político é decisivo. Peña tinha ligação empresarial anterior com o grupo associado ao Ueno, e a crise afetou diretamente uma parcela enorme da população. A pressão partiu da oposição, de manifestantes e também de setores de sua própria base parlamentar. Sua renúncia ocorreu durante as discussões sobre impeachment.

No Brasil, as investigações do Master alcançaram atores econômicos e políticos, mas a estrutura das responsabilidades é diferente. As operações com o BRB envolvem um banco público distrital e uma rede de agentes e decisões específicos. A ausência de uma renúncia presidencial equivalente não permite, por si só, concluir que houve maior ou menor rigor entre os dois países.

O que ainda precisa ser esclarecido?

Há perguntas essenciais nos dois casos. Quem autorizou a movimentação de dinheiro público? Quais relatórios apontavam riscos? Quando os supervisores identificaram os problemas? Os gestores tinham conhecimento suficiente para mudar de rumo? Que parte das perdas poderá ser recuperada, e por quem? Essas respostas dependem de documentos, auditorias e investigações, não de comparações feitas apenas pelo impacto político.

Até o momento, as informações consultadas não demonstram ligação operacional direta entre o Banco Master e o Ueno Bank. São crises distintas, ocorridas em sistemas financeiros e sob legislações diferentes. A semelhança mais importante talvez seja a mesma pergunta que permanece sem resposta definitiva: como instituições sob questionamento conseguiram atrair ou manter volumes expressivos de recursos públicos?

Produção de podcasts profissionais e corporativos com a Younik

Fontes consultadas

Reportagem: Redação Younik. Atualizada com as informações disponíveis em 5 de novembro de 2026. A imagem de destaque é uma composição ilustrativa criada para esta reportagem; não retrata uma cena real.